
Um dos pontos fortes destes poemas é a ironia, por exemplo na página 20: «É improvável que alguma vez venha / a ser dos melhores. / Às vezes sonho com medalhas, imagino-me no pódio a receber o aplauso de multidões.» Sendo a Vida efémera e a Morte inevitável, só o Amor nos salva e a Poesia pode ser uma forma de Amor: «Prefiro o canto transparente, solto / na folha absoluta deste vazio.» No poema da página 15, de modo hábil, o autor junta um episódio do quotidiano («A menina do primeiro andar chora diabolicamente») para se aproximar ao acto da escrita: «Estará convencida de que chorando / transmitirá aos outros dores que são apenas dela». Estamos perante uma poesia com algumas referências culturais mas sempre com voz própria: passa por José Malhoa, Susanne Valadon, Camões, Fernando Pessoa, Albert Camus, Patrick Kavanagh, James Joyce ou Micah P. Hinson e Jacques Brel – que um poema pode ser também uma canção: «A luz das manhãs no Inverno é uma / canção triste sobre o fim do amor.»
(Editora: Medula, Capa, composição e paginação: Manuel A. Domingos)





