
Sou uma jovem portuguesa de 27 anos, formada em Engenharia pelo Instituto Superior Técnico (IST), uma das mais prestigiadas universidades de engenharia em Portugal e com reconhecimento internacional, que atrai estudantes de toda a Europa e do mundo pelas suas competências académicas e pela reputação que lhe é atribuída em rankings educacionais e na empregabilidade dos seus diplomados.
Durante a minha formação, tive a oportunidade de fazer dois programas Erasmus — um na TU Delft, uma das principais universidades tecnológicas da Europa, e outro no Politécnico de Milão, também altamente considerado no espaço académico europeu — experiências que enriqueceram a minha visão profissional e aumentaram a minha qualificação.
Terminei o curso com média de 18 valores e hoje trabalho numa das maiores empresas de energia em Portugal, com um salário que está acima da média salarial nacional. Contudo, mesmo com esta formação e um emprego estável na capital, a verdade é que continuo a não conseguir comprar uma casa própria.
Portugal enfrenta uma crise habitacional profunda e estrutural que se traduz, acima de tudo, numa discrepância brutal entre o aumento dos preços da habitação e o ritmo de crescimento dos rendimentos das famílias. Os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que, no segundo trimestre de 2025, o preço mediano das casas vendidas em Portugal atingiu cerca de 2 065 € por metro quadrado, um aumento de 19% face ao ano anterior, e continuou a subir nos dados mais recentes para mais de 2 100 € por metro quadrado no terceiro trimestre de 2025.
Estes números escondem realidades ainda mais gritantes quando olhamos para as grandes áreas urbanas onde o mercado está mais pressionado: em Lisboa, por exemplo, os valores médios por metro quadrado podem ultrapassar os 5 800 €, e no Porto rondam os 3 900 € por metro quadrado, ambos recordes históricos que continuam a escalar. Comparativamente, na região Centro — onde se inclui uma cidade como as Caldas da Rainha, de onde sou natural e onde vivo — o preço por metro quadrado ronda os 2000 €, abaixo dos valores de Lisboa ou Porto, mas ainda assim inacessível para muitos jovens trabalhadores.
Este aumento dos preços não pode ser explicado apenas por dinâmicas naturais de mercado. Uma parte significativa da escalada resulta da especulação imobiliária e do crescente financiamento da habitação. Grandes empresas e investidores com elevada capacidade económica adquirem imóveis em grande quantidade, mantêm-nos fora do mercado ou libertam-nos apenas anos mais tarde, a preços drasticamente inflacionados. Paralelamente, a venda de imóveis a estrangeiros — em particular a cidadãos que vêm para Portugal viver a reforma ou períodos prolongados de lazer, com um poder de compra muito superior ao rendimento médio nacional — exerce uma pressão adicional sobre a oferta disponível. Estes compradores conseguem pagar valores que a maioria dos portugueses não consegue acompanhar, criando no mercado a perceção de que “há sempre comprador”, o que incentiva sucessivos aumentos de preços. A própria lógica da intermediação imobiliária, em que a venda de uma única casa pode representar o rendimento anual de um trabalhador português comum, contribui para este ciclo inflacionista, afastando ainda mais a habitação da sua função social.
Os dados mais recentes do Eurostat mostram que o salário médio anual de um trabalhador a tempo inteiro em Portugal era de cerca de 24 818 € em 2024, valor significativamente abaixo da média da União Europeia e que apesar de ter crescido face aos anos anteriores permanece baixo quando comparado com o custo habitacional. Por outro lado, a média de rendimento mensal líquido por adulto equivalia a cerca de 1 418 € em 2024, outro indicador que evidencia como os rendimentos das famílias simplesmente não acompanham a escalada dos preços imobiliários.
Embora trabalhe em Lisboa, com salários característicos dos centros urbanos maiores, continuo a viver nas Caldas da Rainha, numa tentativa de conciliar melhores rendimentos com custos de habitação relativamente mais baixos. Sempre que trabalho presencialmente demoro duas horas de deslocação em hora de ponta para chegar ao escritório, esforçando-me ao máximo por equilibrar o custo de vida com a ambição legítima de um dia poder comprar uma casa. Esse esforço, porém, ainda não é suficiente para que eu consiga adquirir uma casa própria — nem nas Caldas da Rainha onde os preços são mais baixos — porque os valores por metro quadrado continuam tão altos que as prestações de um crédito habitação transformam-se num peso financeiro insustentável quando somadas às despesas básicas do dia a dia.
Apesar de políticas recentes que tentam apoiar os jovens, como a isenção de imposto de selo e de IMT para a primeira habitação e créditos habitação com garantias públicas — medidas que teoricamente facilitam o acesso — essas soluções não atacam o problema de raiz: simplesmente não há oferta suficiente de casas acessíveis e, mesmo quando há, os preços sobem a um ritmo muito mais rápido do que os rendimentos das famílias. A oferta continua insuficiente face à procura, e os mercados imobiliários das regiões mais procuradas entram num ciclo vicioso em que preços mais altos afastam compradores e pressionam ainda mais os rendimentos.
Esta realidade tem um impacto profundo no tecido social e no futuro de uma geração inteira. A habitação é um direito básico e deveria ser um dos pilares da estabilidade e autonomia de qualquer adulto. Mas se, mesmo com formação superior, experiência internacional e emprego estável, continua a ser impossível comprar casa sem depender da família ou de um parceiro para contrair crédito conjunto, então algo está profundamente errado nas políticas públicas e no modelo económico que temos hoje em Portugal.
O resultado direto desta falha sistémica não é apenas um sonho adiado de independência — é uma saída massiva de jovens talentosos em busca de oportunidades e condições de vida dignas noutros países. A emigração entre jovens com formação superior tem aumentado, com cerca de 30% (no ano passado) a escolher viver e trabalhar no estrangeiro porque “em Portugal é simplesmente demasiado difícil” construir uma vida própria, com estabilidade e habitação digna.
Uma política que não protege os seus jovens mais qualificados, inteligentes e competentes, e que acaba por estimular a sua saída para o estrangeiro, é uma política pobre. Ao empurrar para o estrangeiro quem tem mais competências, o país está a promover um empobrecimento intelectual das suas instituições e do seu tecido produtivo, com consequências profundas no médio e longo prazo. Esta perda não é compensada na mesma medida nem com a mesma qualidade, apesar da importância inegável da imigração estrangeira, que hoje é essencial para o funcionamento do país. Reconhecer essa realidade não invalida o facto de estarmos a falhar gravemente na retenção do nosso próprio talento, beneficiando, em última instância, decisores políticos de visão curta e um modelo que se contenta com o empobrecimento estrutural do país.
Chegámos a este ponto não por acaso, mas como resultado de anos — e até décadas — de políticas públicas insuficientes, adiadas ou excessivamente focadas no curto prazo. Os sucessivos governos falharam em antecipar o impacto do financiamento da habitação, do crescimento do turismo, da atração de investimento externo sem contrapartidas sociais e da ausência persistente de uma política de habitação robusta, estruturada e de longo prazo. A habitação foi tratada mais como um ativo financeiro do que como um direito fundamental, e hoje pagamos esse preço coletivo.
Resolver este problema exige mais do que medidas pontuais ou benefícios fiscais temporários. Exige um aumento sério da oferta de habitação acessível, através da construção pública e cooperativa, da reabilitação do edificado devoluto, de incentivos claros ao arrendamento de longa duração a preços compatíveis com os rendimentos nacionais e de um planeamento urbano que não empurre sistematicamente os trabalhadores para fora dos centros onde trabalham. Exige também políticas salariais que permitam aos rendimentos acompanhar o custo de vida real e uma regulação do mercado que coloque limites claros quando o interesse público está em causa.
Nenhuma destas mudanças acontece sem responsabilidade política — e essa responsabilidade começa na participação cívica informada. Todas as eleições contam, não apenas como um momento simbólico, mas como uma oportunidade concreta de avaliar percursos, comparar propostas e exigir coerência a quem se candidata a governar. É compreensível que o desgaste, o desencanto e a sucessão de falhas políticas tenham afastado muitas pessoas da vida pública. No entanto, o afastamento não resolve esse problema: apenas reduz o escrutínio e enfraquece a democracia.
Votar, por si só, não transforma a realidade de forma imediata, mas é uma das poucas ferramentas ao alcance dos cidadãos para influenciar decisões, premiar escolhas responsáveis e penalizar erros repetidos. A democracia só cumpre o seu papel quando os cidadãos se mantêm informados, participam com espírito crítico e responsabilizam quem governa pelas consequências reais das suas decisões — não quando se resignam, nem quando delegam essa responsabilidade em discursos fáceis que prometem respostas simples para problemas complexos.
Se continuarmos a aceitar que trabalhar, estudar, contribuir e cumprir regras não chega para garantir uma vida digna, então estamos a normalizar um fracasso coletivo. A habitação não pode continuar a ser um privilégio reservado a poucos. É tempo de transformar indignação em escolha política, porque o futuro do país — e de uma geração inteira — depende disso.












