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O pintor das Caldas

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Vítor Serrão
Historiador de Arte
Prof. Catedrático Emérito da Universidade de Lisboa

No final dos anos 70 do século passado, comecei a estudar uma figura esquecida da História da Arte portuguesa chamado Belchior de Matos (c. 1565-1628). Quase nada se sabia a seu respeito, salvo que fora discípulo e «criado» de Diogo Teixeira (c. 1540-1612), pintor do Infante D. António, Prior do Crato, e uma das celebridades artísticas na Lisboa do fim do século XVI.
A documentação chama-lhe sempre «o pintor das Caldas», em preito de consideração, sendo morador na vila das Caldas da Rainha, onde viveu e trabalhou toda a vida adulta, com estatuto social elevado, e um dos «trinta privilegiados» do Hospital Real de Nossa Senhora do Pópulo, onde servia como pintor. As pesquisas então desenvolvidas no cartório desse Hospital e no Arquivo Distrital de Leiria revelaram farta documentação a seu propósito. Apareceu, entretanto, um grande número de obras suas em igrejas e capelas da região caldense, quase todas de temática sacra, gerando um interesse suficiente para que o então director do Museu José Malhoa, Dr. João Saavedra Machado (1932-2014), levasse a cabo a exposição monotemática Belchior de Matos, pintor das Caldas da Rainha, 1595-1626, que decorreu em 1981 e granjeou muito sucesso regional.
Entre os artigos de imprensa, a Gazeta das Caldas destacou-se pela voz do seu responsável José Luís de Almeida e Silva por relevar a importância do evento: a exposição sobre um pintor regional de gosto retardatário e bitola discreta impunha-se a nível nacional pela estrutura teórica do catálogo expositivo, um dos primeiros a definir a perspectiva metodológica da Micro-História da Arte, ou seja, um novo olhar dirigido aos patrimónios de periferia, assim resgatados e revalorizados.
Como todos sabemos, o Património artístico da vila das Caldas da Rainha possui pérolas mais luminosas que as tábuas de Belchior de Matos. Bastavam as famosas pinturas ‘manuelinas’ (atribuídas ora a Jorge Afonso, ora ao enigmático Mestre da Lourinhã) que ornam o arco triunfal da igreja de Nossa Senhora do Pópulo e são uma das jóias do nosso primeiro Renascimento pictural, ou a tela da famosa Josefa de Óbidos (1630-1684) com o belíssimo ‘retrato dissimulado’ da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, para justificar visita demorada à vila termal por parte de quem aprecia arte antiga.
É neste contexto que urge revalorizar a figura de Belchior de Matos, bem interessante como testemunha de um gosto maneirista retardatário, pois só assim se constrói a estrutura do nosso Património artístico com novos olhares e mais saberes. Quarenta e cinco anos volvidos sobre a referida exposição do Museu José Malhoa e sobre o livro-catálogo então editado, cumpre-me lembrar essa espécie de manifesto em prol de uma Micro-História da Arte, então inexistente em Portugal, o que na altura valeu críticas e quase uma sentença de menorização dessa via de pesquisa… De facto, Belchior de Matos, o pintor das Caldas, não foi mais que um fiel seguidor dos modelos do mestre Diogo Teixeira mas a sua obra constitui, numa interpretação muito pessoal do Maneirismo retardatário, um valioso estudo de caso provincial.
Vejam-se, por exemplo, os seus painéis de 1615-1626 destinados à igreja da Misericórdia de Óbidos (que, não gostando deles, os mandou substituir em 1628 por outros «ao moderno» do famoso pintor André Reinoso). Um desses quadros, expostos no Museu de Óbidos, representa Santa Helena e a descobertas das três cruzes (1626), onde o pintor homenageia a Rainha D. Leonor, fundadora do Hospital, evocando-a através de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino. O quadro, de data tardíssima, parece mesmo querer evocar a Raínha fundadora a um século de distância. Um outro, de data anterior (1615), mostra-nos São Sebastião discute com o Imperador e representa o santo a enfrentar Diocleciano e seus soldados, antes de ser condenado ao martírio, um passo onde alguns viram já, com maior ou menor razão, um surdo protesto nacionalista em tempo de dominação filipina. A ser assim, Belchior assumiu verdadeiro sentido da história narrada por Tiago de Voragine na Lenda Dourada, e quase se ouve a força da palavra certa que denuncia os obscurantismos, exclusões e tiranias do mundo — um tema tão actual !
“Más pinturas”, disseram muitos, e dirão ainda hoje alguns, face a estas tábuas maneiristas anacrónicas, de datas tão avançadas bem dentro já do século XVII. Mas a verdade é que Belchior soube expor, dentro dos seus recursos periféricos e das suas fidelidades a cânones que vinham do século anterior, o testemunho do Maneirismo italianizante. Essa é a marca estética de uma intensa actividade para os mercados religiosos da Estremadura, hoje já com quase meia centena de tábuas conhecidas.
Sabia já que o artista, antes de se instalar nas Caldas da Rainha, frequentou em Lisboa em 1590 a oficina de Diogo Teixeira, que muito o influenciou. Há uns meses, pesquisas felizes vieram acrescentar dados inéditos ao que estabelecera em 1981. Fico a saber agora que Belchior (que era quase de certeza de origem madeirense !) já estava nas Caldas em 1594. Casou em Junho desse ano com Francisca Duarte, caldense de dezoito anos de quem teve sete filhos: Teodósia, Maria, Oriana, Umbelina, Bernardo, Teodósia 2ª e Catarina. Trabalhou sempre na sua oficina na Rua Nova, ao Rossio das Vacas, junto ao Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, de que era um dos «trinta privilegiados». Esteve activo para várias igrejas e confrarias de Caldas, Óbidos, Atouguia da Baleia, Geraldes, Vidais, Serra do Bouro, Tuxofal, Zambujeira do Mar, Turcifal, Almoster (Santarém) e no convento de Santo António do Varatojo, restando cerca de quarenta e cinco quadros da sua lavra. Em 1614, policromou uma imagem para a Ermida de São Bartolomeu. Em 1619, passou pelo susto de uma obscura devassa no âmbito de uma visitação apostólica em que foi visado e parece ter sofrido denúncia à Inquisição !
Entretanto, Belchior de Matos ainda teve uma palavra a dizer na substituição do célebre retábulo ‘manuelino’ da igreja do Pópulo, muito danificado pelo efeito da humidade e «pelo ar dos banhos» do hospital anexo, conforme se lê numa uma inédita visitação à igreja. Tal retábulo iria finalmente dar lugar, em 1639 (já Belchior era morto), a outro de talha e escultura, da autoria do imaginário lisboeta João Ribeiro da Costa, com pintura do caldense Domingos Lopes e dourado e estofado dos santarenos Luís Álvares Montês e Sebastião Domingues. Mas essa é uma outra história…
O «pintor das Caldas» foi seguramente artista de segunda plana, fiel a cânones da geração anterior aprendidos junto a seu mestre Diogo Teixeira e incapaz de seguir as novidades do Proto-Barroco nascente — mas será que o património se faz apenas e só de obras-primas ? É por isso que continuam a ter encanto as suas estéticas deformativas, o seu Maneirismo decantado e, por certo, o seu discurso sui generis cheio de pessoalismos. Sou dos que aprecia e valoriza estas alegadas más pinturas. Recordo a propósito que já em 1981 o poeta João Miguel Fernandes Jorge percebeu (melhor que os colegas da História da Arte oficial) esse sabor periférico que revaloriza a estética de Belchioor de Matos.
Por tudo isto, e porque mete dó ver o estado em que se encontra o seu retábulo da Ermida do Espírito Santo (talvez a primeira obra que Belchior pinta nas Caldas da Rainha, cerca de 1594-1595), é imperativo alertar mais uma vez as tutelas para o urgente restauro deste conjunto maneirista, ainda in situ, o que implica também intervencionar toda a Ermida, que revisitei tão abandonada ! Para abandono do património regional, já basta o que sucedeu com a Ermida de Santo Antão, nos arredores de Óbidos (que conta aliás com um retábulo de Belchior) e que foi alvo de vandalismo recente…
Esta construção quinhentista, sita no antigo Rossio das Vacas, merece maior atenção e mais adequado uso. A arquitectura segue a tipologia tridentina do estilo chão e o retábulo (entalhado pelo mestre obidense Manuel das Neves) tem cinco estragadas tábuas de Belchior de Matos. É evidentíssimo que as Caldas da Rainha não podem prescindir de um património assim ! Vemos um espaço artístico vocacionado para utilização cultural qualificada, que reclama atenção na agenda das políticas nacionais e autárquicas — atenção, senhor Presidente da Câmara Municipal, Dr. Vítor Marques ! No 5º centenário da morte da Rainha D. Leonor parece-me que intervenções de patrimonialismo cívico como será a recuperação da Ermida do Espírito Santo e do seu retábulo, altares, imagens e frescos, se tornam acções de máxima premência como serviço público de qualidade.

Agradecimentos devidos a Arlinda Ribeiro, José Luís Almeida e Silva, Nicolau Borges, Maria da Conceição Henriques, Vera Branco Marques, Linda Inês França, Graça Padinha e Frei Vítor Melícias. Mais agradeço à Prof. Doutora Natália Correia Guedes e ao Engº Jorge Rodrigues o acesso aos manuscritos guardados no cartório da nova igreja matriz das Caldas da Rainha (projecto do arq. Vasco Regaleira, 1950), sobretudo os Lºs de Vezitas de Nª Sª do Populo (1606-1673), que trazem novos saberes.

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