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Óbidos ao longo de meio século de vida autárquica

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José Luiz Almeida Silva, diretor da Gazeta das Caldas durante mais de 50 anos, escreve momentos da história e partilha memórias da vida autárquica do concelho desde a década de 70

Foi no início da minha idade adulta que comecei a frequentar regularmente a vila de Óbidos, num tempo em que as deslocações individuais eram raras e resultavam da disponibilidade de transporte particular ou do uso esporádico do comboio.
Recordo Óbidos naqueles tempos com a imagem, austera e fria, de um burgo muralhado, com uma população pequena, que se conhecia entre si e cujas rotinas eram interrompidas pelos escassos visitantes na época, em que em certos momentos da manhã havia uma animação inusitada com a passagem de alguns grupos de turistas estrangeiros. Estes seguiam um percurso organizado a partir de Lisboa por algumas empresas turísticas, nomeadamente a Capristanos Turismo e a Cityrama (criadas em 1962 pelos irmãos Artur e José Capristano que tinham deixado Caldas da Rainha à empresa Claras e criado aquelas empresas emblemáticas e que foram um dos alicerces do turismo moderno no nosso país), seguindo de Óbidos para o mercado das Caldas, Nazaré e Fátima.

Óbidos nesta época tinha três marcas impressivas: A Pousada do Castelo que foi liderada até à sua morte por Luiza Satanella (artista italiana radicada em Portugal desde o início do séc. XX, a quem António Ferro entregou a sua gestão); a Galeria Ogiva, criada pelo Escultor José Aurélio em 1970 e que teve um programa cultural ultra inovador para a região trazendo à vila os principais artistas contemporâneos e a Loja de Antiguidades, depois Bar do Sr. Montez (Bar Ibn Erik Rex), atraindo visitantes estrangeiros e nacionais.

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É esta a imagem que retenho do início dos anos 70, juntamente com as célebres procissões da Paixão na Semana Santa, que eram transmitidas pela televisão, que nascera nos finais da década de 50, naquilo que era verdadeiro teatro religioso num cenário monumental dado pelas muralhas, praças, ruas e igrejas.

Era este o cenário mais conhecido desse tempo, em que a autarquia fazia o que podia para reconstruir o burgo da inevitável degradação pelo tempo e pelos anos passados. Mas o princípio da renovação deu-se com a política do SNI de António Ferro que, além de criar a Pousada, iniciou o processo de reconstrução das muralhas e das ruas e sugeriu aos artistas da época a aquisição de residências na vila para a sua recuperação.

Neste tempo em que as dinâmicas não eram de grande monta, recorda-se como dirigentes autárquicos com a instauração do Estado Novo Manuel Diogo Castel´Branco (1930-1936) e José Siqueira (1936-37), como Presidentes da Comissão Administrativa de Óbidos e José Ferreira Pinto Basto (1937-40), José de Siqueira (1940-46), Justino da Silva Moreira (1946-49), Vasco Rodrigues de Avelar (1949-53), Gil Caeiro Palma (1953-60), Albino Manuel de Castro e Sousa (1960-72) e José Ferreira Pinto Basto (1972-74), presidentes de câmara nomeados pelo Regime. No final da I República, no período da criação da Gazeta em 1925, o Presidente da Câmara era Luís Xavier da Gama, que se manteve até ao final da década de 20.

O 25 de Abril de 1974
Com a revolução do 25 de Abril caem os autarcas designados e, numa primeira fase, são nomeadas Comissões Administrativas para assegurarem a transição até às primeiras eleições autárquicas em finais de 1976.

São escassas as informações existentes na Gazeta das Caldas neste período, salvando-se a notícia seca da tomada de posse da primeira equipa camarária, publicada a 7/8/1974, lamentando o jornal que para as Caldas o processo do novo elenco estivesse esquecido.

Na edição seguinte era desvendada a composição desse 1º elenco, encabeçado por José Gomes Capinha, como presidente e Frederico Saramago, Maria José Monteiro, Carlos Parada Roberto e José Aurélio, como vogais da Comissão Administrativa. Em 1975 por incompatibilidade com afazeres profissionais, saem do elenco Capinha, Maria José Monteiro e Carlos Roberto, assumindo a presidência Frederico Saramago com José Aurélio e entrando um novo elemento, Joaquim Filipe Carlos.

Na sequência das primeiras eleições democráticas o primeiro presidente da Câmara eleito foi Frederico Saramago (1977-79), dando continuidade ao mandato da Comissão Administrativa, seguindo-se José António Pereira Júnior do PS, (1979-2001), e a partir deste ano, Telmo Faria (2001-2012), Humberto Marques (2013-2021) e Filipe Daniel desde 2022, todos do PSD.

Com o reforço do poder local, e dispondo o município de maior autonomia política e financeira, assiste-se à emergência de um dinamismo novo, da responsabilidade dos vários presidentes, que atraíam cada vez mais visitantes tanto estrangeiros, como nacionais, para os quais Óbidos se transformou num dos mais importantes centros turísticos nacionais.

Este fenómeno, muito visível em certos momentos, criou como acontece por todo o mundo, uma resistência passiva de certos residentes que veem a sua terra ser ocupada por milhares de visitantes, que alteram totalmente a pacatez que antes beneficiavam, num sentimento que vai contra os grandes movimentos do turismo mundial, que faz correr milhões Euros, cavalgando o PIB nacional e o emprego com a contribuição deste setor económico.

Neste meio século, além da tradicional Semana Santa, que viu o seu papel reforçado e ampliado, Óbidos foi palco de inúmeros espetáculos musicais e de dança, especialmente de índole clássica, exposições de arte de elevada craveira, nalguns casos inaugurando ciclos de Bienais tanto de Escultura como de Cerâmica, iniciando-se a partir de certo momento as afamadas Feiras Medievais, os eventos relacionados com o chocolate, o Natal e, nos últimos anos, com a Literatura, a que não foi alheia a distinção da UNESCO como Cidade Criativa.

No meio disto, por várias vezes a Vila e os seus arredores serviram para rodar filmes, alguns dos quais de craveira internacional, chegando a trazer à Vila as produções de Francis Ford Coppola. Ao longo destas cinco décadas nunca mais pararam os investimentos na ocupação de espaços por toda a vila e concelho, com estabelecimentos de toda a espécie, desde bares, cafés, restaurantes, pousadas, hotéis reputados, turismo alternativo, trazendo à vila cada vez mais gente, tendo acontecido em alguns momentos uma aglomeração de pessoas e automóveis que impôs restrições no acesso. A estes juntaram-se fortes investimentos em campos de golfe e urbanizações turísticas junto ao mar, que trouxeram mais gente.

O espaço de que dispomos para o acompanhamento dos momentos de maior impacto neste meio século e que guindou Óbidos a um dos concelhos com maior projeção nacional, não nos permite dar o devido destaque a grande parte dos mesmos.

Óbidos na década de 70
Optámos por recordar – a escolha foi do nosso único critério – uma entrevista que fizemos em 1975, a dois elementos do elenco camarário da época, que falaram para as nossas colunas em registo de entrevista. Quis que fossem o Presidente da Comissão Administrativa, Frederico Saramago e o seu vereador, o escultor José Aurélio, a darem o seu testemunho.

Para iniciar a entrevista fazia-se o enquadramento: “Para o visitante habitual ou esporádico, Óbidos é um paraíso natural e histórico, onde a ambição imediata é a possibilidade de ali viver e gozar o prazer daquele conjunto”, mas acrescentávamos que, numa análise mais profunda, encontrávamos problemas por resolver para a população que nos deixavam “alarmados com a sua quantidade e complexidade”.

O levantamento dos principais problemas e carências “abrangiam todos os campos”. “Do ponto de vista sanitário é o caos, as comunicações são deficientes, o turismo que poderia ser um dos setores chave da região não foi programado”.

Depois referiam como prioridade crucial a criação de “serviços capazes de responder aos problemas do concelho”, a concretização de planos de urbanização para possibilitar o abastecimento de água e a colocação de esgotos, a construção de habitação social, a recuperação urbana dentro da vila, pois havia inúmeras casas em ruínas, a aquisição de equipamentos e veículos para servir os cidadãos. Recorde-se que grande parte do concelho não tinha água ao domicílio, tendo esta sido uma das principais preocupações, a criação de fontanários onde a população se podia abastecer. E davam-se exemplos: “No caso da Sancheira Grande em que havia água com fartura a dois passos do lugar ainda se consente que as mulheres andem um quilómetro com cântaros à cabeça”.

No caso da eletrificação, que tinha tido maior atenção até aí, ainda faltava o abastecimento de forma eficiente a muitos dos lugares do concelho, sendo enumerados os vários pontos que ainda não tinham luz, mesmo contando com a participação financeira dos habitantes. Outra carência era dos caminhos rurais que prejudicava o desenvolvimento da agricultura para o escoamento da produção. Simultaneamente era anunciada na entrevista a extensa lista de caminhos a abrir ou a reconstruir por todo o concelho e os arruamentos a calcetar.

A entrevista espelhava um certo pessimismo destes responsáveis, dizendo que “estavam convencidos de que pouco poderemos contribuir para o desenvolvimento económico no concelho.” Esperavam que a conjuntura nacional e a sua dinâmica pudessem contribuir e acelerar esse desenvolvimento. Mas ficava uma esperança: “Pensamos que só estruturas industriais que tenham em conta as realidades locais podem resultar, nomeadamente aquelas que direta ou indiretamente estejam ligadas à agricultura e ao turismo”. E acrescentavam um voto piedoso típico na época: “Pensamos que só haverá desenvolvimento quando o nível de vida do trabalhador rural se equiparar ao de qualquer outro trabalhador. Mas a agricultura continua pela hora da morte”.

Estávamos em Novembro de 1975.

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