
Recriação histórica, pelas crianças da escola básica de Ferrel, marcou o arranque das comemorações
“A 15 de março, um grito soou, central nuclear, não! O povo clamou. Na terra, no ar, o eco ficou. Ferrel valente, sua força mostrou. Ferrel não se calou”… cantavam os 120 estudantes da Escola Básica de Ferrel, na manhã de 13 de março, entoando a música do artista César Luís. As crianças saíram às ruas, vestidos com trajes de há 50 anos, com forquilhas e enxadas feitas com materiais reciclados e em burros e tratores também feitos em cartão e tecidos. “Nuclear? Não, obrigado!”, “Não à central nuclear” e “Pela vida, contra o nuclear”, eram algumas das palavras de ordem destes manifestantes, como há meio século os avós de alguns deles haviam feito. É o caso de Vitória Marques e Vasco Oliveira ambos de Ferrel. “A minha avó conta que quando foi o 25 de Abril estava a apanhar ervilhas!”, diz-nos ela. Já ele, que levava uma “enxada”, recorda-se do avô contar que viu milhares de pessoas em Ferrel nas manifestações. Mas nem todos têm a possibilidade de ter a história contada de fontes tão próximas. Por exemplo, Sabita Khadka, veio do Nepal há quatro anos. “Estou muito contente e a minha filha de nove anos também, está a ser muito giro e é bom para conhecer melhor a cultura”, disse, notando que achou particular piada à maneira como iam vestidos. A filha, Krisxa, explicou em casa que esta foi uma marcha contra a construção de uma central nuclear em Ferrel, há 50 anos, e diz que se divertiu. Por sua vez, Nataskia Sena, que é brasileira, é mãe de João de seis anos, que está no primeiro ano e que levava uma das faixas. “Moro em Ferrel há três anos”, conta. E foi esta iniciativa que lhe deu a conhecer o acontecimento. Elogiando a luta popular de há 50 anos e a comemoração agora realizada, conta que se emocionou ao começar a ouvir chegar esta manifestação.
Falamos ainda com o jovem Gabriel Bastos, que mora em Geraldes e tem sete anos, que aprendeu sobre a manifestação em casa. “Fui ver a história à internet”, diz, acrescentando que gostou de participar. Por sua vez, Lia, de nove anos, é filha do jornalista do Expresso, Tiago Carrasco, que tem trabalhado sobre esta temática. “Gostei muito de fazer a manifestação, levava um cartaz”, conta.
A coordenadora da escola, Ana Sofia Vitorino, explicou que este ano o trabalho escolar focou-se todo neste tema, destacando o envolvimento de todos e a importância de incutir nos mais novos este espírito de lutarem pelo que acreditam e querem.
Silvino João, que era o presidente da Junta em 1976, fala emocionado à Gazeta das Caldas. “50 anos depois é a mesma emoção daquela altura ou mais, já me vieram as lágrimas aos olhos, já somos poucos os que estamos cá…”. O antigo autarca diz que esta recriação foi “algo de extraordinário”, notando a importância de transmitir a estas gerações o acontecimento. Recordou quando Delgado Domingos se fez passar por morador, respondendo tecnicamente numa sessão de esclarecimento da Junta de Energia Nacional. “Foi uma das sessões que não chegou ao fim, porque quando descobriram que era o Delgado Domingos que estava a falar, acabou a sessão, foram vaiados e foram embora na sua carrinha”, lembra. Outro episódio deu-se na segunda manifestação, com um “anarquista holandês que tinha mais cordão detonante numa mala do que eu tive no Exército e estava disposto a derreter todas as antenas que lá estavam e lá o convenci” a não o fazer. Mas também se lembra de Fausto “fazer aquela estrofe, neste largo”, aponta, “no meio da população, com a guitarra e aquilo sai”, recorda, referindo “aquela canção maravilhosa”, Rosalinda.
No domingo, dia 15, três bisnetas da Dona Crealmina voltaram a tocar o sino da igreja a rebate. Durante a tarde realizaram-se as comemorações, bem como as palestras e concertos. O presidente da Câmara de Peniche, Filipe Sales, anunciou a criação de um memorial evocativo da luta a ser inaugurado nas comemorações dos 50 anos das primeiras eleições autárquicas (partilhando imagens do projeto) e destacou a importância da iniciativa, realçando o quão inspirador foi o acontecimento e o quão diferente seria o território se a central tivesse avançado. No local havia uma mostra, organizada pela Associação Patrimonium, que apresentava, entre as peças expostas, várias referências à Gazeta das Caldas, com páginas do jornal que se associou à luta desde o primeiro momento.











