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Cancro: quando voltar a mexer-se é voltar à vida

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Jessica Margarido Especialista em Fisioterapia em Oncologia e mentora do programa “Lute contra o Cancro em Movimento”

Depois de um diagnóstico de cancro, há pessoas que passam a ter medo do próprio corpo. Medo de se cansarem, de sentirem dor, de fazerem esforço, de não conseguirem. E, muitas vezes, esse medo instala-se precisamente numa fase em que recuperar confiança no movimento pode fazer uma diferença enorme.

Ao longo do meu trabalho em fisioterapia em oncologia, vejo de perto o impacto que a doença e os tratamentos podem ter: fadiga, perda de força e massa muscular, dores articulares, alterações do equilíbrio, menor capacidade respiratória e perda de autonomia. Atividades simples, como subir escadas, caminhar ou cumprir tarefas do dia a dia, podem transformar-se em verdadeiros desafios.

Hoje sabemos, através da evidência científica, que o exercício, quando devidamente adaptado à situação clínica, à fase da doença e aos tratamentos realizados, pode ser um importante aliado na recuperação e no controlo de vários efeitos secundários. Não falamos de ultrapassar limites nem de treinar a qualquer custo. Falamos de movimento seguro, orientado e individualizado, com objetivos realistas e ajustados a cada pessoa.

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Também não é preciso ter sido uma pessoa ativa antes do diagnóstico. Em muitos casos, o primeiro passo é simplesmente voltar a acreditar que é possível mexer-se em segurança. E essa confiança constrói-se progressivamente.

Foi com esta visão que nasceu o programa comunitário gratuito “Lute contra o Cancro em Movimento”. Mais do que sessões de exercício, quisemos criar um espaço onde cada participante pudesse voltar a descobrir aquilo que ainda consegue fazer, esclarecer dúvidas e, sobretudo, recuperar confiança no próprio corpo.

É isso que mais me marca: ver alguém que inicialmente não conseguia subir dois degraus voltar a caminhar longas distâncias; ver diminuir o medo do exercício; ouvir relatos de mais energia, melhor equilíbrio, menos dores e maior autonomia. São mudanças que podem parecer pequenas para quem está de fora, mas que, para quem atravessa uma doença oncológica, representam muito.

O cancro deixa marcas físicas e emocionais que não desaparecem necessariamente quando termina um tratamento. Por isso, recuperar não é apenas tratar a doença. É também voltar a sentir capacidade, independência e qualidade de vida.

O exercício não apaga o diagnóstico, mas pode ajudar a devolver algo que muitas pessoas sentem ter perdido: a confiança de que o corpo ainda é capaz. E, por vezes, voltar a subir uma escada é muito mais do que subir uma escada. É voltar a sentir que a vida está novamente em movimento.

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