
O «assombro» da citação inicial de Raul Brandão é o outro nome da morte: «Mas agora é o tempo da morte.» E trata-se de uma morte concreta embora o poema não refira o nome daquele que está ausente, «alguém que nunca chegou, alguém comido pelos crustáceos.» Depois da morte, a mulher e o cão esperam o regresso do corpo: «ambos sabem que um náufrago vive no coração do mar / à espera que as correntes e as rochas / o devolvam à terra».
O poema-chave do livro é o da página 18: «A mulher inclina-se então sobre / o cântaro, tapada por um lenço / e bebe a água, toda a água, deixando / os lábios colados ao barro.» Aqui a morte do náufrago é a oposição à vida da água; essa oscilação entre a morte e a vida fica expressa no poema da página 20: «Quando o náufrago aparece / na rebentação, a fonte seca e todos / os cântaros racham com o sopro da água.»
A narrativa poética chega ao fim – «Nesse dia, tudo o que era vivo parou / a luz, a água, o vento./ Só a mulher / com o cântaro conseguiu aproximar-se / da praia e chorar.» A praia fica vazia porque «as mulheres desapareceram» e apenas resta o livro como memória desse tempo: «O que se segue fica escrito nas folhas de um livro.» Este livro de 24 páginas, breve mas luminoso e intenso.
(Editora: Volta d´mar, Foto/capa: Sylviane Lehuby, Produção: Luís Paulo Meireles).





