Médicos, enfermeiros e técnicos de saúde viram-se forçados a abdicar da presença dos familiares mais próximos nos últimos dois meses, por forma a diminuir o risco de contágio. As novas tecnologias permitem um “contacto” diário, mas nada substitui o toque e a saudade começa a deixar marcas. Caldense Ana Monroy Baltazar voltou para casa da mãe, nos Vidais, por uma questão de segurança.
Há médicos, enfermeiros e técnicos de saúde que, nestes tempos de pandemia, se viram obrigados a viver longe da família mais próxima, por forma a diminuir a possibilidade de contágio do novo coronavírus. O dia-a-dia destes profissionais mudou quase de um dia para o outro e são inúmeros os relatos daqueles que abdicaram da família para cumprir uma missão.
Ana Monroy Baltazar nunca apreciou propriamente a celebração do Dia da Mãe em Maio, porque ainda é do tempo em que a data se celebrava em Dezembro. Contudo, a técnica superior na área da psicomotricidade no Hospital das Caldas assume que gostaria de ter assinalado a data, no passado domingo, pois isso significaria que já poderia voltar a contactar o marido e os filhos sem receios de contágio.
Há dois meses que a caldense decidiu jogar pelo seguro. Para evitar expor os familiares directos, optou por regressar a casa da mãe, nos Vidais, para permitir que a família estivesse em confinamento no Baleal. As saudades apertam a cada dia que passa.
“É curioso como toda esta situação teria feito com que valorizasse mais o Dia da Mãe em Maio”, assume a clínica, que divide um dos pisos da casa com a progenitora, de 88 anos, “mas sem contactos físicos” e que fala diariamente com o marido e os rapazes, de 21 e 13 anos, pelas redes sociais. A filha mais velha já casou e tem a própria família para cuidar.
“Em casa da minha mãe, que é muito grande, ando sempre com máscara e luvas. Vivemos em pisos distintos e partilhamos apenas a cozinha, mas cada uma tem um fogão”, explica Ana Monroy Baltazar, que continuará afastada dos filhos “talvez por mais duas semanas”, mas continua a acompanhar o dia-a-dia daqueles que mais ama.
O marido, que é professor de ginástica num ginásio que fechou durante a pandemia, “está um autêntico dono de casa”.
“Ele vai às compras, faz a comida, arruma a casa e até passa a ferro, que não fazia com muita frequência. Para mim e para ele acaba por custar mais o afastamento, para os miúdos acredito que seja mais fácil lidar com isto”, explica.
Inicialmente, os filhos não “acharam estranha a situação e nem se aperceberam do tempo que poderia durar”. Para aliviar a distância, falam “várias vezes por dia, em vídeo-chamada” e como a casa “é junto à praia é mais fácil passar o tempo”.
“Eles ainda fizeram surf durante algum tempo e montaram uma tabela de basquetebol na rua para tentar minimizar as coisas”, assume, frisando a saudade “é, de facto, o mais complicado”.
“Não poder estar presente custa. E quando recomeçaram as aulas ainda mais, porque quem fazia o acompanhamento escolar era eu”, diz a esepcialista em psico-motricidade na pediatria da unidade das Caldas do Centro Hospitalar do Oeste, que abdicou do tempo com a família para cuidar dos outros, mesmo correndo os riscos inerentes à profissão que abraçou e cujo espírito de missão a leva a enfrentar “os receios naturais deste tipo de situação”.
“Há sempre receio, embora eu não contacte diretamente com casos suspeitos de Covid-19, pois o facto de passar os dias no hospital aumenta as hipóteses de contágio”, assume esta profissional de saúde, de 56 anos, que deseja que as novas regras de distanciamento social não tenham implicações a longo prazo na forma de ser dos portugueses.
“Somos um povo muito próximo e afetuoso, somos pessoas que se tocam. Espero que não nos tornemos num povo frio, com o medo de sermos infectados”, sublinha.





