“O Chefe do Governo esteve nas Caldas”, conta-nos a Gazeta do dia 13. “A título particular deslocou-se a esta cidade, na 4ª feira, o professor Marcello Caetano”, refere o artigo do então bissemanário, acrescentando que foi “recebido pelo Dr. Valente Sanches” e que “visitou a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo e o Museu de José Malhoa”.
Ou seja, depois do 16 de março e antes do 25 de abril, o chefe do governo de então visitou a cidade de onde havia saído a tentativa de golpe que ficou conhecida como o Golpe das Caldas.
Analisando, aos dias de hoje este acontecimento de há 50 anos, questionamos se o objetivo não passaria por “vender” uma sensação de serenidade e de união.
Também nesse sentido, a Gazeta transcreve um editorial do Diário de Notícias, jornal afeto ao regime, com o título “Significado da votação”, que diz que “no termo do discurso pronunciado perante o mais alto órgão da soberania nacional, e depois de simultaneamente ter exposto ao País, mais uma vez, as linhas mestras da nossa política africana, o Presidente do Conselho afirmou que o problema não era apenas seu, mas da Nação inteira. Deste modo, competia à Assembleia dizer se o rumo seguido até agora estava certo. Pela sua parte, submeter-se-ia disciplinadamente ao veredicto de quem tinha reconhecida autoridade para o proferir.
O Chefe do Governo não pedia uma moção de confiança – nem tinha sequer de solicitá-la. Tão pouco procurava razões ou indicações para prosseguir uma política ultramarina, plebiscitada, aliás, em sucessivas campanhas eleitorais e decorrente duma revisão constitucional amplamente discutida na devida oportunidade.
No momento, porém, em que outras soluções surgiram com larga divulgação, em absoluto contraste com as até então adoptadas, o Governo entendeu que devia interrogar o Parlamento sobre se o caminho escolhido era realmente o aconselhável para enfrentar da melhor forma o mais grave problema da hora presente. Daí, propô-lo à reflexão dos deputados.
A moção que havia sido apresentada ao plenário pela Comissão do Ultramar, fundamentada na comunicação do Presidente do Conselho à A. N. P., em meados de Fevereiro, serviu de base ao debate, imediatamente iniciado pelos membros da câmara legislativa. Durante três sessões, a África Portuguesa esteve assim na ordem do dia e nas preocupações dominantes dos representantes do País. Sucederam-se, nas tribunas, depoimentos sobre a actividade governamental em tão delicada matéria. Analisaram-se os condicionalismos que impõem a nossa presença no Continente Negro e norteiam o nosso pensamento, orientado para uma participação e autonomia progressivas, susceptíveis de fomentar o desenvolvimento das terras e gentes e afervorar os laços que as unem à Pátria Portuguesa.
O diálogo foi amplo e por vezes acalorado. Cada orador disse o que tinha a dizer, apresentou livremente alvitres e sugestões. Mesmo quando, neste ou naquele aspecto, discordou de decisões tomadas, fê-lo com absoluta dignidade e alevantados propósitos. A magnitude do assunto em debate justifica divergências e reparos. quando pautados pelo desejo de avançar mais depressa pelo caminho da paz portuguesa, pela qual nos sacrificamos e nos batemos.
A partir da última sexta-feira, o Governo sabe que em matéria de política ultramarina tem apoio unânime de todos os componentes do órgão representativo da Nação. O caminho traçado deverá ser percorrido até à realização total dos objectivos visados pelo programa que a nós próprios impusemos. Importa agora não tergiversar. Não nos podemos dar ao luxo de devaneios e hesitações. Impõe-se acima de tudo não perder tempo, pois ele é necessário, como disse Marcello Caetano, para continuarmos, além-mar, honestamente, o nosso intento de construção espiritual e material.
O parlamento pronunciou-se a favor do plano em curso, tendente a preparar o «futuro português» nas longínquas parcelas de África. Nós não podemos andar a discutir todos os dias qual o melhor rumo para atingir tal fim, o que não exclui, como é óbvio, os indispensáveis acertos ditados pela evolução dos acontecimentos.
Assim, perante o voto unânime da Assembleia Nacional, a determinação deverá ser só uma. Manter, sem desvios, a rota escolhida. Acelerar a participação e a autonomia progressiva do Ultramar para proveito das suas gentes e cumprimento da vontade da Nação”, lia-se no Diário de Notícias transcrito pela Gazeta das Caldas.
“O Diário de certa senhora…”

“Dia tal… tantos de tantos… Hoje estou exausta! Sinto-me doente, cansada, talvez mesmo com uma ponta de febre. Sim, esgotada… abatida por ter.…o que? Mas querida folha de papel que ia dizer?? Que ia escrever-te? Trabalhar? la dizer, trabalhar? Esgotada e com febre?!! Santo Deus, tanto adjectivo inútil, tão impróprio, que me parece ter perdido o juízo!! Oh! Tonta e fútil que eu sou! Espera «folha de papel», não me deixes ser tão leviana e irrefletida, deturpando o sentido verdadeiro das palavras, só porque tenho uma existência sem cuidados, frívola, demasiado cómoda, bem instalada, não, deixa-me ser sincera, quero pensar ao menos nesta hora em que faço de ti, amiga «folha de papel», a minha confidente. Espera! Por favor aceita-me tal como sou hoje, quero desabafar! Agora me ocorre que isso só poderia ter acontecido porque conversei três horas ao telefone com a Aida (aquela que sabe as novidades mais fresquinhas…). Ou seria as cinco horas de ontem que me retiveram no cabeleireiro? Não, suponho que foi na modista hoje de manhã (levantei-me cedinho, às 10 h….) fui fazer a 4.a prova do vestido para levar ao casamento da Rita. Seria na massagista? Na pastelaria? Oh! aquela Bijou tem sempre um sortido delicioso… Estou, pois, então cansada por tudo isto, por estes trabalhos todos? Hein???? Sim senhor! Exausta. Todavia, sinto-me em forma para novas provas dos dez vestidos e casacos de inverno que estão a confeccionar-se!!! Doente? Como assim? Penso assistir à noite ao banquete em honra do Exm. Embaixador de… Cabeleireiro?! Porquê estar lá tanto tempo? Possuo três perucas que trouxe de França! Porque não evitei a chatice de permanecer neste estabelecimento tantas horas? Na pastelaria? Tontice a minha, tenho imensos bolos em casa e uma excelente cozinheira… Sabes «folha de papel», que estou envergonhada? Não vês como estou estúpida e sinto um sentimento de culpa pelas expressões acentuadamente exageradas àcerca das minhas actividades na sociedade, a que pertenço? Vejo em tudo isto um lamentável erro de consciência, de ideias e de sentimentos. Acuso-me de estouvada, percebes? E sabes o que é ser consciente? Pois, neste momento, quero ser isso e olho receosa para dentro de mim própria e vejo essa «doença eterna» que tenho que reconheço chamar-se «tédio», tédio porque pouco ou nada faço de útil!! Desespero-me, pois, a fazer comparações, castigando-me na obrigação de reflectir a comparar a minha vida, quase toda de vaidade e luxo, com a vida de outras certas mulheres! Passa pelos meus olhos (os do pensamento) aquela mulher que eu conheço que mora num bairro próximo ao meu: Ela tem oito filhos! O marido, modesto sapateiro com ordenado baixo (ainda não sofreu o aumento…) é quem ganha para sustentar a prole e carrega com variadas despesas. Vejo essa mulher com três dos seus miúdos, (os do meio, provavelmente) um em cada mão, e o terceiro agarrado ao outro, a caminho da escola ou creche; na volta passará pela praça (já a tenho visto vir de lá) carregada como uma burra (de carga) com um cesto enorme a cabeça e um saco a puxar-lhe a mão para o chão… e ela caminha um dia e outro dia e tantos, tantos sem conta, carregando os pesos de comestíveis para alimento da família! Caminha a calçada, metade do trajecto será feito de carro (?) a outra metade vai a pé, a calçada é íngreme, escorrega no inverno e escalda no verão, mas chegará ao cimo, chegará a sua casa, e como? Cansada? Talvez não! Ela corre a preparar as refeições, ela limpa e varre a casa. A roupa, passa-a a ferro, ela, a mulher do sapateiro e mãe de oito filhos e sem carro e sem cozinheira e sem tudo, ela faz um sem número de coisas, trabalha. Nas tarefas domésticas, «ela» é imensa, desdobra-se, começando pelas mais grosseiras às mais suaves, por exemplo, esfrega o sobrado ou lava o seu bébé. Não tem pausa a mulher dos oito filhos, sem criada, sem modista e sem carro, ela quase não come, quase não respira! Trabalha!… São os fatos dos filhos e do seu homem (que é pobre) a remendar, são as camas a fazer, (e serão feitas diariamente?) e um filho talvez doente a necessitar dos seus cuidados e carinhos, e ela a mulher (burra de carga) não se queixa, não se lamenta, nem sequer tem pouco dinheiro, (porque tem pouquíssimo) e ela sobe a calçada sem um lamento e vai à farmácia buscar os remédios para o filho se curar.. E esta mulher não se entretém em ócios, tem que se apressar; como não tem telefone não conversa três horas com a Aida… Ela nem pensa que vive, que é nova e ainda bonita e que um monte de descuidos existe para com a sua própria pessoa! Ignora isso! O tempo escorre por entre os minutos e as horas do dia, sem que se aperceba da sua pele estragada, dos seus cabelos secos, do aspecto cansado e das suas pernas que engrossam e onde já surgem uns azulados riscos das veias dilatadas… A mulher dos oito filhos e dum marido pobre mostra-me, efectivamente, o que é o trabalho» esta espécie de «trabalho». Facto curioso, neste momento em que a ti, folha de papel, desabafo, destruindo um erro da minha consciência parece-me sentir que esta mulher, esposa mãe, sem carro, sem cozinheira e que não vai a banquetes, nem tem perucas, é feliz!!! Eu vejo no seu olhar um lampejo de felicidade, vejo sim! Já sei! É o comprimento de elevados deveres, é uma paz cheia de amor e abnegação que brilha nos seus olhos. Agora para finalizar, querida «folha do meu Diário», mais te confesso: hoje senti que, pela primeira vez, «trabalhei», sim, escrevendo estas linhas de justa homenagem àquela mulher dos oito filhos e do marido pobre, que eu vi a subir a calçada sem um queixume, sem revolta e que não tem carro nem cozinheira nem sequer pouco dinheiro… mas que, todavia, parece ser feliz!!
1970
P. S.: Ah! Esqueci-me, falta dizer-te que esta mulher ainda tem a seu cargo a sogra (de 72 anos e doente um pouco) que lhe facilita as tarefas, embalando os netos que vão nascendo ou mudando-lhes os cueiros quando estão molhados”, termina o artigo, que é um testemunho da sociedade de então e de como, em 50 anos, evoluímos tanto.
O ensino


A mobilidade
Também na ordem do dia, tal como acontece nos nossos dias, estava a mobilidade urbana nas Caldas. “O Estatuto experimental do Trânsito citadino está de novo em estudo”, informava a Gazeta das Caldas há 50 anos.

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, quando estamos cada vez mais próximos do 25 de abril. Até lá!














