
Surge neste livro de Luís Boavida uma dupla inscrição: o universo popular ao lado de Camões e dos clássicos greco-latinos e as expressão própria do Poeta ao lado das referências intertextuais. Por exemplo em «As primas da Orca» o poema regista um rifão do Povo («Boas hespanhas / são as aranhas!») mas em «O Alfaiate» é a Grécia que se depara ao leitor: «Esta é a minha lembrança / de Hephestos, o alfaiate / o chapéu de lado / na rua, aos domingos / aquela perna para aquela bengala / e os olhos de Vénus / da inquieta cortina / presos do seu alfaiate coxo.» Um aspecto intertextual surge no poema de Coimbra: «Passam-me à frente / da varanda / – serão as canções / do vento que passa.»
No «fio de afectos» que é o poema, Luís Boavida coloca a velhice e a juventude, lado a lado. No poema «Alba» pergunta «De que povo se fala / senão destes velhos / onde a pele se confunde com a terra / de lavoura e autores antigos?» e, logo a seguir, interroga «De que falam os jovens? / Um dia lembrar-se-ão / das suas conversas / carregadas de nuvens / e achá-las-ão doiradas?» No final desta leitura que, tal como a livraria onde foi apresentada, deve ser feita em regime de «Ler Devagar», fica a grande problemática do nosso País que foi, é e sempre será a divisão entre as Cidades e as Serras: «Ai o campo, o campo…/ Mas é na cidade que vivemos, / varrido o silêncio / despidos todos os ventos. / Um cão que ladra / ao longe / um galo na paisagem / nunca saberão a falta que fazem / aos seres que somos / misturas de aromas e rumores.» Nota final – um livro excelente, para ler e reler, um feliz intervalo entre o «sangue pisado» da vida e o «estilo» da literatura.
(Conceito e Composição: Carlos Teixeira Gomes e Jaime Rydel, Fotografias: João Henriques)





