

Como nunca chegou a ter licença de construção, arranjou a luz eléctrica, que foi contratada a uma vendedora ambulante que tinha uma caixa da rede para abastecer o seu negócio. Tratou também de arranjar água, através de um poço onde colocou uma bomba eléctrica. E assim, sem qualquer licença, começou a construir casas: 15 apartamentos e duas vivendas.
Segundo Diamantino Duarte, por volta de 2003 ou 2004, um engenheiro da Câmara ter-lhe-á dito que, tendo o projecto aprovado, podia avançar ao nível de terreno, enquanto tratava do licenciamento.
Mas o empresário fez mais do que movimentações de terrenos e começou mesmo a erguer casas. E a vendê-las.
A obra foi embargada três vezes pela Câmara das Caldas: a primeira em meados de 2004, a segunda em Agosto de 2008 e a terceira em Agosto de 2011. O empresário diz que nunca assinou o terceiro embargo.
Segundo Diamantino Duarte, em Outubro de 2011, o advogado Fernando Silva, em representação de quatro clientes que haviam comprado moradias no dito empreendimento, “travou duas prestações de dois clientes no valor total de 70 mil euros”. O empresário, que se diz burlado por Fernando Silva, afirmou que “o advogado montou uma cilada às minhas firmas para as deitar abaixo”.
Por esta altura, Diamantino Duarte tinha duas empresas: Duarte Lda. e Magnijump. As duas foram à falência.
Contactado pela Gazeta das Caldas o advogado Fernando Silva negou as acusações do empresário.
O nosso jornal soube que, apesar do valor que levou à insolvência ser de 15 e 25 mil euros (em cada uma das empresas), na falência da Magnijump eram reclamados por vários credores cerca de 1,5 milhões de euros e na da Duarte Lda. mais de 1 milhão.
Para além disso, a insolvência da Magnijump foi considerada culposa pelo Tribunal da Marinha Grande. Diamantino Duarte foi considerado o responsável da falência e inibido de qualquer actividade comercial por três anos. O empresário afirmou que neste processo “há créditos reclamados à Magnijump que deveriam ter sido pedidos à Duarte Lda”, já que os contratos estavam, segundo o mesmo, em nome da segunda empresa. Ambas, contudo, eram empresas suas.
Diamantino Duarte afirma que depois da sua falência “um grupo de moradores liderado por Fernando Silva comprou o terreno e manda naquilo”. O empresário diz que foi “expulso, tal como outros compradores, das casas que tínhamos no empreendimento e todas as fechaduras foram mudadas”.
Os moradores juntaram-se entretanto numa cooperativa intitulada de Cuph – Travessa da Ponte, CRL.
Gazeta das Caldas contactou a direcção da Cooperativa, que explicou que em 2004 as famílias que ali estão representadas compraram uma casa cada uma, pagando 50% do valor como sinal, e acordando com o empresário pagar o restante no acto da escritura.
“Cedo nos apercebemos que o empreendimento era ilegal”, contou João Gonçalves, da direcção da cooperativa, apontando comportamentos comerciais pouco correctos ao empresário Diamantino Duarte que, segundo os mesmos, ao ver-se confrontado com a falta de dinheiro, terá exigido mais aos moradores para poder concluir as obras.
Esta situação ter-se-á arrastado até a empresa ficar insolvente. “Quando percebemos que estávamos em risco de perder tudo o que lá tínhamos, decidimos adquirir o terreno por cerca de 200 mil euros”, contaram.
Os moradores queixam-se ainda de ameaças de morte por parte do empresário. Diamantino Duarte foi condenado pelo Tribunal das Caldas por três crimes de injúria, na forma continuada e dois crimes de ameaça agravada, ambos contra moradores.
Outro processo ditou a obrigação do empresário de reconhecer a propriedade daquele espaço e do seu uso, gozo e fruição à cooperativa de moradores.
A mudança das fechaduras, segundo a direcção da cooperativa, ocorre “por segurança e com ordem do tribunal”.
Neste momento, o grupo de moradores trilha o caminho da legalização do empreendimento. “Fizemos um projecto de raiz que está em apreciação na Câmara, na fase da especialidade”, explicaram.
Diamantino Duarte questiona, no entanto, “como é possível a Câmara fornecer água e concordar que se forneça energia a um empreendimento sem licença de habitabilidade e onde ninguém tem habitação permanente?”.
A resposta encontra-se nas actas da Câmara, consultadas pelo nosso jornal. Em Fevereiro de 2013 o executivo municipal decidiu continuar a fornecer água e a concordar com o fornecimento de energia tendo em conta “a existência de fundadas razões de natureza local e sanitária”.
Vereador do PS acusa anterior gestão camarária
Em Julho de 2015, em reunião de Câmara em que se discutia a legalização do empreendimento, o vereador do PS, Rui Correia, manifestou a sua “satisfação por se estar a concluir judicialmente um processo que se caracterizou desde o princípio pela absoluta ilegalidade”. Para além disso, e numa clara alusão à gestão de Fernando Costa, afirmou que “este desfecho tem de servir de ilustração sobre como esta autarquia funcionou durante anos” e que demonstra “uma gestão profundamente negligente e incompetente dos processos de licenciamento e fiscalização camarária”.
O vereador acusava ainda “um olhar continuadamente ausente de uma fiscalização camarária, de uma junta de freguesia e de um executivo camarário” que, durante anos, permitiu a construção ilegal no concelho. “Considerar que nenhuma destas entidades sabia que o empreendimento estava a ser construído ilegalmente desafia o senso comum de qualquer munícipe”, disse, acrescentando que se atingiu “o absurdo no momento em que este empreendimento chegou a estar identificado no primeiro esboço do plano de pormenor de Salir do Porto como um exemplo da qualidade das edificações previstas nesse plano e esta informação esteve durante meses publicada no website da Câmara Municipal das Caldas que assim publicitava elogios a uma obra que nascera e permaneceria na ilegalidade durante anos. Não surpreende que os compradores não faltassem”.
Rui Correia aponta ainda a existência de outros condomínios ilegais que foram embargados naquela localidade e que hoje estão devolutos.
Tendo visitado o local e falado com os envolvidos, o vereador afirmou ter-se apercebido “do carácter grosseiramente ilícito e mesmo excêntrico de todos estes negócios. Desde documentos e licenciamentos forjados, paredes levantadas dentro de apartamentos já vendidos, reprimendas recíprocas e ameaças à integridade física dos envolvidos, tudo aconteceu”.
O empreendimento do Caramujo continua ainda a dar que falar. À sua custa há vários processos judiciais em curso. A maioria são de Diamantino Duarte contra o advogado Fernando Silva, contra os moradores, contra o administrador de insolvência e contra a Câmara, havendo, pelo menos, uma dezena de processos em tribunal relativos a este caso, que se tornou uma autêntica guerra judicial.








