
Este livro surge com uma cartografia pessoal. Nele o autor regista os filhos («Não é um familiar. Nem um vizinho. Nem um amigo. Nem uma paixão»), o pai («O meu pai morreu há anos»), a mãe («Deste-me a Vida, o maior presente de todos») e a mulher: «Há cerca de vinte anos conheci numa pequena ilha no meio do Atlântico a Mulher da minha vida». Mas sendo um livro pessoal não se fica pelo «eu» e avança decidido para o olhar mais plural sobre o povo, a sociedade e o país onde o autor vive. Uma memória viva da guerra em África («Quando eu tinha 15 anos começou a Guerra Colonial / e os irmãos mais velhos dos nossos colegas a serem chamados / para Angola que Salazar dizia “É nossa!”») prolongada nas palavras do pai do autor quando este regressa de dois anos em Moçambique e se reencontraram: «Então rapaz, correu tudo bem? Para outros correu tudo mal como o Silva que já se tinha despedido dos amigos e fazia a última patrulha em Moçambique: «Ficou espalhado em mil pedaços por terras africanas».
O inventário do Portugal é irónico; seja na memória («Tínhamos um Império, dois se contarmos com o cinema») seja no jogo dos apelidos: «Ninguém perdoa ao Cavaco ser Silva, por isso ele vinga-se com o Professor Doutor mas mesmo assim continuam a olhá-lo como um “saloio”». O autor diz o que pensa sobre as leituras («Desde que me recordo como ser pensante todas as minhas lembranças surgem associadas a Livros») e sobre as mulheres: «O Presente para uma mulher de 40 anos é para ser vivido intensamente, antes que se transforme em Passado». Sem esquecer a sua noção de felicidade: começa com uma advertência («Todos os destinos são permitidos com excepção dos Centros Comerciais») e termina com um aviso: «Aproveitemos a Vida no que ela tem de melhor, / o Amor, a Amizade, o Prazer nas suas várias facetas. / Sem nunca esquecer que Vida há só uma. Esta.»
(Editora: Mercado dos Sonhos, Capa: Sofia Silveira)
José do Carmo Francisco





