
O ponto de partida é o seu «eu», Dinis Machado ele-mesmo: «Andei sempre na linha avançada, um bocado maniento do golo. E do drible. Quando, nos «treinos», fazia uma perninha na baliza, acabava-me com pouco jeito. Não tinha bem tempo de saída, nem a adivinhação ou a atenção concentrada que é um autêntico sexto sentido. E tinha (no fundo, era isso) o enorme gozo de jogar com os pés.»
O ponto de chegada é o silêncio: «É que esta crónica tem uma função escapista: criar sítio para que os anjos, as mulheres grávidas e os adolescentes eternos possam fugir à marcação do relógio de ponto. Por isso, leitor, hoje venho falar-te do silêncio, o silêncio que é uma espécie de maioridade da música e da hipótese de estares autorizado, nesta combustão dos ruídos físicos e mentais (teus, meus, dos outros) a ouvir o coração do pássaro.»
Entre o ponto de partida e o de chegada fica o avô: «O meu avô João morreu no dia do Portugal-Espanha dos 4-1 no Jamor, o desafio de futebol que eu mais queria ver e que menos falta me fez. (…) transporto ainda nos olhos queimados pelo tabaco excessivo, uma loja tranquila, um lugar de histórias, de amor e de jornais. Legarei pouco aos outros e, nesse quase nada, ouço as palavras que recebi do meu avô, que já nem eram dele, eram do futuro. Um grande futuro teimoso.»
Uma nota final para duas gralhas que aparecem na página 31 (Bayer por Bauer) e na página 46 (Norrkoepping por Norrköpping)
(Editora Quetzal, Edição: Marta Navarro, Revisão: João Assis Gomes)
José do Carmo Francisco







