
Desastre natural teve, ainda assim, menos impacto do que em Leiria e Marinha Grande e a região mobilizou-se no apoio às zonas mais afetadas
O impacto da tempestade Kristin no tecido empresarial da região Oeste já ultrapassa os 16 milhões de euros – sendo que em muitos dos casos está ainda a ser avaliada a real extensão dos danos – e obrigou muitas empresas a interromper total ou parcialmente a sua atividade, segundo o levantamento feito pela AIRO – Associação Empresarial da Região Oeste, após 72 horas de monitorização intensa e apoio direto às vítimas do temporal.
Segundo Sérgio Félix, secretário-geral da associação, “64% das empresas afetadas enfrentam alguma forma de paragem de atividade, sendo 38% interrupção total e 26% parcial. A grande maioria indica necessidade crítica de intervenção para evitar o fecho definitivo de portas”. O levantamento conta com cerca de 350 respostas validadas.
O concelho das Caldas da Rainha teve impactos menos dramáticos do que noutros concelhos vizinhos, no entanto, a destruição total de estufas e colheitas numa única empresa representa um prejuízo estimado de 4,5 milhões de euros, revela o levantamento da AIRO. Em Óbidos foram registados danos significativos em pequenas e médias empresas do setor de serviços e turismo, com impacto direto na operação diária e na sustentabilidade futura dos negócios.
A associação tem mobilizado a Expoeste e outros recursos para apoiar as empresas. A sede da AIRO foi aberta para disponibilizar espaços de trabalho e conectividade a empresários que perderam as suas instalações, garantindo a continuidade mínima dos negócios. Numa colaboração com unidades de Alojamento Local, a associação também tem assegurado alojamento temporário para empresários e trabalhadores afetados.
Alcobaça concentra o maior volume de casos reportados, com prejuízos de 9,92 milhões de euros, sobretudo na indústria e serviços/ logística.
Alenquer surge com 683 mil euros em prejuízos, sobretudo no setor vitivinícola e frutícola. De acordo com a AIRO, os setores agrícola, industrial e comercial são os mais afetados, não apenas pelo impacto imediato, mas também pelas consequências na produção e exportação futura. “No setor agrícola, a destruição de culturas permanentes e estruturas de proteção ameaça não só o presente, mas as campanhas de exportação dos próximos anos. Na indústria, a interrupção de cadeias de produção e a destruição de armazéns são as principais preocupações”, sublinha Sérgio Félix.
Até ao final da manhã desta segunda-feira, foram contabilizadas cerca de 330 respostas de empresas, embora 20% dos inquiridos ainda estejam a avaliar os prejuízos. “O trabalho de levantamento e apoio continua”, assegura Sérgio Félix, que apela à colaboração de todos para minimizar os efeitos da tempestade e apoiar a recuperação do tecido empresarial da região.
Empresa da Marinha Grande assegurou atividade nas Caldas
Apesar dos impactos, a região Oeste não foi tão fustigada como os concelhos mais a norte, nomeadamente Marinha Grande e Leiria. Caldas da Rainha, pela proximidade e por ter sido menos afetada do que os concelhos a norte, acabou por ser a escolha de muitas pessoas para procurar bens e também refúgio. Foi esse o caso da Alfaloc, empresa de transporte e logística com sede na Marinha Grande, que viu as suas instalações fortemente afetadas pela tempestade e encontrou nas instalações da AIRO a solução provisória para manter a atividade.
“Tal como muitas empresas da nossa região, vimos as nossas instalações bastante danificadas”, explica Bruno Lemos, diretor de marketing da Alfaloc. A empresa, com 30 anos, tem operação nacional e internacional, com várias estruturas pelo país. A sede, na Marinha Grande, é o centro dos departamentos de suporte que asseguram o funcionamento das operações espalhadas pelo país e por Espanha. Foi precisamente essa base que ficou comprometida com a violência do temporal.
Com cerca de 3500 clientes, a empresa dá suporte a inúmeras empresas exportadoras. A interrupção dos serviços poderia ter um efeito em cadeia. “Tivemos que encontrar uma solução que não pusesse em causa os negócios dessas empresas”, refere.
A escolha recaiu nas Caldas da Rainha, pela proximidade e pelas condições mínimas de funcionamento logo nos dias seguintes à tempestade. “Foi o local mais próximo que encontrámos onde logo no primeiro ou no segundo dia as comunicações estavam mais estáveis. Já era possível fazer telefonemas e enviar e-mails”, conta.
A associação empresarial disponibilizou espaço para acolher parte da equipa. Vieram para as Caldas os departamentos de informática, financeiro, apoio ao cliente, telesales, marketing e recursos humanos. “Somos cerca de 50 pessoas na Marinha Grande nestas áreas, aqui estamos cerca de 20, para assegurar os serviços mínimos”, detalha Bruno Lemos.
A deslocação não resolveu apenas questões operacionais. Muitos trabalhadores enfrentam ainda dificuldades pessoais. “Há muitas casas na Marinha Grande que ainda não têm água nem luz. Temos colegas com casas danificadas, carros, situações complicadas”, diz. A empresa contou inclusive com o apoio de um alojamento local das Caldas, encontrado através da internet, que permitiu a alguns funcionários tomar banho. “Se não forem através destas ações de solidariedade, há pessoas que nem isso conseguem ter”, sublinha.
Quanto ao regresso pleno à Marinha Grande, ainda não há certezas. “O nosso problema é a luz, a água e a internet, que ainda está um pouco instável”, explicou. Está prevista uma experiência com um grupo reduzido de trabalhadores nas instalações originais, mas a operação nas Caldas deverá manter-se, pelo menos, até ao final da semana.
Além da recuperação interna, a Alfaloc olha com preocupação para o impacto no tecido empresarial da região. “Ver aquelas empresas com os seus pavilhões completamente destruídos e com riscos enormes de sustentabilidade é uma preocupação muito grande”, afirma Bruno Lemos, alertando para “desafios enormes nos próximos meses, provavelmente anos”, se não houver apoio.
O relato de quem se cruzou com a Kristin
A caldense Marina Lopes é educadora social no Agrupamento de Escolas de Vieira de Leiria e reside na Marinha Grande, perto da zona industrial. A tempestade passou por ela e deixou marcas, mas o otimismo impera. Conta à Gazeta das Caldas que, ao longo do dia, ela e o namorado, João, foram sabendo da tempestade que se avizinhava. “Estava no trabalho, em período de avaliações”, lembra, notando que não havia a perceção do que seria a Kristin. Já quando estava a chegar a casa, depois das 19h00, “estava um calor atípico, os pássaros, como as gaivotas, estavam na Marinha Grande e o voo delas era muito esquisito, lembro-me de ver e pensar que era um voo atípico e de me questionar, lembro-me que não corria vento”. Já em casa, Marina ainda adormeceu, mas a partir das 3h00 acordou, “com tudo a voar, só se ouvia estilhaços de vidro, ecopontos a voar e a serem arrastados, coisas a caírem, árvores a cederem e a própria ventania que entrava nas casas… foi medonho e nunca tínhamos vivido nada assim”, conta, acrescentando que “mesmo as paredes abanavam, tínhamos medo que a lareira abrisse, ficámos incrédulos”. A tempestade fez-se sentir até às 5h30, sem parar, sem luz a partir das 3h30 e depois sem água e sem sinal de rede para comunicações. Não dormiram nada
“De manhã foi um cenário de guerra dantesco. Saímos de casa, os ecopontos estavam caídos, os carros estavam partidos, não havia telhados, víamos muros no chão, a cidade estava forrada com um tapete de telhas e outros destroços, como cabos, caixilharias e árvores”. Tentaram ir para Vieira de Leiria por três acessos, mas era impossível passar.
As escolas onde trabalha estão atualmente destruídas, bem como várias casas e há famílias desalojadas. A comida acabou, não havia combustíveis, numa situação de caos. “A praia da Vieira sofreu mesmo muito até porque a porta de entrada do vento foi ali”, nota. Marina Lopes lembra ainda “o cheiro na rua e estava tudo oleoso e pegajoso”. No seu caso ficaram sem algumas telhas em casa, com água a entrar na cozinha, tendo remendado com recurso a plásticos e cordas e com a ajuda de vizinhos, “mas comparativamente com pessoas que ficaram sem casa, não me atrevo a dizer que fiquei mal”.
Ainda assim, “a maioria das pessoas não está a perceber a dimensão”, salienta. Foi “horrível e aterrador”, descreve, revelando que se questionaram várias vezes: “como é possível?”.
Com receio de como teria sido a tempestade nas Caldas e preocupados com a família arrancaram, assim que puderam, para Salir de Matos. Como nas Caldas os impactos eram menores, rapidamente começou a organizar ajuda, “porque temos que nos ajudar uns aos outros e nas Caldas tinha rede”, nota. Assim, tem tentado articular ajudas com necessidades.
Além da destruição, os muitos acidentes e as mortes que se registaram nas reparações são um dos flagelos, mas há outro: uma onda de assaltos, por exemplo, a geradores, mas também a empresas e casas afetadas por esta tempestade, que trouxe ao de cima o melhor e o pior do ser humano.
Da região tem seguido ajuda, organizada por entidades como a Associação MVC e a Junta de Freguesia das Gaeiras, mas também com várias recolhas de bens, com o auxílio de várias empresas que cedem materiais e trabalho e com a boa vontade de voluntários que dão da sua disponibilidade em prol dos outros. Os relatos que fazem são de cenários de guerra, de destruição impressionante.














