
Mas não é apenas feita de «sangue pisado» esta Poesia; ela integra uma dose forte de «estilo», tudo aquilo que a pós-modernidade considera «intertextual». Pode ser o português António Nobre («Não venhas, Georges! Que este país, Portugal, que outrora foi das naus e das frotas, é de novo a apagada e vil tristeza de que falava o Épico») ou o espanhol António Machado: «A minha infância decorreu nas saudosas ruas da Mata, térreas até muito tarde – bem mais amplas que o pátio sevilhano de António Machado.» Pode ser o argentino Jorge Luís Borges («Passou pelo mundo, excêntrico e atrevido, um argentino a quem os deuses, um dia, negaram a luz») ou o português Eugénio de Andrade: «Só em Monfortinho, na infância longínqua, podia ter aprendido a falar do deserto, da brancura da cal, da incontornável brancura da cal. Foi ali, naquela terra sáfara, que bebeu a música e o silêncio.»
Cesário Verde, Nuno Júdice, José Gomes Ferreira e António Ramos Rosa, por exemplo, estão convocados nos poemas deste livro onde na página 14 se cruzam duas realidades – o sangue pisado da vida e o estilo da poesia: «Nós, os filhos, nunca esqueceremos as lições de nossos pais recebidas, que encerravam mais poesia que todos os versos de Camões.» E sem esquecer por fim a sagrada esperança de Agostinho Neto, presente no registo de autobiografia da guerra colonial: «Resignados, iam comer e beber e cantar e amar, nos subúrbios da cidade ocupada, com as almas repletas daquela sagrada esperança que sempre souberam preservar, mesmo nas horas mais sofridas. Pareciam estrangeiros na sua própria terra,,,»
(Edições Alecrim, Capa: Hugo Feio, Prefácio: Filipa Barata, Paginação: Ana Nunes)







