
Este incidente liga-se com a realidade de outros estudantes, estes de 1923 e que, com Pedro Teotónio Pereira à frente, reagiam de capa e batina ao aparecimento daquilo a que eles chamavam «publicações escandalosas» – «Sodoma Divinizada» de Raul Leal, «Canções» de António Botto e «Decadência» de Judith Teixeira. Alguns jornais da época (O Século, A Época, A Capital) publicaram o manifesto da dita Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa que, entre outras baboseiras, proclamava: «Nas nossas mãos brandimos o ferro em brasa que cicatriza as chagas». Dá uma ideia da perversão, do delírio e da loucura desta gente. Em 1923 como em 2014, tudo parece igual.
Este livro que demorou sete anos a preparar a Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) tem nas suas 217 páginas muitos outros motivos de interesse: nele se juntam textos de Fernando Pessoa, Álvaro Maia, Raúl Leal, António Botto e Júlio Dantas (por exemplo) além de Pedro Teotónio Pereira e Marcelo Caetano (do outro lado da barricada). Um dos aspectos mais curiosos é ver como Júlio Dantas que foi atacado no «Manifesto» de José de Almada Negreiros aparece aqui como defensor da liberdade de expressão e completamente contra as fogueiras de livros que os ditos estudantes de Lisboa querem fazer no Governo Civil.
(Editora: Letra Livre, Concepção Gráfica: Rui Silva, Revisão: Andreia Baleiras)
José do Carmo Francisco





