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Beneditense liderou equipa que analisava 80 mil testes covid por dia, nos EUA

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Henrique Machado está ligado à microbiologia e à biotecnologia, seja na academia, seja na indústria, tendo já passado pela Dinamarca e pela Alemanha

Henrique Machado, 37 anos, veio para a Benedita, de onde os pais são naturais, com sete anos, e aí estudou até ao 12.º ano. Mas é nos Estados Unidos da América que vive há vários anos, com a mulher eslovena e as três filhas do casal, depois de ter estado na Dinamarca e na Alemanha. Formado em microbiologia e biotecnologia, é na Amazon que labora, tendo entrado para o mundo da indústria em 2020; até lá, esteve ligado ao ensino e à investigação, na academia.

Licenciado em Microbiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, curso que frequentou entre 2006 e 2009, iniciou, logo a seguir, o mestrado em Microbiologia Aplicada na Faculdade de Ciências da mesma universidade, durante o qual teve a sua primeira experiência internacional: esteve seis meses em Odense, na Dinamarca, em Erasmus. Henrique regressou a Portugal no final de 2011, e decidiu que queria ter alguma experiência profissional antes de seguir para o doutoramento.

“Gostei muito de viver no estrangeiro e percebi que podia trabalhar em qualquer lugar”, conta. Não tardou até ser contratado para fazer investigação em biotecnologia na Universidade de Rostock, na Alemanha. Em 2013, rumou a Copenhaga para o doutoramento em Biotecnologia Marinha na Universidade Técnica da Dinamarca. Lá ficou três anos e meio, tendo tido aulas para aprender a falar dinamarquês, e “teria ficado mais tempo”, não fosse o desejo da mulher, que havia entretanto conhecido no doutoramento, de ir para um país com “invernos menos rigorosos”.

“Percebo por que é que os nórdicos se sentem mais produtivos. Eles recebem um voto de confiança assim que são contratados, ao contrário do que acontece nos EUA, em que tens de provar o teu valor.”

A paragem seguinte foi San Diego, Califórnia, para onde Henrique foi tirar um pós-doutoramento no Scripps Institution of Oceanography. Ingressou depois no segundo doutoramento, no Instituto de Bioengenharia da Universidade da Califórnia. Os estudos no exterior foram financiados por bolsas.

“Quando o covid começou, estava a dar aulas de microbiologia no Grossmont Community College. Mas senti uma chamada para participar na sociedade mais ativamente, afinal a pandemia tinha tudo a ver com a minha área”, diz. “Deixei a universidade e fui trabalhar para uma das mais importantes startups ligadas à genómica populacional, que tinha reconvertido temporariamente a sua atividade para os diagnósticos ao covid”, recorda.
Na Helix, cujo “negócio principal é fazer sequenciação de humanos e tentar identificar biomarcadores de cancro”, Henrique entrou para a área de investigação e desenvolvimento.

A empresa acabara de receber uma bolsa RADx do National Institutes of Health (NIH), para elevar o número de análises ao covid nas amostras de esfregaço nasal a até cem mil por dia. E efetivamente a empresa conseguiu dar a resposta pretendida, chegando a sequenciar 80 mil amostras num dia.

“Conseguimos aumentar o número de testes com automatização, usando robots para fazer os diagnósticos”, explica, acrescentando que “fizemos 3 turnos, estávamos a trabalhar 24 horas”.

Mais tarde, liderou a equipa que fez a vigilância viral do covid, ou seja, que tentava identificar as variantes que iam surgindo. Para tal, a empresa desenvolveu uma “nova plataforma de sequenciação que identificava todo o genoma do vírus e depois atribuir-lhe a variante”.

“Trabalhámos sem parar; tudo era para ontem, na altura da pandemia. Estive lá apenas um ano e pouco, mas foi extremamente intenso e gratificante, e comecei a perguntar-me por que é que não tinha ido antes para a indústria”, reflete.

Findo esse período, passou para a Amazon, onde está há quatro anos, o que implicou também uma mudança para Seattle, na outra costa dos Estados Unidos. “Não posso revelar muito, mas o meu trabalho tem a ver com a aplicação da Inteligência Artificial na área da biotecnologia, da saúde, da sequenciação informática. Como é que podemos usar a expertise da Amazon para melhorar a investigação e os desenvolvimentos nessas áreas”, conta.

Fazendo um balanço sobre a sua vida, Henrique afirma que, “originalmente, via-me a perseguir a carreira académica de investigação e ensino. Ensinar no Grossmont Community College foi enriquecedor. Contudo, os recursos monetários e o processo de aquisição de fundos e posições é muito pouco transparente, pelo que esse caminho tem muitos altos e baixos”.

Já na indústria, ficou agradado com o “forte trabalho de equipa”, a existência de “objetivos específicos” e o facto do mérito ser “definitivamente mais recompensado, comparativamente com a investigação académica”. Também “ajudou” o facto de ter passado a auferir o “dobro do salário”. “Não me importava de voltar à academia, não ponho de parte essa hipótese; mas sei que não é uma transição feita com frequência e que é difícil de fazer acontecer”, conclui.

Um cientista desportista
Se o microscópio é já um velho amigo, o equipamento desportivo também não pode faltar. Na sua juventude, Henrique jogou futebol e fez natação de competição no clube da Benedita. “Nas finais éramos nós contra os Pimpões.” Quando estava na Califórnia, a prancha de surf estava sempre “debaixo da bancada”. “As horas de almoço eram para irmos surfar. Depois tomávamos banho e voltávamos para o laboratório”, recorda.

Em Seattle, esquia no inverno e faz caminhadas e acampa no verão, aproveitando as montanhas, florestas e lagos. Voltou ao futebol ou, mais propriamente, ao soccer. Ainda experimentou, durante um ano, o hóquei no gelo, e as meninas também já vão à natação. Tem sido uma grande ginástica, porque o casal não tem família nos EUA. Se ali “há grandes oportunidades que não encontramos na Europa”, voltar ao velho continente não está fora dos planos.

“Um fun fact: sempre adorei ciência, mas é um tópico difícil de abordar nas conversas do dia a dia”, comenta. Desejando dominar um tema que “tocasse a todos”, enquanto tirava o primeiro mestrado, decidiu iniciar a licenciatura em Direito. Porém, só conseguiu frequentá-la durante dois anos, pois depois partiu para a Alemanha. Enfim, pôde desforrar-se durante o covid, quando de facto era especialista no tópico mais abordado por todos.

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Edição #5628

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