
Caldas da Rainha e Óbidos sofreram principalmente com quedas de árvores que afetaram a circulação rodoviária e ferroviária e causaram danos em infraestruturas. Cortes de abastecimento de eletricidade e água foram as principais consequências e algumas escolas tiveram atividade interrompida. Na região, Alcobaça e Nazaré foram os concelhos mais afetados
A depressão Kristin entrou em território continental pelas regiões do Oeste e Leiria, no dia 28 de janeiro, deixando um rasto de destruição que levou o Governo a decretar Estado de Calamidade em 69 concelhos, de Torres Vedras e Lourinhã para norte até ao distrito de Coimbra. Só no Oeste foram registadas mais de 1.000 ocorrências relacionadas com a tempestade. Nas Caldas e Óbidos, os principais problemas provocados pela tempestade foram ao nível do abastecimento de eletricidade e água.
No concelho das Caldas da Rainha, o balanço da autarquia apontava para 350 ocorrências, desde quedas massivas de árvores, danos em escolas e equipamentos municipais, falhas prolongadas de energia e constrangimentos no abastecimento de água.
“Na prática, tivemos todo o concelho com alguns problemas”, disse o presidente da Câmara das Caldas, Vítor Marques. “Problemas nas estradas, com o aluimento de terras, mas também com problemas em alguns edifícios, as piscinas, os próprios edifícios da logística da Câmara, na Matel, e um conjunto de outros edifícios com alguns problemas que estão, desde já, também a ser ultrapassados.”
Na noite de segunda-feira, a Câmara revelou que a taxa de energização no concelho se situava entre 91% e 95%, estimando-se que cerca de 3.400 clientes continuassem sem fornecimento de energia elétrica. As freguesias mais afetadas eram Vidais, União das Freguesias de Caldas da Rainha — Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório, Salir de Matos, A-dos-Francos, Landal e União das Freguesias de Tornada e Salir do Porto.
Vítor Marques sublinha a dimensão do esforço no terreno: “Temos vindo, todas as entidades envolvidas, Proteção Civil Municipal, também a Proteção Civil Regional, os SMAS, a E-Redes, os Bombeiros Voluntários das Caldas da Rainha, as juntas de freguesia, a trabalhar no terreno para ajudar a resolver e a ultrapassar todos os problemas que têm acontecido, mas também um conjunto de outras instituições e voluntários que se têm juntado.”
No que respeita ao abastecimento de água, os SMAS restabeleceram no início da semana o fornecimento da rede em todo o concelho, “embora persistam situações pontuais de água turva”.
Um dos impactos mais visíveis da depressão no concelho foi a queda de árvores. Entre o Parque D. Carlos I e a Mata Rainha Dona Leonor terão tombado cerca de 200 árvores. Ambos os espaços permaneciam, ao fecho desta edição, encerrados por razões de segurança. Pelos mesmos motivos, o Caldas SC suspendeu as atividades no Campo da Mata e no da Quinta da Boneca.
Também as Piscinas Municipais continuam encerradas por falta de condições de segurança, depois dos fortes ventos da madrugada de quarta-feira terem arrancado parcialmente a cobertura do edifício. A situação obrigou à deslocalização das atividades dos Pimpões para a piscina da Escola Raul Proença.
Afetadas foram também várias escolas do concelho, nas quais as atividades letivas foram interrompidas até à passada segunda-feira em vários estabelecimentos. As escolas com mais danos registados foram a EN e JI de São Gregório; EB e JI de A-dos-Francos; EB e JI de Alvorninha; EB e JI Casais da Serra; EB e JI Carvalhal Benfeito; EB Avenal (JI Avenal aberto); EB e JI Lagoa Parceira; EB e JI Salir do Porto; JI Casal Celão; EB Santa Catarina (JI aberto); EB Relvas.
A queda de uma árvore sobre o depósito de gás da EB de Santo Onofre obrigou ao encerramento na quarta-feira, enquanto a EB D. João II sofreu danos na cobertura. A ESAD.CR, rodeada de pinhal, também esteve encerrada devido à queda de várias árvores.
Na Foz do Arelho, a erosão costeira tem sido monitorizada pelo município, em articulação com a Agência Portuguesa do Ambiente e as Águas do Tejo Atlântico. Quanto às linhas de água, recomenda-se que não seja cortada a vegetação das margens, para não aumentar o risco de cheias.
Com os avisos de mau tempo, sobretudo chuva persistente, a manterem-se para os próximos dias, Vítor Marques apela “a que todos estejam atentos, que possam preservar os vossos bens, evitar a circulação e o estacionamento num lugar onde tem uma árvore”.
A autarquia adiantou, ainda, que todas as situações de vulnerabilidade social identificadas foram resolvidas, incluindo realojamentos temporários.
Eletricidade e água foram os principais problemas em Óbidos
Tal como nas Caldas, no concelho de Óbidos a queda de árvores foi a responsável pela maior parte das ocorrências e as falhas na rede elétrica e de abastecimento de água as principais consequências.
Filipe Daniel, presidente da Câmara de Óbidos, apontou que, apesar da violência do fenómeno, há apenas a reportar “danos materiais”.
Logo após o pico do vento, a autarquia concentrou meios no Complexo Logístico Municipal e reuniu a comissão restrita para ativar o Plano Municipal de Emergência e Proteção Civil, que ficou operacional às 7h45. “Conseguimos, de uma forma rápida, ter um plano de intervenção em poucas horas”, disse Filipe Daniel, destacando a articulação entre serviços municipais, bombeiros, forças de segurança e autoridades de saúde.
A prioridade inicial foi a população mais vulnerável. “Olhámos em primeira instância para a vulnerabilidade das pessoas, aquelas que têm mais idade, dependência de oxigénio, as que estavam nas IPSS e nos centros de Melhor Idade, mas também às crianças, desde a escola à creche”, explicou. Alguns trabalhadores municipais foram dispensados de funções não essenciais para poderem apoiar familiares com necessidades especiais.
Em termos de ocorrências, no primeiro dia foram registadas 64 quedas de árvores, algumas com impacto em viaturas, habitações e estruturas, incluindo património público. As equipas, em articulação com as juntas de freguesia, avançaram para o desimpedimento das principais vias e acessos a habitações, de modo a evitar o isolamento de moradores.
O fornecimento de energia elétrica foi um dos principais problemas.
Algumas zonas estiveram vários dias sem eletricidade, tendo a situação ficado praticamente regularizada na segunda-feira.
Para mitigar os efeitos das falhas de energia, o município mobilizou geradores próprios e alugados, garantindo o abastecimento de água à população e a instituições sociais.
“Colocámos alguns dos geradores para fornecimento de água e em algumas IPSS que não tinham energia elétrica, para podermos ter, por exemplo, uma casa do povo a abastecer pessoas que precisam de oxigénio”, disse o presidente da Câmara.
Os bombeiros de Óbidos apoiaram ainda o enchimento de depósitos de água, incluindo em articulação com os do Bombarral, para assegurar água para consumo, higiene e outras necessidades básicas.
Também como nas Caldas, várias escolas foram afetadas e a atividade letiva interrompida de forma parcial, tendo ficado praticamente restabelecida em todas elas na segunda-feira.
A gestão da barragem do Arnóia foi outro dos pontos críticos. As comportas já estavam a ser abertas antes da tempestade e mantêm-se assim para criar capacidade de encaixe para nova precipitação. “Temos feito esta gestão em articulação com a Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural e a Associação de Beneficiários do Plano de Rega das Baixas de Óbidos”, referiu, admitindo que estas descargas também criam constrangimentos a moradores e empresários.
O município de Óbidos constituiu um gabinete de apoio ao Cidadão e ao Empresário, no âmbito da Situação de Calamidade, e garantiu ainda apoio psicológico aos cidadãos que se encontrem “em situação de maior fragilidade emocional” devido aos efeitos da catástrofe.
Mais de 1000 ocorrências em 48 horas
A depressão Kristin provocou, nas primeiras 48 horas, 1.014 ocorrências na região Oeste, mobilizando 3.500 operacionais e 1.166 veículos, segundo informação do Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil do Oeste.
O concelho mais afetado, até ao mesmo período foi Alcobaça, seguido de Torres Vedras, Caldas da Rainha, Óbidos e Nazaré. Cerca de 75% dos concelhos de Alcobaça e Nazaré ficaram sem eletricidade.
A depressão terá provocado 15 desalojados e mais de 43 pessoas deslocadas.
Entre os efeitos, conta-se ainda o corte de circulação ferroviária na Linha do Oeste, que até ao fecho desta edição não estava ainda restabelecida.

















