
Bruxelas reconheceu a aposta da cidade no comércio local, digitalização e envolvimento comunitário para dinamizar o seu centro urbano e apoiar os retalhistas. O prémio, lançado pelo Parlamento Europeu e conhecido a 28 de janeiro, realça o papel vital do comércio de proximidade na economia local
“Para uma cidade como a nossa, mais do que um prémio [esta distinção] é uma responsabilidade e uma promessa para o futuro”. Foi com estas palavras que o presidente da Câmara das Caldas, Vítor Marques, agradeceu o prémio da Comissão Europeia, dedicando-o a todos os comerciantes, empreendedores, associações empresariais e cidadãos que “acreditam na comunidade e vida local” e que fazem da cidade o que ela é atualmente.
A escolha das Caldas da Rainha como Capital Europeia do Pequeno Retalho foi divulgada, ao final da tarde de 28 de janeiro, em Bruxelas, com a presidente do júri, Kristin Schreiber, a justificar a opção pela candidata que possui uma maior diversidade de ações a nível local, e europeu, mas também a que permite que outras cidades possam dela retirar maiores benefícios.
A concurso, nesta categoria de cidades médias (entre 50 mil e 250 mil habitantes) estavam também Braga (Portugal) e Fuenlabrada (Espanha). Uma “desigualdade”, em termos populacionais entre as várias concorrentes, que Vítor Marques acredita que tenha dado alguma vantagem às Caldas, que possui uma oferta comercial concentrada e diferenciadora. “Tem uma qualidade mas também uma performance que foram evidenciadas na apresentação, com mais de 50% de comércio e de serviços, que pesam na nossa economia”, salientou o presidente da Câmara, realçando que este tem sabido reinventar-se e consolidar-se.
“O que temos é muito bom no panorama nacional e internacional, mas nós ambicionamos mais e estas oportunidades, que surgem de projetos como o Bairro Comercial Digital ou os estabelecimentos com História, fazem com que sintamos vontade de continuar a capitalizar o que nos diferencia pela qualidade, que é o comércio tradicional”, concretizou.
Mais do que o acto de compra e venda, o comércio caldense tem “uma personalidade muito própria no atendimento e na resposta”, destaca o autarca, dando como exemplos a aposta no vitrinismo ou a sua ligação à cultura.
Vítor Marques acredita que o júri viu no projeto do Bairro Comercial Digital uma oportunidade de “fazer a diferença”, com propostas de futuro e um impacto grande na economia. Após acabada a candidatura, na ordem de um milhão de euros (o que deverá acontecer em junho), suportada por fundos comunitários, a Câmara das Caldas pretende continuar a investir no projeto. “Ele alimenta-se a ele próprio com o trabalho dos comerciantes, mas tem de continuar a ter um gestor do bairro. Irá custar-nos algum dinheiro, mas é fundamental”, realça o autarca.
Com este prémio, as Caldas ganha reconhecimento a nível europeu e reforço da marca territorial, com promoção ao longo deste ano, mas também uma maior visibilidade turística e económica. A sua participação em redes e intercâmbios inclui o acesso a workshops, sessões de networking e aprendizagem com outras cidades vencedoras, a participação num programa de intercâmbio de boas práticas de retalho urbano e o lançamento de eventos locais.
Em Bruxelas, as Caldas esteve representada por uma comitiva composta pelo presidente da Câmara das Caldas, pela gestora do projeto Bairro Comercial Digital e ainda um represente da AIRO, da OesteCIM, da ACCCRO, do Prontos e dos Silos – Contentor Criativo, bem como da comunicação social local (Gazeta das Caldas e Jornal das Caldas).
Estratégia que coloca comércio no coração da vida urbana
A candidatura a Capital Europeia do Pequeno Retalho nasceu no âmbito do Bairro Comercial Digital. Na sua apresentação, que durou apenas 15 minutos — o mesmo tempo que demora atravessar a cidade — Sara Lopes, gestora do projeto, sintetizou uma estratégia que coloca o comércio no coração da vida urbana, onde não é apenas uma atividade, mas uma forma de “cuidar, de criar comunidade e de contar quem somos”.
O pequeno comércio representa 54,9% do emprego, 55,9% dos estabelecimentos e 63,9% do volume de negócios na região. Números que justificam a aposta estratégica do município neste segmento económico. “Quando o comércio é forte, a cidade é ativa, as ruas estão vivas e a vida quotidiana é partilhada”, realçou Sara Lopes na apresentação.
O projeto enraíza-se no legado fundacional das Caldas, cidade criada no final do século XV pela Rainha Leonor com a construção do primeiro hospital termal do mundo. Esse espírito de cuidado moldou a identidade local e a forma como o comércio funciona — “não de forma transacional, mas relacional”.
No coração deste sistema está a Praça da Fruta, “o único mercado ao ar livre aberto diariamente em Portugal, ativo há mais de 500 anos”. Complementam este ecossistema a distinção de Cidade Criativa UNESCO, as cerâmicas que passam de artesãos e estudantes da ESAD diretamente para as lojas, e a integração no Geoparque.
Também a sustentabilidade é parte da vida quotidiana. Na apresentação foi dado destaque ao Plano de Ação Climática, Plano de Mobilidade Urbana Sustentável e ao Pacto de Economia Circular no âmbito das políticas públicas, enquanto que, no terreno, funcionam recolhas seletivas de resíduos, há ruas sem carros aos fins de semana, o sistema de transporte público local TOMA e comunidades de energia local. O principal programa de economia circular, a BioRainha, durante este ano, expandir-se-á para o comércio e serviços, levando práticas de economia circular diretamente a lojas, restaurantes e à Praça da Fruta. Será lançada a “Loja Verde Caldas” como rótulo de qualidade baseado em requisitos de sustentabilidade, complementado com oficinas de reparação, mercados de segunda mão, reciclagem têxtil e troca de competências entre gerações.
Digitalização com propósito humano
Nas Caldas, a digitalização “foi concebida para humanizar a tecnologia e reforçar a proximidade”. O programa “Acelerar 2030”, liderado pela ACCCRO, capacita pequenos retalhistas no desenvolvimento de competências digitais. O Bairro Comercial Caldas da Rainha@, elemento central desta estratégia, estará “totalmente operacional” em 2026, funcionando como distrito comercial digital. No seu centro está um mercado local multilingue, concebido para conectar o comércio local com a diáspora, turistas, residentes estrangeiros e pessoas com ligação emocional à cidade. A tecnologia tem por objetivo apoiar os comerciantes locais, criar novas oportunidades de negócio e garantir que não perdem receita na economia digital, explica a candidatura caldense.
A regeneração urbana será promovida através do programa Criar Caldas, que ativa lojas devolutas combinando intervenções artísticas, exposições em montras e rotas com curadoria. O comércio com História, que valoriza negócios familiares de longa data, vai crescer este ano com a inclusão de mais lojas.
Eventos âncora, como a MESTRA, Feira dos Frutos, Caldas Late Night, Bazar à Noite ou o Encontro Mundial das Capitais de Cutelaria, ganham maior visibilidade e a marca Caldas da Rainha será criada e lançada, “reunindo comércio, turismo, cultura e identidade”.
“Aqui a cultura não substitui o comércio – ela o amplia, apoiando a vitalidade urbana a longo prazo. O turismo e a cultura atraem as pessoas; o comércio manterá a cidade viva e vibrante”, concretizou Sara Lopes, antes de garantir ao júri que tudo o que é proposto para este ano é “mensurável, escalável e concebido para durar”.
As cidades premiadas

Foi premiada uma cidade em cada uma das três categorias do concurso, refletindo as diferentes dimensões das cidades e realidades do comércio retalhista na Europa. Além das Caldas, que venceu na categoria CidadeVibrante, Silandro, em Itália, foi distinguida como Cidade de Vanguarda (entre 5.000 e 50.000 habitantes), que destaca cidades de menor dimensão que “assumem a liderança na criação de ambientes inovadores e com visão de futuro para o pequeno retalho”. Finalistas nesta categoria estavam também Makarska (Croácia) e Silla (Espanha).
Também Barcelona, Espanha, foi uma das vencedoras, na categoria Cidade Visionária (acima de 250 mil habitantes), que “premeia cidades de grande dimensão que colocam o pequeno retalho no centro da sua estratégia a longo prazo para moldar um futuro sustentável e próspero”.
As duas outras cidades finalistas que concorreram com Barcelona foram Utrecht (Países Baixos) e Zaragoza (Espanha).
A decisão foi tomada por um júri composto por Kristin Schreiber (presidente do júri), Comissão Europeia – Direção-Geral do Mercado Interno, Indústria, Empreendedorismo e PME (DG GROW), diretora para os Produtos Químicos, Bioeconomia e Retalho (GROW.F); Bogdan Rzonca, membro do Parlamento Europeu e presidente da Comissão das Petições; Lamia Kamal-Chaoui, diretora da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Centro para o Empreendedorismo, PME, Regiões e Cidades (CFE); Christel Delberghe, diretora geral do EuroCommerce; e Else Groen, diretora geral do Independent Retail Europe.
“O júri europeu ficou impressionado com os resultados alcançados pelas cidades vencedoras nos domínios da sustentabilidade, do empreendedorismo e participação da comunidade, da digitalização, da atratividade e vitalidade da cidade”, refere nota da comissão europeia.













