«A última viúva de África» de Carlos Vale Ferraz

Há neste livro uma dupla inscrição. De um lado a narrativa em caracteres «Times»: «A guerra do Congo reunia todos os venenos. Os de pior fama naquele caldeirão de interesses pareciam ser os mercenários brancos . A figura de Jean Scrame incendiou paixões desde 1960, após ter surgido nos jornais como comandante de um grupo de guerreiros negros e brancos, Les Affreux, os Terríveis, envolvidos nos negócios da secessão do Catanga, um dos territórios mais ricos do planeta em minérios raros e de alto valor.» Do outro lado a reflexão em «itálico»: «As independências africanas sofreram a contradição da espingarda Kalashnikov, os independentistas negros utilizaram-na para se libertarem dos brancos, mas não a fabricavam e tiveram de a comprar aos brancos!» O conflito do Catanga e do Congo Belga passa em «Times» para o outro lado da fronteira: «Alice Oliveira sabia de fonte certa o que iria acontecer no Norte de Angola e quando. A data do levantamento em armas contra os colonos portugueses fora definitivamente marcada pelos dirigentes do Congo e pelos bacongos angolanos, seus aliados e familiares do outro lado do rio.» Em itálico ficam as perguntas e as respostas: «Porque não tomaram as autoridades portuguesas medidas para evitar o que sabem que irá acontecer?» «Porque a guerra interessa ao Salazar!».
Não se limitando à biografia de Alice Oliveira, este livro avança para uma figura mítica que também esteve em África como Che Guevara: «instalara um foco de guerrilha nas montanhas de Baraka, com alguns revolucionários cubanos, seus camaradas, grupos sobreviventes das forças dos Simbas derrotados e mais alguns membros da tribo do chefe Kabila.» Mas reflecte, mais à frente, sobre «os guerreiros coloniais reunidos à volta da Torre de Belém» que projectam memórias «dos legionários romanos que há dois mil anos, no Campo da Morte, lamentaram a independência da Hispânia, da Lusitânia, da Judeia e da Britânia».
(Edição: Porto Editora, Capa: Manuel Pessoa)





