Quarta-feira, 14 _ Janeiro _ 2026, 17:46
- publicidade -
InícioSociedadePopulação partilhou memórias e objectos sobre a Lagoa de Óbidos

População partilhou memórias e objectos sobre a Lagoa de Óbidos

-

Mais de 50 pessoas partilharam, durante o fim-de-semana de 26 e 27 de Janeiro, testemunhos orais, fotografias, documentos e objectos sobre a Lagoa de Óbidos. Os dados recolhidos serão agora trabalhados por uma equipa de investigadores que colabora no projecto do Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos e irão integrar a plataforma do programa “Memória Para Todos”, em finais de Fevereiro.

Mariscador há 45 anos, Alberto Jacinto foi uma das pessoas que na manhã de sábado se deslocou ao INATEL para partilhar o seu testemunho sobre a Lagoa de Óbidos. Consigo levou uma berbigoeira e uma fisga que antes se usava para a captura das enguias. “Antigamente juntavam-se duas ou três pessoas da famílias, apanhavam umas enguias, enquanto as mulheres coziam pão, fazia-se uma caldeirada em família e assim se comemorava aquele momento de felicidade de comer enguias da lagoa”, lembrou à Gazeta das Caldas.
Natural do Nadadouro, Alberto Jacinto é descendente de pescadores e mariscadores. “Os meus bisavós já tinham um barco de pesca”, disse, recordando que começou a capturar ameijoa com oito anos, juntamente com o avô.
Entretanto muita coisa tem mudado na Lagoa. O assoreamento na zona das cabeceiras leva a que já se note naquela zona a falta de espécies como enguias, solhas e linguados. “A água não possui a profundidade necessária para estas espécies se esconderem dos predadores, nomeadamente as aves, e acabam por se deslocar”, explica.
Sobre o projecto em que participou, destacou a relevância de recordar as memórias antigas, para transmitir aos mais novos o que já foi Lagoa e também para “ver se conseguem sensibilizar os poderes para que ela permaneça por muitos anos”.

[showhide]
Também Aníbal Casimiro, do Nadadouro, participou na iniciativa onde contou a sua experiência e partilhou imagens antigas. Foi pescador durante muitos anos, até que emigrou para o Canadá, mas voltaria à mesma actividade. “Sou apaixonado pela Lagoa, todos os dias pego no carro e vou vê-la”, disse Aníbal Casimiro, de 81 anos, que continua a ter o barco na Lagoa e dedica-se à pesca lúdica.
Considera que estas iniciativas são necessárias para se preservar a memória, mas lamenta que os políticos nunca tenham chegado junto dos pescadores para perguntar a sua opinião antes das intervenções na Lagoa, que actualmente se encontra muito assoreada.
Entre os objectos disponibilizados estava, logo à entrada da sala, uma réplica à escala, de uma bateira, feita pelo construtor de bateiras residente na Usseira, Rogério Neves (já falecido). O objecto foi levado por Ilda Cruz, técnica de turismo, que também participou na iniciativa. A sua relação com a lagoa começou nos tempos de estudante, quando fez um trabalho de final de curso sobre a Lagoa de Óbidos como ecomuseu, e continuou durante o tempo em que estagiou no Inatel e dinamizou algumas exposições, exactamente sobre esta lagoa, onde a bateira sempre marcou presença.

Respeito pela propriedade intelectual das pessoas

Durante os dois dias os investigadores do Instituto de História Contemporânea recolheram testemunhos orais, fotografias, documentos e objectos de registos sobre a Lagoa de Óbidos, que a partir de finais de Fevereiro irão integrar uma secção na plataforma “Dias da Memória”.
Foram digitalizadas fotografias de espólios pessoais e familiares, dando conta das actividades realizadas na Lagoa e na sua envolvente, desde passeios de barco e piqueniques  à apanha de marisco, peixe e limos. Foram ainda partilhados muitos objectos ligados às artes de pesca, como galrichos e nassas,  entre outras redes, e vários bivalves recolhidos naquele ecossistema.
Nos seus testemunhos, os participantes também referiram as festas populares e religiosas, a gastronomia, fluxos migratórios, atividades económicas e de recreio, técnicas associadas às artes de pesca e marisco (redes, embarcações, instrumentos, técnicas de apanha), fauna e flora.
Fernanda Rollo, professora da Universidade Nova de Lisboa e coordenadora do programa Memória para Todos, destacou que estes projectos são muito ricos do ponto de vista humano e científico e que estão muito alinhados em termos de ciência cidadã e história colaborativa e pública. “Pretende também devolver um pouco à comunidade o conhecimento que vamos acumulando ao longo dos anos e que não nos serve de nada guardado na gaveta”, disse, acrescentando que a grande preocupação é a patrimonialização dos testemunhos.
A trabalhar estavam jovens historiadores, arquivistas e bibliotecários, “conhecedores das boas práticas e respeito por tudo o que tem a ver com a propriedade intelectual das pessoas”, realçou a historiadora, que exerceu até Outubro passado as funções de secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
A responsável destacou ainda a importância que a imprensa regional, nomeadamente a Gazeta das Caldas, tem dado à Lagoa e que “é muito reveladora também do que são as dinâmicas bem como as questões do associativismo”.
Este projeto é feito em articulação com o Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e que permite abordar com mais profundidade a biodiversidade da Lagoa de Óbidos. Para além disso, acrescenta, Fernanda Rollo, “tem o estimulo da participação pública [através do Orçamento Participativo de Portugal] em que as pessoas desta comunidade votaram e quiseram este projecto”.
Todos aqueles que não puderam participar podem ainda fazê-lo através do e-mail avenidas@memoriaparatodos.pt. Os materiais serão tratados, contextualizados e patrimonializados integrando a Plataforma www.memoriaparatodos.pt em finais de Fevereiro e posteriormente a exposição e conteúdos do Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos.
O programa de investigação “Memória para todos” continua em desenvolvimento com os projectos da Primeira Guerra Mundial e das memórias do 25 de Abril de 1974. Irão também fazer a segunda edição dos Dias da Ópera, a história da PSP e iniciar um trabalho sobre as aldeias de Portugal.

Números
251 digitalizações
49 entrevistas (aproximadamente 52 horas de gravação)
51 objectos
9 filmes de família
15 investigadores

[/showhide]

Gazeta das Caldas
Um búzio que era utilizado pelos mariscadores para comunicar |JLAS

Loading

- Advertisment -

Edição #5625

Assine a Gazeta das Caldas e aceda todas as notícias premium da região Oeste.

Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.