
O primeiro poema do livro estabelece um desígnio: «Enfrenta o sol que vem e adivinha / o azula de amendoeiras que são brancas». O segundo confirma o anterior: «O teu destino é atravessar os tempos / numa estranha sonda de olhos cintilantes». O terceiro regista o passado: «Foi meu o ardor. Foi minha a sujeição / de olhos quase gastos entre luar e sombra / entre um sim e um não, entre este chão / de rosas (e de paz) e um tão alto precipício / que além me trucidasse». A formação escolar do poeta na Escola D. Dinis da Paiã (Odivelas) está no poema da página 13: «Nesse lugar imagina-se o coaxar das rãs / e o cantar das uvas, o zumbir dos trigos / e os muitos vagares do sul.» Poema exemplar do que pode ser o título (porque resume uma paixão) é o da página 14: «Eram também os indícios / o que eu amava: / toques de pele, trocas de dedos / misturas de olhares e subtis afagos / que preenchiam a substância afectiva / de certas horas, de certas tardes ou manhãs.»
Nota final: mais de sessenta anos depois da estreia, aí está um novo e belíssimo livro de poemas de João Rui de Sousa.
(Editora: Coisas de Ler, Capa: Agência Corvo, Coordenação: Gisela Ramos Rosa)





