
Obra resulta da investigação da historiadora Rosalina Carmona ao longo de quatro anos
“A Cadeia do Forte de Peniche” é a mais recente edição do Museu Nacional Resistência e Liberdade (MNRL) da autoria da historiadora Rosalina Carmona, fruto de uma investigação realizada entre 2018 e 2022. Com uma edição de mil exemplares e sob a chancela da Museus e Monumentos de Portugal EPE e do museu nacional sediado na cidade piscatória, foi apresentado publicamente no passado sábado, dia 21, num espaço prisional do Estado Novo onde estiveram detidos 2.624 homens e duas mulheres, segundo comprovam até à data os arquivos.
Na ocasião, a directora do MNRL, Aida Rechena, que coordenou esta edição, destacou que se trata uma publicação que aborda a história, a par da evolução arquitetónica do próprio espaço prisional e, sobretudo, as condições de encarceramento dos presos políticos em Peniche. Apesar de existirem diversos livros sobre a cadeia de Peniche, a maioria escritos por antigos presos políticos, faltava uma publicação que reunisse e analisasse fontes arquivísticas, documentais e bibliográficas. “Trata-se, por isso, de um marco”, assinalou a responsável do espaço museológico da memória da resistência antifascista.
Falando nas instalações que recebeu uma das prisões políticas mais repressivas do sistema prisional fascista da ditadura, esta obra assenta na política editorial dirigida à produção de livros que integram o grande catálogo do museu. “Pretende-se com este conjunto de publicações abrir caminhos a futuras investigações e estudos, porque nunca a investigação está concluída”, destaca Aida Rechena.
Pela prisão política de Peniche passaram milhares de famílias, de visita aos seus familiares presos, “num processo que era angustiante e traumatizante, principalmente para os presos”.
Neste livro é abordada a história e a evolução arquitetónica da cadeia, as condições de encarceramento dos presos nas várias fases do estabelecimento prisional, mas traz também as lutas prisionais, as comunicações clandestinas, a solidariedade à paternidade no contexto carcerário, o âmbito de desorganização em que os presos eram sujeitos, os castigos que eram submetidos, as lutas travadas pelas famílias.
As evoluções que o espaço teve
Segundo Rosalina Carmona muita investigação está ainda por fazer para conhecermos bem a história desta prisão, bem como da fortaleza. “Mas este livro tentou procurar e incidir mais sobre a cadeia em si, sobre o seu funcionamento, as evoluções que o espaço tinha tido, porque teve várias. A partir dos anos 30, os primeiros anos da cadeia, era ainda um espaço militar, que estava sob a tutela do Comando Militar Especial de Peniche”, recorda.
Através da análise de relatórios e regulamentos da cadeia, procurou reviver o ambiente de tensão, desumanização e humilhação impostos aos presos pela PIDE e guardas prisionais.
Em simultâneo, é possível conhecer melhor as lutas travadas pelos presos e suas famílias por melhores condições de alimentação, de higiene, de visitas dos familiares, de entreajuda e solidariedade. “O regime celular foi um regime muito duro, porque ainda era mais desumano para os presos por estarem mais tempo sozinhos, completamente entregues a si próprios durante as 24 horas, tirando dois pequenos intervalos ao longo do dia”, regista a autora.
O catálogo da ‘Exposição Resistência e Liberdade’, editado aquando da inauguração do MNRL em 2024, o livro sobre a grande fuga de António Dias Lourenço em 1954, são as outras obras já editadas. Em impressão está o livro que retrata outra grande fuga, de vários dirigentes comunistas entre os quais Álvaro Cunhal, a 3 de janeiro de 1960, que deverá ver a luz do dia durante as próximas comemorações do 25 de abril em Peniche.












