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«Os Alcanhões das Caldas»: os irmãos oleiros do bairro além da ponte.

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O menino João Pereira dos Santos (sinalizado) junto dos seus colegas aprendizes e do seu Professor, Rafael Bordalo Pinheiro.

Ricardo Pereira
Arquivista/Historiador

Há uma canção do grupo Trovante, chamada «Memórias de um Beijo», que no seu refrão nos revela que: «as memórias são como livros escondidos no pó…As lembranças são os sorrisos que queremos rever…». Deste modo estas memórias escondidas e as suas lembranças alegres é aquilo que vamos rever nas próximas linhas, e devagar…

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A família Pereira dos Santos…
João e Júlio Pereira Dos Santos (os nossos futuros oleiros) nasceram no lugar de Alcanhões, no distrito de Santarém, filhos de Manuel Pereira (1850-?), oficial de pedreiro, natural de Turquel, no distrito de Leiria e de Isidra dos Santos (1855-?), doméstica ou «dona de casa», ela, natural de Alcanhões. Além do João (1880-1968) e do Júlio (1887-1979), tiveram, ainda, como nascenças, no dito lugar ribatejano, as filhas Emília (1877-1970); Maria (1878-?) e um outro filho de nome Júlio (1883-?). Entre o final do ano de 1887 e inícios do ano de 1888, Manuel Pereira (ele já um migrante, pois tinha-se deslocado do seu local de origem, Turquel, para a localidade de Alcanhões) e sua mulher, Isidra, migraram, com estes filhos, para a Vila das Caldas da Rainha, possivelmente, por razões de sustento familiar, dado, ele, ter tido, eventualmente, encontrado uma melhor condição de trabalho na área da construção (não esquecer que ele exercia a profissão de pedreiro), pois as Caldas estavam a crescer em termos habitacionais, instalando-se, primeiramente, na Rua do Caco (nos dias de hoje, com o nome de Rua General Queirós) e, posteriormente, mudaram-se para a Rua dos Caniços (?). Nas Caldas, tiveram, ainda, os filhos Manoel (1889-1893); Álvaro (1891-?); Emídio (1893-1896) e Rosalina (1898-1978).

Na fotografia mais icónica de toda a história da cerâmica caldense, quem era o «menino» que estava sentado ao lado do «mestre dos mestres»?…
Em outra canção do Trovante, com o título de «Outra Margem», ressoam-nos as seguintes palavras: «Vinham p’rá escola que desejavam. De face suja, iluminada. Traziam sonhos e pesadelos. Eram a noite e a madrugada. Vinham sozinhos, com o seu destino. Ali chegavam, ali estavam. Eram velhos, eram meninos. Iam para a escola, o que esperavam. Vinham de longe, vinham sozinhos. Lá da planície, lá da cidade. Das casas pobres, dos bairros tristes. Vinham para a escola à novidade…Ali chegaram para aprender. O sonho a vida, a poesia». Num país, em finais do século XIX, demasiado pobre e miserável para meninos e jovens puderem sonhar com uma vida menos amarga, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) um multifacetado homem dos «sete ofícios», muito à frente do seu tempo, e, que como sabemos, foi professor, jornalista, caricaturista, corrosivo, da política e sociedade portuguesa, desenhador, aguarelista, ilustrador, decorador, ceramista e homem do teatro, teve a visão, quando decidiu partir para uma Vila de província, de fundar a «Fábrica de Faianças da Companhia das Caldas da Rainha», em 1884, proporcionando o sonho da novidade, a cada um destes meninos e jovens, de aprender o ofício de trabalhar o barro de uma forma inovadora e original, e, entre eles, estava o tal menino, sinalizado, na foto tirada em 1888, sentado ao lado do grande Mestre Bordalo, de seu nome João Pereira dos Santos, que dos seus apenas 8 anos de idade, junto de outros aprendizes de rodistas, formistas, pintores e modeladores, entre eles as duas futuras «estrelas da cerâmica caldense», Avelino Soares Belo (1872-1927) – o quinto rapaz, na última fila atrás, da esquerda para a direita e Francisco Elias (1869-1937) – o oitavo rapaz, também na última fila atrás, da esquerda para a direita, tentava aprender a profissão de pintor das peças, de grande qualidade artística, orientadas a concretizar pelo professor Rafael. Quem sabe se o nosso João Pereira não participou na pintura das famosas obras artísticas, com os nomes de «Brazeiro Julio Vilhena» e «Jarra Beethoven»? (esta última peça que por não ter tido compradores, nem em Portugal, nem no Brasil, acabou por ser oferecida ao Presidente da República brasileiro, Manoel Ferraz Campos Salles (1841-1913), tendo sido colocada na Sala da Música do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, residência oficial dos Presidentes brasileiros de 1897 a 1961).
Este nosso primeiro «Alcanhões das Caldas», João Pereira dos Santos, nasceu no lugar de Alcanhões, no dia 30 de setembro de 1880, tendo sido batizado em 1 de novembro do mesmo ano na Igreja Paroquial de Santa Marta daquela localidade ribatejana. Tendo casado com Maria Cesária de Figueiredo, em 20 de fevereiro de 1905, ela, filha de um oleiro caldense, de seu nome António Gaspar, morador na Rua das Olarias (atualmente uma das artérias junto, curiosamente, da Rua Avelino Soares Belo, esta, anteriormente designada por Rua da Fé), juntou-se, mais tarde, ao seu outro irmão, o segundo «Alcanhões das Caldas», Júlio Pereira dos Santos, nascido em 13 de janeiro de 1887, batizado em 10 de abril do mesmo ano, na mesma Igreja Paroquial, onde tinha sido batizado o seu irmão, sete anos antes, tendo, curiosamente, casado, em 27 de dezembro de 1915, com a irmã da sua cunhada, de seu nome Gracinda de Jesus Figueiredo. Mais tarde, os dois irmãos compraram um terreno, no chamado Largo da Mina (hoje conhecida por Largo Frederico Pinto Basto), no Bairro Além da Ponte, criando, aí, junto às suas casas habitacionais, uma Olaria, situado bem no coração deste Bairro, no local em que se situa, atualmente, um estabelecimento comercial, com a designação de «Café Creme».

A olaria dos «Alcanhões»…
«Dos rodistas de outrora
Fabricando peças aos milhões
Quero lembrar sem demoras
João e Júlio Alcanhões»
(um pequeno verso da autoria de António Júlio Santos Pereira, familiar dos ditos oleiros).
Desconhecendo-se se o nosso João Pereira continuou a trabalhar junto de Bordalo Pinheiro, na sua Fábrica de Faianças, até ao seu falecimento, em 1905 (saliente-se que a Fábrica original de Bordalo, passou por várias crises financeiras, como foi o caso dos anos de 1891/1892 e 1898, levando mesmo ao fecho temporário da Fábrica, em ambos os casos) ou se chegou a trabalhar com o seu sogro, António Gaspar, que também exercia a profissão de oleiro (o mesmo acontecendo com o seu irmão Júlio Pereira, que, também, mais tarde se tornou genro de António Gaspar), o que sabemos, com toda a certeza, é que os dois irmãos «Alcanhões» se juntaram, na primeira década do século XX, e criaram uma Olaria no chamado Bairro Além da Ponte.
Numa edição de 28 de dezembro de 1928 (já os irmãos «Alcanhões» aí viviam há largos anos), a «Gazeta das Caldas» referia-se a este Bairro desta forma: «Várias vezes temos percorrido este importante Bairro Além da Ponte, onde vegetam, alguns bem miseravelmente, uns 800 habitantes (…) e, assim, temos visto o estado desgraçado em que várias ruas se encontram, a falta de iluminação em algumas delas e, então, sobretudo, a falta também de canos de esgoto, factor de pouca higiene que por ali se nota». Neste sentido, foi neste Bairro, onde faltava saneamento básico e eletricidade (pelo menos entre as primeiras três décadas do século XX, tendo os dois irmãos feito parte da Comissão de Melhoramentos do Bairro de Além da Ponte), que a sua Oficina de Olaria tinha de laborar, diariamente, na qual era constituída por: um quintal, local em que as peças depois de modeladas tinham de ser colocadas num processo de secagem (ver a imagem de Júlio Pereira junto das louças postas a secar); uma roda (ou torno), instrumento de trabalho no qual os irmãos rodistas davam forma às suas peças; uma atafona, que servia para moer, misturar e homogeneizar o barro (ou argila) ou para triturar os componentes do vidrado, como o chumbo e a areia, sendo executado este processo por dois funcionários, que tinham a seu cargo (de assinalar que vários oleiros caldenses se deslocavam à Olaria dos «Alcanhões» para utilizarem este engenho rudimentar) e um forno, com o intuito de cozer os objetos já finalizados.

Júlio Pereira dos Santos a colocar os alguidares, acabados de ser produzidos, no processo de secagem no Quintal, localizado nas traseiras da sua Olaria.
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