
Manuel Bandeira Duarte
Designer e artista
O tempo tornou-se uma matéria escassa. Não porque exista menos, mas porque parece que nos atravessa com tal velocidade que se torna impossível acompanhá-lo. Este fator perfaz uma sensação, curiosamente, ambígua: os dias parecem tranquilos, quase repetidos, mas, quando olhamos para trás, o tempo já passou sem pedir licença. Creio que não serei o único com esta sensação. Atrevo-me a dizer que considero, até, um tema atual em encontros casuais, em conversas de rua e de café.
A cidade ensina-nos isso nos detalhes. Nas ruas que mudam lentamente, nos edifícios que ganham novas funções, nos hábitos que se mantêm… e, enquanto isso, tudo à volta acelera. Há um tempo próprio e específico inscrito na morfologia do espaço, isto é, um tempo feito de camadas, permanências e adaptações que definem o lugar de forma física ou temporal. Foi precisamente o fator tempo que esteve no centro de um estudo que desenvolvi, ao analisar o ambiente que se transforma não apenas pelo uso, mas pela passagem do tempo e pela forma como o habitamos.
Nos dias de hoje, esta relação espaço-tempo parece mais tensa. Vivemos numa lógica fugaz de urgência permanente, mesmo nas cidades e nos locais onde o ritmo poderia ser outro. Tudo é imediato, tudo exige resposta rápida, atenção constante, produtividade contínua. O tempo deixa de ser vivido e passa a ser gerido, fragmentado em blocos cada vez mais curtos, muitas vezes sem continuidade nem profundidade.
A sensação de falta de tempo é, também, a sensação de falta de espaço. O tempo é necessário para que as coisas façam sentido em diversos lugares – mentais, emocionais e criativos. A título de exemplo, a criatividade, tão presente na identidade caldense, não nasce da pressa. Precisa de intervalos, de observação, de pausas que permitam ligar ideias, pessoas e lugares. Dar tempo a nós próprios é uma forma de resistência silenciosa num mundo que confunde velocidade com progresso.
Talvez seja importante reaprender a respeitar os ritmos — sobretudo os nossos. Aceitar que nem tudo deve ser acelerado, que alguns processos precisam de maturação, de repetição e até da espera. O tempo, quando reconhecido e valorizado, transforma-se num aliado da qualidade de vida, da criatividade e da relação com o outro e com o lugar onde vivemos ou com o espaço onde estamos.
No meio da pressa dos dias atuais, talvez o gesto mais consciente seja perceber que também nós somos feitos de tempo — não apenas do que passa, mas do que escolhemos habitar e vivenciar.










