Municipalização ajudará ao nepotismo
Ajustado o binóculo do tempo para a escola pública das próximas duas ou três décadas, o que vejo são os efeitos desastrosos de uma política que os nossos governantes iniciaram sensivelmente há cerca de 15 anos e que está a tornar impossível a vida dentro e fora das salas de aula.
A profusão de legislação, alguma pouco exequível e até contraditória, vai continuar a infernizar o trabalho nas escolas. As mudanças sistemáticas de orientações programáticas e metodológicas motivarão hesitações nos professores relativamente às matérias que hão-de privilegiar, mesmo havendo definição de “Aprendizagens Essenciais”. A construção dos publicitados projectos “inovadores” a partir de retalhos velhos e diversos, de difícil ajuste entre si trará indecisões aos alunos, que não saberão escolher entre o que desejam e o que precisam. A criação de mega-agrupamentos sem critério, que juntaram realidades diferentes e distantes, tornando muitas vezes difícil conciliar vontades e interesses potenciará dificuldades de gestão e aumentará conflitos mais facilmente resolvidos numa escala menor. A prevista municipalização, rotulada agora de “descentralização”, há-de ajudar ao nepotismo e criar pressões sobre as estruturas de gestão dos agrupamentos e das escolas. E o desprezo a que os professores têm sido votados, tanto pelo poder político como pela opinião pública e publicada, acentuará o mal-estar que grassa entre a classe, influenciando negativamente o seu trabalho e diluindo a sua resiliência.
António Almendra
Professor de Português
O fim da turma como forma de organização

Para acomodar estas atividades, a sala de aula será um espaço mais mutável e flexível onde os manuais escolares e os livros em papel serão substituídos por dispositivos eletrónicos e pela Internet.
O currículo mudará em alguns itens, mas a base essencial está estabelecida nas atuais disciplinas do ensino básico, ainda que os conteúdos sejam distribuídos por temas e projetos transversais. A programação de computadores será uma dimensão a acrescentar à matemática. As artes e as técnicas, as competências, o “saber fazer”, etc. desenvolvem-se com o domínio da informação e não no vazio.
A individualização implicará o fim da turma como forma de organização que será substituída por pequenos grupos e a gestão do percurso escolar deixará de incluir a “retenção”.
Luís Redes
Professor de Português
Veremos um ensino mais assimétrico
É difícil perspetivar, mas se recuarmos 20 anos, conseguimos perceber que à parte da adaptação das novas tecnologias à nova realidade escolar e de reformas educacionais avulso patrocinadas pelas cores políticas, tudo o resto mudou pouco no que respeita aos objetivos gerais que a escola pretende alcançar.
Vê-se hoje um ensino mais prático e técnico, mas será que isso traduz mais-valias individuais? Aparentemente sim, mas a realidade pós escola não é isso que mostra.
Os alunos são importantes enquanto candidatos à frequência da escola, depois são pouco mais que números da estatística de sucesso exigida.
Veremos um ensino mais assimétrico tendo em conta a condição social, com tentativa de oferta mais individualizada. Assistiremos a uma concorrência feroz pela angariação de alunos.
Se queremos que a escola tenha um papel mais determinante na formação de cidadãos, é preciso que esta tenha uma utilidade e importância muito diferente da que tem hoje e isso não imagino nem daqui a 20 anos.
Carlos Alves
Professor de Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação
(Re)pensar o ensino
Perspetivar a Escola do Futuro não é tarefa fácil, nesta sociedade em constante transformação, escrava da ebulição tecnológica e onde a efemeridade prevalece. Ideais, políticas e crenças sofrem contínuas mutações e os valores surgem distorcidos.
Nesta época de transição de paradigmas sociais, culturais, entre outros, em que os conflitos geracionais já não respeitam espaços temporais, importa questionar o futuro da educação e do ensino. Educar para quê? O que ensinar e como ensinar?
Temos de (Re)pensar o ensino, a relação aluno/professor/escola, privilegiando a vertente humanista que tem caído no esquecimento, a favor, infelizmente, da apologia frenética da tecnologia. Não se pretende um professor “Velho do Restelo”, avesso ao avanço tecnológico, mas, antes pelo contrário, um docente capaz de entender a realidade dos seus alunos, capaz de formar cidadãos que aprendam com gosto, com emoção e com discernimento.
Daqui a 20 anos, não me vejo a lecionar numa qualquer plataforma, através de um ecrã, projetando apenas conteúdos. Preciso do espaço da sala de aula, preciso do relacionamento com os alunos, preciso da partilha, preciso de alegrias, tristezas, encantamentos e deceções, preciso de sentir. Vejo-me a desafiar para a “humanização”.
Catarina Rodrigues
Professora de Português/Francês

A escola existente daqui a 20 anos resultará das transformações sócio-culturais impostas pela sociedade do conhecimento, com o progressivo desaparecimento do papel da esfera educativa. No plano teórico-conceptual, tenderá a operar uma ruptura definitiva com o paradigma racional-moderno, valorizando-se as soft skills em detrimento das hard skills e das emoções em detrimento da razão. No campo metodológico, aprofundar-se-á o ensino baseado em redes de ensino e aprendizagem envolvendo alunos e docentes em fluxos transnacionais. Em consequência, a escola tenderá a uma desmaterialização e consequente supressão dos edifícios públicos – para os governos haverá significativa poupança em nome da redução do défice público – rompendo-se com o modelo da escola socializadora e construtora de cidadãos. Outra consequência, já visível, será o esfacelo da esfera privada e o aumento do controlo estatal sobre os indivíduos, que será potencialmente mitigado com a eventual recuperação do ensino doméstico, de tradição greco-romana. Admirável mundo novo.
Miguel Santos
Professor de História
Aprender experienciando

As escolas não podem depender de voluntarismos erráticos; precisam, ao invés, de se adaptar física e tecnologicamente; ter gestão responsável, responsabilizada, e apreciada também; e dispor de mais/adequados recursos humanos (professores, técnicos, auxiliares, psicólogos, etc) formados e motivados para trabalharem em equipa.
Nestes 16 anos como professora já vi de tudo um pouco, faltar-me-á ver muito, espero; porque assim ensinam os que também querem aprender, assim eu faço e mostro aos meus alunos. Vivendo e aprendendo.
Acordo todos os dias, seja em que morada for, feliz por ir dar aulas aos meus alunos na “minha” escola do futuro!
Maria da Silva Gomes
Professora do 1.º ciclo
Papel activo na promoção da saúde

Sendo o aumento da obesidade infantil um problema do presente, a escola deverá ainda assumir um papel mais activo na promoção da saúde, estimulando o desenvolvimento de hábitos de vida de saudável, que passa obrigatoriamente pelo aumento do número de horas de prática de actividade física.
Luís Lalanda Ribeiro
Professor de Educação Física
Do muito positivo ao caótico

A regra, a finalidade e a exigência são património da cultura da escola, em paralelo com o erro, o drama, o afecto e a amizade. Para alunos, professores e outros profissionais, construir bons modelos de aprendizagem será sempre uma tarefa árdua. Por isso, a ideia de escola nunca prescindirá do dever de apoiar as necessidades de uns e de outros.
Paulo Prudêncio
Professor de Educação Física
Privilegiar competências Transversais
Tendo em conta que a evolução social é galopante e que estamos a falar de educar crianças e jovens para um futuro desconhecido, com profissões que passaram a ter uma dimensão global e outras que ainda não existem, perspetivo que a escola terá de adaptar os currículos e as formas de ensinar, privilegiando o desenvolvimento de competências que são e serão sempre importantes e transversais em qualquer profissão, em qualquer lado do mundo, como sejam a capacidade de adaptação, de trabalhar em equipa, de questionar, de resolver problemas, a criatividade, a responsabilidade, etc.
Enfim, penso que este processo está em curso, tendo em atenção, por exemplo, as alterações legislativas já para este ano letivo, na tentativa de adequar o perfil dos alunos na saída da escolaridade obrigatória à complexidade dos desafios que lhes vão surgindo. É para seguir este caminho, dando o maior e melhor contributo possível à educação, que trabalhamos todos os dias!
Mariana Maia
Professora de Direito
Uma Escola mais inclusiva

Nos próximos 20 anos, acredito que as mudanças serão mais acentuadas até porque vamos iniciar uma nova legislação. Perspetivo uma escola mais inclusiva que cria, de facto, oportunidades para todos os alunos aprenderem independentemente da dificuldade ou da deficiência. Acredito que a escola irá ter capacidade organizativa para criar valências e percursos que permitam que todos os alunos tenham sucesso e que haverá mais autonomia das escolas na definição dos currículos. A obrigatoriedade de todos os jovens frequentarem a escola até ao 12º ano vai obrigar a encontrar respostas educativas diversificadas.
Maria Leonor Pereira Pires
Professora de Educação Especial.






