Património cultural é a soma dos bens culturais de um povo, que são portadores de valores que devem ser legados a gerações futuras. É o que lhe confere identidade e orientação, pressupostos básicos para que se reconheça como comunidade.
Óbidos é uma comunidade que vive e sempre viveu em torno do seu património construído. Chegou-nos até nós do modo que hoje o conhecemos, produto também de uma ideologia do Estado Novo, que parece manter-se.
Óbidos vive economicamente do seu património, e assim continuará a viver. Não pode nem deve por isso ser desbaratado e desrespeitado como tem sido nos últimos anos.
Há gente verdadeira nesta terra e sem ela o espaço torna-se apenas num décor vazio que se vende em pedaços.
Tudo pode ser feito em Óbidos, todos os festivais, todos os eventos, todos os acontecimentos. Não é contra eles que me insurjo, é contra a forma como são feitos, contra a banalidade e a vulgaridade com que são apresentados, contra o vazio que a comercialização do espaço tem feito crescer.
O Património em Óbidos tem sido usado, abusado e não cuidado – lembro por exemplo, o belo portal de Stª Maria onde, há uns anos atrás, foram literalmente coladas luzinhas de Natal em cima da pedra que se desfaz: a pedra continua a desfazer-se e nada foi feito para que este processo fosse estabilizado.
O Aqueduto continua a degradar-se, a igreja do Sr. da Pedra está num estado miserável, os chafarizes estão vazios e, claro, não se podem encher, pois todos os painéis de pedra que constroem as bacias têm as juntas abertas e os agrafos partidos, a cal substitui-se lentamente por tinta de água, os espaços verdes fora de muralhas a poente transformaram-se em jardinzinhos pirosos, a cerca do castelo num parque de eventos permanente, falso e sem conteúdo.
Uma imagem falsa de Óbidos é construída todos os dias sem que os princípios básicos da preservação do património sejam respeitados.
Quem entra na vila encontra uma feira degradante, vendilhões de coisa nenhuma em barracas medíocres ao som de uma guitarra permanente dentro da porta da vila – um som de fundo que vende mentira. As lojas desdobram-se pela Rua Direita, ocupando cada vez mais o espaço público.
É responsabilidade de quem gere os sítios preservar os sítios e a vida das pessoas que a eles pertencem, assim se constrói um mundo civilizado, dando o exemplo e não aproveitando o que existe sem acrescentar mais que um balão vazio para “inglês ver”. Promovam-se eventos, sim, mas preserve-se e crie-se uma cultura de efectiva valorização do património da nossa vila, preocupações estranhas a uma edilidade que pratica o inócuo culto do espectáculo per si.
António Rosa







