
Na Vila cartografada de «Húmus» a vida é um intervalo entre o sonho e a dor, um edifício de palavras: «Construímos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem.» Entre a vida e a morte, entre tabiques e palavras, surge o espanto do Mundo: «Só a insignificância nos permite viver. Sem ela já o doido que em nós prega tinha tomado conta do mundo».
O Gabiru (ridículo, grotesco, caótico) é uma voz do livro. Começa por avisar («a sensibilidade não é individual, é universal. Basta ferir a sensibilidade que vai dos nossos nervos até à Via Láctea para transformar as noções do tempo, do espaço, da vida e da morte») e por fim adverte: «O mistério é este e mais nenhum: é exprimir como o que é espírito se transforma em matéria, como a poeira se condensa, como a alma se faz corpo».
Entre a vida e a morte existe o sonho («o nosso sonho é não morrer») mas o Gabiru insiste na vida: «viver é que é bom, viver com o instinto, como os ladrões e os bichos, os malfeitores e as feras, sem pensar, sem sonhar, sem palavras nem leis, até cair a um canto, morto e feliz». Mas ao viver correm-se riscos de ser preso mas «Na cadeia também se come pão.» Perto do fim deste livro maravilhoso ouvem-se gritos e lágrimas («os ladrões das estradas desatam a chorar») e o Gabiru pergunta («Ouves o grito?») para logo a seguir decretar: «É preciso matar segunda vez os mortos.»
(Edição: Porto Editora, Colecção Portuguesa, Apresentação: Lilaz Carriço)







