Um homem que se dedica a tocar flauta nas ruas das Caldas da Rainha foi abordado recentemente por um agente da PSP e instado a obter uma licença para poder continuar a fazê-lo e receber dinheiro por isso.
Há cerca de três anos que Luís Jorge anima sobretudo a rua das Montras, sendo quase uma “imagem de marca” porque está sempre acompanhado do seu cão.
Natural de França (os pais eram emigrantes e nasceram na Gafanha da Nazaré), Luís Jorge, de 41 anos, veio para a região em 2008 por causa da apanha da fruta. “Depois disso não tinha trabalho e arrisquei a rua, para tocar flauta e fazer alguns malabarismos”, contou.
Segundo contou à Gazeta das Caldas, esteve embarcado e foi mecânico naval, mas deixou de ter esse emprego. Também teve um atelier de cerâmica em conjunto com a sua ex-mulher, mas quando se separou acabou por ficar desempregado.
Trabalhou em várias áreas, mas o seu destino foi tocar na rua “porque não há mais nada”. Nem sequer na apanha da fruta voltou a conseguir trabalho este ano.
Durante algum tempo esteve a dormir junto aos antigos silos, mas há cerca de dois anos que dorme dentro de um carro que herdou do pai, depois de este ter falecido.
Luís Jorge garante que não é toxicodependente. “E ainda bem, o dinheiro já é pouco”, comentou.
O seu cão, a quem deu o nome de Conforto, nasceu em Coimbra, pouco tempo antes de se mudar para as Caldas. “Um amigo meu adoptou uma cadela que estava grávida e eu fiquei com um dos filhos dela”, contou. O nome Conforto surgiu porque “quando ele era pequenino andava sempre à procura de um sítio confortável”.
Agora o cão Conforto está sempre ao lado do seu dono e é olhado com carinho por muitos caldenses e visitantes das Caldas, tal é a sua passividade.
“Ele é uma grande companhia e ajuda-me muito” porque as pessoas aproximam-se mais do tocador de flauta devido à presença simpática do animal.
Para Luís Jorge é mais fácil arranjar alimentação para o seu cão do que para si próprio, porque muitas vezes lhe oferecem ração para o Conforto.
Como já fez alguns amigos e gosta das Caldas, gostaria de poder continuar nesta cidade. Um dos seus sonhos é conseguir uma casa, até porque se aproxima o inverno e as condições são muito difíceis.
Antes arrumador do que tocar flauta
Segundo Luís Jorge, a polícia abordou-o principalmente porque um comerciante queixou-se do barulho. O caso foi divulgado pelo caldense Carlos Gaspar num grupo do Facebook dedicado às Caldas da Rainha.
Entretanto, o artista já se deslocou à Câmara para pedir uma licença de ocupação do espaço público, onde lhe foi dito que provavelmente terá de pagar dois euros por dia para poder actuar na rua (valor de um metro quadrado).
Agora tem medo que acabe por nem sequer conseguir ganhar dinheiro para comer. “Num dia muito bom posso fazer 10 ou 15 euros, mas num dia mau nem os dois euros faço”, referiu, dizendo até ter medo que não lhe passem a licença.
Embora ache exagerado ter de pedir licença para tocar flauta na rua, compreende que os agentes da autoridade façam o seu trabalho.
“Eu posso tocar flauta, mas para poder receber dinheiro das pessoas tenho que ter a licença”, explicou.
O que não é compreensível é que em relação aos arrumadores de automóveis essa exigência não seja feita.
O decreto-lei 264/2002 transferiu para as câmaras municipais o licenciamento de várias actividades, inclusive a de arrumador de automóveis.
Por outro lado, o decreto-lei 310/2002 regula especificamente o licenciamento do exercício de arrumador de automóveis e sujeita a sua actividade a licenciamento municipal.
Estranhamente, quando a câmara das Caldas fez o seu regulamento municipal contemplou todas as actividades previstas no decreto-lei 264/2002 e 310/2002, menos a de arrumador de automóveis.
O que poderá querer dizer que a responsabilidade da continuação dos arrumadores nas Caldas da forma que existem actualmente acabe por ser exclusivamente da própria autarquia.
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