
Numa narrativa bem portuguesa (personagens, pano de fundo, situações) as referência ao tempo presente (Barragem do Alqueva, ano 2000) não fazem esquecer o ambiente social, político e económico dos anos 50 em Portugal com referencial desta ficção. Foram anos de chumbo com a entrada do país na OTAN em 1949 e na ONU em 1955 – uma onda de conformismo cinzento e de gritante diferença entre fachada e interior. Tal como Paulo, Salazar («Deus, Pátria, Autoridade») também ia à missa todos os domingos mas mandava prender e torturar no Aljube, em Peniche, em Caxias e no Tarrafal todos os que dele discordavam e, portanto, não eram seus filhos. Daí a sua frase emblema desse tempo: «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!».
Nas suas 132 páginas esta narrativa exemplar não deixa de surpreender o leitor com o inesperado e, quando parece já ter sido atingido o ponto mais negro de violência, agressão e brutalidade, há sempre um novo patamar de maldição ainda mais abjecta. Descobre-se o falso herói da narrativa não apenas como mentiroso, violento e cínico mas também como repugnante chulo, capaz de vender o corpo da mãe dos seus filhos todos os domingos ao fim da tarde. Numa rua de Lisboa, num certo escritório de advogado onde, anos a fio, Paulo fazia à tarde tudo ao contrário das palavras do Evangelho que ouvia de manhã.
(Editora: Fonte da Palavra, Prefácio: Elsa Andrade, Capa: Tânia Marques, Revisão: Branca Vilallonga, Nota: Luciano Reis)
José do Carmo Francisco





