
Paula Ganhão
Gestora de Projetos
Há cidades que só se revelam quando falham. Não quando brilham nas fotografias aéreas ou nos slogans turísticos, mas quando a luz se apaga, a água deixa de correr e o quotidiano perde o seu automatismo confortável. Foi nesses dias recentes, atravessados pela depressão Kristin, que muitas cidades se tornaram visíveis de outra forma.
Em As Cidades Invisíveis, Marco Polo descreve cidades que existem tanto na matéria como na memória, feitas de hábitos, gestos repetidos e expectativas silenciosas. As nossas não são diferentes. Vivem de uma ilusão de permanência: carregamos no interruptor e a luz acende; abrimos a torneira e a água responde. Quando isso falha, percebemos que a cidade não é um dado adquirido, mas uma construção frágil, sustentada por equilíbrios que raramente percebemos — e que só se tornam evidentes quando se rompem.
A luz, ausente, transforma-se em metáfora. Não apenas da eletricidade que falta, mas da orientação que procuramos quando tudo escurece. À noite, iluminados por lanternas improvisadas e ecrãs quase sem bateria, redescobrimos o valor do vizinho, da palavra trocada à janela, do silêncio partilhado. A cidade, privada do seu brilho habitual, aproxima-se e desacelera, como se fosse obrigada a escutar-se.
Também emergiu um outro mapa urbano: o do voluntariado, da ajuda espontânea, das mãos que se estendem sem contrato nem horário. Pessoas que distribuíram água, que ajudaram a limpar, que ofereceram tempo e presença. Nessas horas, a cidade deixou de ser apenas um conjunto de infraestruturas para se afirmar como comunidade — feita de pequenas dependências mútuas, discretas mas decisivas, que não surgem nos relatórios nem nos discursos oficiais.
Dependemos de redes — elétricas, hídricas, digitais — mas esquecemo-nos, com frequência, da mais antiga e resistente de todas: a humana. Quando as primeiras falham, é esta que impede a cidade de se desfazer por completo. É nela que circulam informações, cuidados e práticas simples que mantêm o quotidiano possível, ainda que em modo precário.
A pergunta que fica não é se as cidades são resilientes. É se nós, habitantes distraídos da normalidade, saberemos reconhecer esse equilíbrio antes da próxima interrupção. Se seremos capazes de cuidar dessas ligações invisíveis enquanto tudo funciona, ou apenas quando somos forçados a improvisar.
É então que percebemos: uma cidade não se mede pela intensidade das suas luzes, mas pela capacidade de continuar a existir — e a cuidar — quando elas se apagam.










