
Conheça melhor Ana Sofia Reboleira, numa entrevista à diretora convidada da
Gazeta das Caldas
Ana Sofia Reboleira é caldense e há cerca de 20 anos que estuda o mundo subterrâneo, com elevados contributos para a ciência. Foi considerada Personalidade do Ano em 2023 pela redação da Gazeta das Caldas e é, agora, a diretora convidada desta edição especial dedicada à Ciência.
Já descreveu mais de 70 novas espécies e géneros para a ciência. Qual a que mais entusiasmo lhe deu?
O pseudo-escorpião gigante das grutas do Algarve, que é um animal fantástico do ponto de vista estético. É um animal extremamente troglomorfo, ou seja, com as características dos animais das cavernas, umas patas e pinças muito compridas, completamente cego, despigmentado e com o corpo muito alongado. É muito interessante também do ponto de vista biogeográfico, é aquilo a que chamamos uma relíquia biológica, um animal muito antigo, sem parentes próximos à superfície. Todas as espécies da família à qual pertence este animal, vivem debaixo de terra e a grande maioria das espécies desta família vive do outro lado do Atlântico, o que significa que estes animais são tão antigos que já habitavam este território antes dos continentes se separarem, portanto, há qualquer coisa como 160 milhões de anos. Este animal, dada a sua espetacularidade, não é de estranhar que rapidamente, três anos depois de ter sido descrito como novo para a ciência, passasse a integrar a lista das 100 espécies mais espetaculares do nosso planeta, o que é bastante justo.
O que tem sido feito para prosseguir os estudos no Algarve?
Nós trabalhamos de Norte a Sul do país. A grande maioria das cavernas em Portugal estão concentradas aqui no Oeste e no Sul, no Algarve. Do ponto de vista do interesse biológico, o Algarve assume uma espetacularidade maior, porque tem um maior número de espécies destas adaptadas à vida nas cavernas. E nesse contexto, foi no Algarve que uma das grutas onde trabalhamos foi classificada como um hotspot de biodiversidade cavernícola de classe mundial. Um local extraordinário como este merece também uma figura de proteção, de conservação da natureza especial e foi nisso que estivemos a trabalhar nos últimos anos, com a Câmara de Loulé, que classificou a caverna e a área circundante como um Monumento Natural Local. São ferramentas que os municípios podem utilizar para classificar áreas e, associada a esta classificação, vem uma regulamentação do uso e das atividades que se podem fazer no local, que vão desde a regulamentação da visitação, que neste caso é estritamente para fins científicos, dada a sensibilidade do local, e regulamenta também as atividades que se podem fazer à superfície, porque tudo o que nós fazemos à superfície tem um impacto direto em profundidade, a gravidade arrasta tudo, arrasta o alimento e também os contaminantes para o meio subterrâneo, sobretudo para as reservas de água subterrânea, que constituem as maiores reservas de água doce disponíveis para consumo humano imediato.
Esse tem sido outro foco do seu trabalho, o impacto das alterações climáticas…
As alterações globais, não são só no clima, sendo que a poluição é um problema gigantesco, porque tudo o que nós produzimos, sobretudo o que chamamos de xenotóxicos que são compostos produzidos por humanos que não existem na natureza nessa forma, ou pelo menos nas quantidades que libertamos. Estes compostos, resultantes das nossas atividades têm efeitos perniciosos nos seres vivos que habitam tanto à superfície como em profundidade, sendo que os animais que vivem em profundidade são aqueles que garantem a qualidade da água que nós utilizamos, mas não só, garantem também a qualidade dos solos. Basicamente toda a humanidade depende de um palmo de solo e de que chova para sobrevivermos. Precisamos de alimentos e a produção do alimento está dependente do solo e da água. E os animais terrestres que habitam as cavernas também mantêm a qualidade do subsolo. Por exemplo, constroem túneis, e nesses túneis incorporam matéria orgânica dentro do próprio solo, arejam o solo, um pouco aquilo que já é mais amplamente reconhecido que é o papel das minhocas no solo, estes animais fazem a mesma coisa no subsolo. E isso permite-nos ter solos de qualidade que vão garantir a segurança alimentar da humanidade.
No terreno são visíveis os impactos das alterações globais?
Sim, nós temos dados de medição, por exemplo, de temperatura ao longo da última meia-década, dados contínuos, medidos a cada duas horas no interior das cavidades, e o que vemos é que em meia-década a temperatura subiu um grau. A temperatura nas grutas é o equivalente à média da temperatura anual exterior no local onde as cavidades estão localizadas. Se nós tínhamos uma meta de um grau e meio até 2100, a subida máxima garantidamente será ultrapassada. Portanto, estas alterações verificam-se não só à superfície, como já sabemos, mas também em profundidade. Depois, quem anda debaixo de terra, sobretudo dentro de água, vê toda a poluição que chega a estes locais.
Desde maio dirige uma Cátedra na Faculdade de Ciências. Do que trata?
É uma Cátedra em Sustentabilidade de Ecosistemas Subterrâneos. Trabalha sobre três eixos principais que são a Ciência – a produção de conhecimento científico na área da sustentabilidade dos ecossistemas subterrâneos, o Ensino – visa a introdução destes temas no ensino na Universidade de Lisboa, nas diferentes áreas, e a Conservação da Natureza – com o desenvolvimento de uma estratégia nacional de conservação de ecossistemas subterrâneos que, como sabemos, têm sido negligenciados.
Sente-se uma exploradora dos nossos tempos a descobrir uma das partes que menos conhecemos do planeta e que apelida de sétimo continente?
Sim, isso é, diria, a parte mais divertida do trabalho.
E as principais dificuldades de um trabalho que é feito em profundidade? O que facilitaria, em termos tecnológicos?
A tecnologia avança a uma velocidade estonteante. Imagino que há coisas que nós há pouco tempo diríamos que seriam impossíveis vermos acontecer… Imagino que no futuro haverá melhores condições, mais fáceis de exploração deste mundo desconhecido. Por exemplo, em termos de movimentos dos animais na superfície, já se faz há muitos anos, nas águas, nos grandes mamíferos, são postos transmissores. Nós sabemos onde é que os animais andam a cada instante dentro do nosso planeta. Isso, no meio subterrâneo, é impossível ainda, porque os animais são pequeníssimos e não há transmissão através da rocha a várias centenas de metros. Mas, os chips cada vez são mais pequenos, e a tecnologia cada vez nos surpreende mais. Imagino que na próxima década seja desenvolvida a tecnologia que nos permita, efetivamente, seguir o movimento destes animais debaixo da terra, e saber onde é que eles andam, para onde é que eles dispersam, e como é que funcionam todos estes processos ecológicos, será uma questão de tempo. É claro que quando comecei a trabalhar nesta área, isso era algo impensável, mas agora já não descarto essa possibilidade de que isso aconteça em breve. E espero, ainda cá estar, para poder aplicar essa tecnologia e dar resposta a questões que continuam por compreender.
Como recebeu o convite para ser diretora convidada da Gazeta?
Foi uma grata surpresa. Eu sou leitora da Gazeta das Caldas não desde que nasci, porque quando nasci não lia, mas desde que comecei a ler que leio a Gazeta das Caldas, atrevo-me até a dizer que é o jornal que mais li dentro de toda a imprensa. Acho que é um veículo de informação muito importante, que comemora 100 anos este ano, enfrenta desafios extraordinários, como toda a imprensa, o abandono do papel, a passagem para o digital e a proliferação de outros veículos de informação, na maior parte dos casos falsa, o trabalho do jornalismo está em perigo e é preciso defendê-lo porque devemos ter acesso a informação fidedigna e isso é um trabalho que o jornalista faz e que as redes sociais que não filtram e não substituem. É um trabalho importantíssimo para a nossa sociedade e para a democracia.
Como correu a experiência?
A experiência foi muito interessante. Desde o início, quando me propuseram o desafio, comecei imediatamente a pensar: “se for desenhar um jornal, o que é que quero que apareça?”. Já o tinha feito para o Diário de Notícias há uns anos, mas obriga-me a pensar mais localmente na minha terra, onde nasci e vivo. E isso obriga-me também a refletir sobre a cidade, o que é um exercício interessante para um cidadão atento ao seu entorno.
Já foi considerada uma das mais influentes investigadoras do mundo, com todos estes trabalhos e descobertas, o que lhe falta fazer?
Sabe que, quando nós investigamos qualquer coisa, podemos encontrar algumas respostas, mas, essencialmente, o que encontramos são mais e mais e mais perguntas. Portanto, isto é um poço sem fundo. Tenho ainda muitas perguntas por responder. Às vezes surgem-nos perguntas muito mais interessantes do que aquelas que colocámos anteriormente e essa é a maravilhosa aventura da investigação científica. É um trabalho sem fim.








