Desde a frequência sazonal da família na freguesia da Foz do Arelho nos anos 30 do século passado, à presença da estância de férias para os alunos do Colégio Moderno durante as décadas de 40 e 50 do século XX, a figura de Mário Soares e sua família estão fortemente associadas ao concelho das Caldas da Rainha. Mário Soares realizou os primeiros exames escolares nas Caldas, quando aqui viveu em casa da família Freitas por o pai estar preso nos Açores. Regressaria às Caldas em lazer, mas também nas suas funções oficiais enquanto Presidente da República.
Os seus filhos, João e Isabel Soares, recordam, numa conversa com Jacinto Gameiro, advogado e amigo da família, no âmbito das Comemorações do Centenário da Gazeta das Caldas, as suas memórias das Caldas da Rainha e da região, mais particularmente a Foz do Arelho, onde passaram as suas férias de infância, bem como a proximidade à família Maldonado Freitas. O testemunho é feito na primeira pessoa.
João Soares – sua ligação, desde muito jovem, à Foz do Arelho
A praça da fruta e a antiga praça do peixe, o Cine-Teatro Pinheiro Chagas e os amigos caldenses, são as recordações que vêm desde a infância ligada à região
Caldas da Rainha era uma terra cheia de charme. A rua que ia dar à Estação dos Comboios é um exemplo. Dantes, era uma rua onde havia uns casarões, vivendas lindíssimas da burguesia Caldense.
Depois teve ali uma gestão urbanística, sobretudo no pós-25 de Abril, que descaracterizou aquilo.
Mas hoje em dia, a Praça da Fruta ainda mantém o seu charme e considero uma das melhores praças da fruta do país, com os seus vegetais, legumes e frutas.
A tradição continua e até a qualidade. É uma coisa única!
Depois havia uma Praça do Peixe (hoje, Praça 5 de Outubro), que tinha sido deslocada da Praça da Fruta, onde desde 1901 havia o Cine-Teatro Pinheiro Chagas.
Funcionava como teatro durante o Verão e como cinema também.
Havia espectáculos que vínhamos ver quando passávamos largas temporadas na Foz do Arelho, nas férias de Verão do Colégio Moderno.
No Verão, algumas Companhias de Teatro de Lisboa vinham fazer a periferia, as cidades à beira mar. Traziam uns espectáculos, por um ou dois dias. Muito interessante. Havia umas carrinhas para transportar os alunos.
Era um ambiente cultural muito especial.
O Rafael Bordalo Pinheiro levou para lá muita gente. A sua ligação ao barro ajudou muito a cidade das Caldas da Rainha.
Ir às Caldas era sempre uma jornada de meio dia.
Íamos por Alenquer, Ota… Por vezes, o meu avô paterno queria ir por Torres Vedras, mas era mais penoso. As curvas eram penosas. Mas havia ali uma relação afectiva e política a Torres Vedras.
O Verão era sempre lá, até começarem as aulas em Lisboa.
Ainda existe o imóvel onde era a Colónia de Férias do Colégio Moderno. Posso arranjar uma fotografia.
Era um edifício relativamente isolado, todo murado, que era a Colónia de Férias. Tinha uma entrada autónoma com uma escada na parte principal do edifício para a casa do Senhor Director, que era, na altura, o meu avô paterno João Lopes Soares.
A casa tinha três quartos e uma boa sala autónoma, apoiada pelo serviço do Colégio. E havia uma cozinha grande comum. Os meninos estavam lá por dois ou três meses e tinham de ser alimentados todos os dias.
Devia ter umas largas dezenas de miúdos, talvez uma centena. Não sei se chegava à centena.
Alguns alunos internos vinham “da província”, como se dizia na altura. E outros, vinham das antigas Colónias.
O Colégio funcionava como interno. Havia um ambiente familiar.
Lembro-me do caso de um aluno que os pais viviam em Cabinda e ele só lá ia de três em três anos – João Diogo Nunes Barata, que fez lá toda a sua instrução desde a escola primária até ao final do liceu. Tirou o curso de Direito, depois entrou na carreira diplomática e foi embaixador em vários sítios.
Enquanto militar, foi Chefe de Gabinete do General António de Spínola, na Guiné e, mais tarde, Chefe de Gabinete do meu pai na Presidência da República.
Morreu no ano passado e não deixou memórias escritas.
Mas recordo, agora, uma história fabulosa que ele contava.
Quando entrou na carreira diplomática, foi colocado nos serviços do Protocolo do Estado.
Aí em 1966, um velho embaixador monárquico foi encarregue de preparar a tribuna para a inauguração da Ponte Salazar. Chefiava o Protocolo:
“Aqui fica uma cadeira para o Patriarca de Lisboa, aqui fica o Pai do Rei D. Duarte, pretendente à Casa Real, etc…”
Na véspera, à tarde, só se ia circular no dia seguinte, veio um carro do lado de Lisboa sem grande protecção, talvez um “pide” a acompanhar. Era o Salazar.
“Senhor Presidente”, diz o Embaixador e o Salazar responde que apenas vinha ver como estavam as coisas.
“O Senhor Presidente fica sentado aqui, ao lado o Senhor Presidente Américo Tomás, a Esposa, o Cardeal Patriarca e ao lado, o Pai do D. Duarte”.
Salazar virou-se para o Embaixador e disse-lhe: ” o Senhor devia saber que Portugal é uma República”. Não disse mais nada, apenas boa tarde, e foi-se embora.
O Embaixador ficou muito atrapalhado e esteve mais de uma hora a colocar cadeira, a tirar cadeira…uma história deliciosa que me contou João Nunes Barata.
O Alfredo Barroso, meu primo, também era interno no Colégio e passava o Verão na Foz do Arelho, até que passou a ir para o Algarve.
Tinha lá um tio, irmão da minha mãe que recebia os sobrinhos.
Mas olhávamos na altura para o Algarve como uma coisa desprezível.
Se ir para as Caldas da Rainha era difícil, chegar ao Algarve era horrível.
Não tinha as mínimas condições.
Fomos lá uma vez, com os meus pais, quando fizeram 50 anos de casados e aquilo não tinha nada. Não tinha pensões, não tinha nada.
É a imagem que tenho do Algarve nos anos sessenta.
Mas também me recordo de uma tasquinha em Portimão onde davam camarões pequeninos em pratinhos para puxar pelo consumo de cerveja.
A minha mãe acabou com o internato quando entrei para a Universidade, penso que por volta de sessenta e seis.
Já não se justificava. Havia menos internos e a casa era arrendada. E o meu avô também achou que não se justificava arrendá-la no Verão.
Durante as férias do Colégio na Foz do Arelho, a minha mãe tinha a tradição de ir às compras à Praça da Fruta e ao peixe, às Caldas da Rainha.
E também a Peniche. Era relativamente perto, embora as ligações rodoviárias, nessa altura, fossem péssimas, ia com a minha mãe, por vezes, à lota a Peniche.
A ligação da nossa família às Caldas da Rainha era muito antiga, mesmo antes das férias do Colégio Moderno, na Foz do Arelho.
Lembro-me do meu pai contar quando esteve preso em 1947, no Aljube, com o pai dele.
Ficaram na mesma cela com outros presos políticos e um deles, era o Maldonado Freitas, Farmacêutico das Caldas da Rainha. E por esse motivo, obrigava-os a fazerem a cama todos os dias de manhã e mantinha a disciplina na cela.
Entretanto, perguntei ao João se sabia se uma das vezes que o avô paterno esteve preso, se o pai tinha sido matriculado nas Caldas da Rainha para fazer a quarta-classe, ficando em casa da Família Freitas.
– É capaz de ter acontecido, mas não sei – disse-me, entre um café e um bolo.
– Não queres um bolo?
– Não, obrigado.
– Vou ver o que é que há… O que é que há aí?…
Também havia um entrosamento por via da oposição à ditadura.
Os amigos eram todos do reviralho.
O Maldonado Freitas era um republicano desde a Primeira República e conhecido por ser anticlerical.
Havia igualmente uma tradição muito grande de acolherem os familiares dos presos políticos que estavam presos em Peniche. Para poderem ir visitá-los.
E ajudavam pessoas que estavam na semiclandestinidade.
Recordo-me, por exemplo, de um filho do Dias Lourenço.
Eles recolhiam pessoas perseguidas e ajudavam-nas.
O painel lindíssimo que existe no Café Central, nas Caldas da Rainha, feito pelo Júlio Pomar quando esteve a viver nas Caldas da Rainha, acolhido pelo Maldonado Freitas, que era também o dono do Café e lhe pagou o painel.
A Praia da Foz do Arelho era uma praia de férias onde vinham famílias do interior.
Havia lá uma família de Santarém, também muito conhecida. A Foz era uma praia onde vinha aquele interior.
Havia pessoas que tinham casa, mas havia muitas casas alugadas à temporada para a época do Verão.
Lembro-me que o meu pai me comprou a minha primeira bicicleta, pequenina, ainda de rodinhas.
Mas depois, a minha primeira bicicleta de modelo adulto, foi comprada numa loja perto da Estátua da Rainha Dona Leonor, nas Caldas da Rainha.
Havia uma casa de bicicletas ali no começo da estrada que ia para a Foz do Arelho.
O dono era do PCP e muito simpático. Tinha estado preso e organizava a ajuda aos filhos dos presos políticos.
Era uma estrada alcatroada. Eram dez quilómetros até à Foz do Arelho.
Vínhamos muito de bicicleta até ao Parque Dom Carlos I.
Era uma coisa fascinante. O Parque era muito simpático, muito agradável. O Museu José Malhoa, aquele Céu de Vidro e o Clube de Ténis.
O meu pai gostava daquela zona. Tinha lá ligações.
Era uma zona onde havia pessoas de oposição ao regime.
O meu avô era de Leiria. E tinha uma ligação a essa zona.
Em miúdo, nessas temporadas de Verão, íamos às Berlengas no barco, que era uma coisa… Aquele barco ainda hoje existe, o transporte é péssimo.
Aquilo,… se tu não vomitas logo que começas a viagem, vomitas a ver os outros vomitar…
Eu, por acaso, nunca vomitei.
Também me lembro que não havia estrada de ligação a São Martinho do Porto.
Que era uma terra de gente com pretensões sociais, que às vezes não tinha nada a ver com a realidade. Dizia-se que era uma terra de “queques”.
Muitas vezes, a partir da aldeia, íamos pelos montes para as praias das rochas que ficavam do lado direito, para quem está virado para o mar.
Descias ali… Mas aquilo era difícil… Difícil, pois.
Também te digo uma coisa. Quem aprendeu a nadar no mar da Foz do Arelho, nunca mais esqueceu.
Aquele mar tinha uma disciplina muito séria.
Havia banheiros que tinham estado emigrados nos Estados Unidos e no Canadá, gente ligada às pescas e ao mar e que nos ensinaram a nadar.
Também montavam as barracas durante o Verão e orientavam os banhos no mar. Havia muitas correntes difíceis.
Aquele mar era sempre difícil.
E para os pescadores, não havia um porto de abrigo, nem mesmo em São Martinho ou na Foz do Arelho e na Nazaré. Só em Peniche.
Só depois do 25 de Abril é que a Nazaré teve um porto de abrigo.
Parece que nunca foi feito um estudo hidrográfico sobre as correntes.
Mas ainda me recordo de ver os pescadores saírem para o mar na Foz do Arelho, a remo.
E na Lagoa, que era funda, havia umas barcaças que faziam o transporte entre as margens
Perto daquele palacete, junto à estrada, para o outro lado da Lagoa, para os Belgas.
Hoje é uma vergonha, tudo assoreado.
Falava-se de uns Belgas, uma entidade mítica, que não se conheciam, e que não se sabia o que iriam fazer. Não tinham uma habitação, uma casa.
Todos os anos, o meu avô paterno nos proporcionava um passeio de bateira à volta da Lagoa.
Era um barco dirigido à vara. Ainda hoje lá existem algumas encostadas.
À noite, havia pescadores que pescavam ao candeio, peixe com algum valor. E também faziam a apanha dos bivalves.
Na praia havia uma senhora que vendia uns camarões, uns caranguejos, umas batatas fritas artesanais, a Dona Piedade que faleceu já depois do 25 de Abril e um senhor que vendia bolos. “Vai já”, “vai já” dizia ele, e ficou conhecido pelo Senhor “Vai já”.
E havia uma senhora da fábrica da Frami que vendia bolos.
O tempo nem sempre ajudava, havia dias inteiros, que nem o Sol se via, e assim ficávamos fechados nas barracas da praia.
E depois de almoço e durante três horas, não se podia ir ao mar, nem molhar os pés.
Havia por lá umas raparigas de Santarém e uns primeiros namoricos ali aconteceram.
Ainda hoje gosto de lá ir tomar banho.
Restaurantes na Foz do Arelho quase que não existiam.
Mas recordo-me de que em frente à FNAT (hoje, INATEL), antiga casa do Grandela, era o Lagoa Bar.
Os restaurantes e bares que existem hoje junto à Lagoa não existiam.
Lembro-me de ser uma zona murada que pertencia à Viscondessa que tinha lá aquele palacete.
Aquela estrada que existe hoje, não havia na altura. Ali havia uma lagoa, que era a lagoa escura que ligava com a outra.
Caldas da Rainha era, de facto, uma zona muito interessante.
Havia ali uma tradição, muita gente refugiada. Quer dizer, só sei isto, de ouvir contar…
Como as Caldas da Rainha tinham uma infra-estrutura termal, havia uma série de pensões e tinha mesmo alguns hotéis que apoiavam aquilo tudo.
Quando foi da vaga dos refugiados, nomeadamente judeus, na fase inicial da Segunda Guerra Mundial… Foram para ali muito tempo.
Até o Hotel do Facho, que é um encanto, também recebeu refugiados.
Mas o Hotel do Facho é anterior à Primeira República. Há uma ligação também muito forte com a Primeira República.
Na Foz do Arelho, também havia a casa do Francisco Grandela, hoje o Inatel, tal como já referi.
Ele nasceu em Aveiras de Cima, mas faleceu ali naquela casa.
Aliás, “semeou” aquela zona toda de escolas e de bairros operários, como fez em Lisboa.
Ainda hoje, na Foz do Arelho, lá está a escola primária que Francisco Grandela mandou construir e onde cheguei a ter explicações.
Ele era um republicano “dos quatro costados” e grande amigo de Afonso Costa.
Afonso Costa passava grandes temporadas na Foz do Arelho, principalmente de Verão, em casa do Grandela.
Aliás, o borrão da primeira lei de separação do Estado e da Igreja Católica é redigido por Afonso Costa em casa do Grandela.
Sempre houve por ali uma série de gente famosa.
Por exemplo, o Humberto Lopes, advogado das Caldas da Rainha, preso político ligado ao PCP que vivia ali na zona.
A esposa frequentava a praia da Foz do Arelho. Tinha uma barraca de lona com listas vermelhas. Era uma pessoa progressista, mas zangava-se com os banheiros.
Havia cinco banheiros e todos os anos havia um que lhe montava a barraca e ela zangava-se com ele, até que chegou a altura que ninguém lhe queria montar a barraca de praia.
Também o historiador António Borges Coelho, ligado ao PCP, que esteve preso no Aljube e em Peniche, não quis integrar a fuga de Álvaro Cunhal e de outros camaradas, porque não queria continuar a viver na clandestinidade.
Do ponto de vista cultural, as Caldas da Rainha eram muito importantes.
E com a abertura da Escola de Artes, foi para lá o Politécnico, a ESAD, que levou para lá uma população muito jovem.
Também me lembro da construção do Tribunal das Caldas da Rainha.
A construção foi feita por presos, que estavam ali com correntes a construir aquilo. Parecia uma coisa muito medieval.
Recordo-me, igualmente, de uma belíssima barbearia junto à Estação dos Capristanos, depois dos Claras, na Rua 1º de Dezembro. O meu avô levava-me lá a cortar o cabelo. Eram quatro ou cinco barbeiros.
Nunca comprei, mas era também lá no Barbeiro, que se compravam umas coisas raras, na altura, as “camisas de vénus”.
Era um excelente edifício, que tinha um bom restaurante no primeiro andar.
Nas Caldas da Rainha havia pastelarias onde se ia comprar trouxas d’ovos e também me recordo de irmos à Pastelaria Machado, em frente ao Parque. Agora já fechou…
Depois houve uma crise de salmonelas que impossibilitou a compra das trouxas d’ovos durante um ano. A minha mãe dizia: “não se pode comer trouxas d’ ovos “.
Eram regras que hoje nos fazem rir.
Julgo que havia uma livraria razoável na Rua das Montras, pelo menos é assim que me recordo. Penso que ainda hoje lá existe uma.
Havia gente a ler. Havia uma biblioteca, não me recordo onde. Mas tenho ideia que era no Parque, talvez nos Pavilhões do Parque. Ficaram sempre incompletos…
Houve vários planos para os Pavilhões, nunca concretizados. Aquilo era para alargar as Termas.
As Caldas da Rainha tinham uma oferta comercial interessante.
Havia ali uns eventos… umas feiras…
Havia a Feira do 15 de Agosto e a tourada. Quando era miúdo, fui várias vezes à tourada.
A Praça de Touros não está modernizada e não é confortável.
Fui lá há dois anos com a Margarida. A mulher do António José Seguro.
O meu avô era de Leiria e íamos lá muitas vezes.
Conheço bem a estrada que ia das Caldas para Leiria.
Passávamos por Alfeizerão, onde íamos comer o pão-de-ló.
Depois Alcobaça, com um dos mais belos Mosteiros do País, criado pela Ordem de Cister.
Alcobaça ainda hoje tem uma estação de tratamento de fruta, iniciada pela Ordem de Cister, que se dedicava à agricultura.
As coisas da nossa infância são as que nos marcam mais…

Caldas da Rainha era uma terra cheia de charme. A rua que ia dar à Estação dos Comboios é um exemplo. Dantes, era uma rua onde havia uns casarões, vivendas lindíssimas da burguesia Caldense.
Depois teve ali uma gestão urbanística, sobretudo no pós-25 de Abril, que descaracterizou aquilo.
Mas hoje em dia, a Praça da Fruta ainda mantém o seu charme e considero uma das melhores praças da fruta do país, com os seus vegetais, legumes e frutas.
A tradição continua e até a qualidade. É uma coisa única!
Depois havia uma Praça do Peixe (hoje, Praça 5 de Outubro), que tinha sido deslocada da Praça da Fruta, onde desde 1901 havia o Cine-Teatro Pinheiro Chagas.
Funcionava como teatro durante o Verão e como cinema também.
Havia espectáculos que vínhamos ver quando passávamos largas temporadas na Foz do Arelho, nas férias de Verão do Colégio Moderno.
No Verão, algumas Companhias de Teatro de Lisboa vinham fazer a periferia, as cidades à beira mar. Traziam uns espectáculos, por um ou dois dias. Muito interessante. Havia umas carrinhas para transportar os alunos.
Era um ambiente cultural muito especial.
O Rafael Bordalo Pinheiro levou para lá muita gente. A sua ligação ao barro ajudou muito a cidade das Caldas da Rainha.
Ir às Caldas era sempre uma jornada de meio dia.
Íamos por Alenquer, Ota… Por vezes, o meu avô paterno queria ir por Torres Vedras, mas era mais penoso. As curvas eram penosas. Mas havia ali uma relação afectiva e política a Torres Vedras.
O Verão era sempre lá, até começarem as aulas em Lisboa.
Ainda existe o imóvel onde era a Colónia de Férias do Colégio Moderno. Posso arranjar uma fotografia.
Era um edifício relativamente isolado, todo murado, que era a Colónia de Férias. Tinha uma entrada autónoma com uma escada na parte principal do edifício para a casa do Senhor Director, que era, na altura, o meu avô paterno João Lopes Soares.
A casa tinha três quartos e uma boa sala autónoma, apoiada pelo serviço do Colégio. E havia uma cozinha grande comum. Os meninos estavam lá por dois ou três meses e tinham de ser alimentados todos os dias.
Devia ter umas largas dezenas de miúdos, talvez uma centena. Não sei se chegava à centena.
Alguns alunos internos vinham “da província”, como se dizia na altura. E outros, vinham das antigas Colónias.
O Colégio funcionava como interno. Havia um ambiente familiar.
Lembro-me do caso de um aluno que os pais viviam em Cabinda e ele só lá ia de três em três anos – João Diogo Nunes Barata, que fez lá toda a sua instrução desde a escola primária até ao final do liceu. Tirou o curso de Direito, depois entrou na carreira diplomática e foi embaixador em vários sítios.
Enquanto militar, foi Chefe de Gabinete do General António de Spínola, na Guiné e, mais tarde, Chefe de Gabinete do meu pai na Presidência da República.
Morreu no ano passado e não deixou memórias escritas.
Mas recordo, agora, uma história fabulosa que ele contava.
Quando entrou na carreira diplomática, foi colocado nos serviços do Protocolo do Estado.
Aí em 1966, um velho embaixador monárquico foi encarregue de preparar a tribuna para a inauguração da Ponte Salazar. Chefiava o Protocolo:
“Aqui fica uma cadeira para o Patriarca de Lisboa, aqui fica o Pai do Rei D. Duarte, pretendente à Casa Real, etc…”
Na véspera, à tarde, só se ia circular no dia seguinte, veio um carro do lado de Lisboa sem grande protecção, talvez um “pide” a acompanhar. Era o Salazar.
“Senhor Presidente”, diz o Embaixador e o Salazar responde que apenas vinha ver como estavam as coisas.
“O Senhor Presidente fica sentado aqui, ao lado o Senhor Presidente Américo Tomás, a Esposa, o Cardeal Patriarca e ao lado, o Pai do D. Duarte”.
Salazar virou-se para o Embaixador e disse-lhe: ” o Senhor devia saber que Portugal é uma República”. Não disse mais nada, apenas boa tarde, e foi-se embora.
O Embaixador ficou muito atrapalhado e esteve mais de uma hora a colocar cadeira, a tirar cadeira…uma história deliciosa que me contou João Nunes Barata.
O Alfredo Barroso, meu primo, também era interno no Colégio e passava o Verão na Foz do Arelho, até que passou a ir para o Algarve.
Tinha lá um tio, irmão da minha mãe que recebia os sobrinhos.
Mas olhávamos na altura para o Algarve como uma coisa desprezível.
Se ir para as Caldas da Rainha era difícil, chegar ao Algarve era horrível.
Não tinha as mínimas condições.
Fomos lá uma vez, com os meus pais, quando fizeram 50 anos de casados e aquilo não tinha nada. Não tinha pensões, não tinha nada.
É a imagem que tenho do Algarve nos anos sessenta.
Mas também me recordo de uma tasquinha em Portimão onde davam camarões pequeninos em pratinhos para puxar pelo consumo de cerveja.
A minha mãe acabou com o internato quando entrei para a Universidade, penso que por volta de sessenta e seis.
Já não se justificava. Havia menos internos e a casa era arrendada. E o meu avô também achou que não se justificava arrendá-la no Verão.
Durante as férias do Colégio na Foz do Arelho, a minha mãe tinha a tradição de ir às compras à Praça da Fruta e ao peixe, às Caldas da Rainha.
E também a Peniche. Era relativamente perto, embora as ligações rodoviárias, nessa altura, fossem péssimas, ia com a minha mãe, por vezes, à lota a Peniche.
A ligação da nossa família às Caldas da Rainha era muito antiga, mesmo antes das férias do Colégio Moderno, na Foz do Arelho.
Lembro-me do meu pai contar quando esteve preso em 1947, no Aljube, com o pai dele.
Ficaram na mesma cela com outros presos políticos e um deles, era o Maldonado Freitas, Farmacêutico das Caldas da Rainha. E por esse motivo, obrigava-os a fazerem a cama todos os dias de manhã e mantinha a disciplina na cela.
Entretanto, perguntei ao João se sabia se uma das vezes que o avô paterno esteve preso, se o pai tinha sido matriculado nas Caldas da Rainha para fazer a quarta-classe, ficando em casa da Família Freitas.
– É capaz de ter acontecido, mas não sei – disse-me, entre um café e um bolo.
– Não queres um bolo?
– Não, obrigado.
– Vou ver o que é que há… O que é que há aí?…
Também havia um entrosamento por via da oposição à ditadura.
Os amigos eram todos do reviralho.
O Maldonado Freitas era um republicano desde a Primeira República e conhecido por ser anticlerical.
Havia igualmente uma tradição muito grande de acolherem os familiares dos presos políticos que estavam presos em Peniche. Para poderem ir visitá-los.
E ajudavam pessoas que estavam na semiclandestinidade.
Recordo-me, por exemplo, de um filho do Dias Lourenço.
Eles recolhiam pessoas perseguidas e ajudavam-nas.
O painel lindíssimo que existe no Café Central, nas Caldas da Rainha, feito pelo Júlio Pomar quando esteve a viver nas Caldas da Rainha, acolhido pelo Maldonado Freitas, que era também o dono do Café e lhe pagou o painel.
A Praia da Foz do Arelho era uma praia de férias onde vinham famílias do interior.
Havia lá uma família de Santarém, também muito conhecida. A Foz era uma praia onde vinha aquele interior.
Havia pessoas que tinham casa, mas havia muitas casas alugadas à temporada para a época do Verão.
Lembro-me que o meu pai me comprou a minha primeira bicicleta, pequenina, ainda de rodinhas.
Mas depois, a minha primeira bicicleta de modelo adulto, foi comprada numa loja perto da Estátua da Rainha Dona Leonor, nas Caldas da Rainha.
Havia uma casa de bicicletas ali no começo da estrada que ia para a Foz do Arelho.
O dono era do PCP e muito simpático. Tinha estado preso e organizava a ajuda aos filhos dos presos políticos.
Era uma estrada alcatroada. Eram dez quilómetros até à Foz do Arelho.
Vínhamos muito de bicicleta até ao Parque Dom Carlos I.
Era uma coisa fascinante. O Parque era muito simpático, muito agradável. O Museu José Malhoa, aquele Céu de Vidro e o Clube de Ténis.
O meu pai gostava daquela zona. Tinha lá ligações.
Era uma zona onde havia pessoas de oposição ao regime.
O meu avô era de Leiria. E tinha uma ligação a essa zona.
Em miúdo, nessas temporadas de Verão, íamos às Berlengas no barco, que era uma coisa… Aquele barco ainda hoje existe, o transporte é péssimo.
Aquilo,… se tu não vomitas logo que começas a viagem, vomitas a ver os outros vomitar…
Eu, por acaso, nunca vomitei.
Também me lembro que não havia estrada de ligação a São Martinho do Porto.
Que era uma terra de gente com pretensões sociais, que às vezes não tinha nada a ver com a realidade. Dizia-se que era uma terra de “queques”.
Muitas vezes, a partir da aldeia, íamos pelos montes para as praias das rochas que ficavam do lado direito, para quem está virado para o mar.
Descias ali… Mas aquilo era difícil… Difícil, pois.
Também te digo uma coisa. Quem aprendeu a nadar no mar da Foz do Arelho, nunca mais esqueceu.
Aquele mar tinha uma disciplina muito séria.
Havia banheiros que tinham estado emigrados nos Estados Unidos e no Canadá, gente ligada às pescas e ao mar e que nos ensinaram a nadar.
Também montavam as barracas durante o Verão e orientavam os banhos no mar. Havia muitas correntes difíceis.
Aquele mar era sempre difícil.
E para os pescadores, não havia um porto de abrigo, nem mesmo em São Martinho ou na Foz do Arelho e na Nazaré. Só em Peniche.
Só depois do 25 de Abril é que a Nazaré teve um porto de abrigo.
Parece que nunca foi feito um estudo hidrográfico sobre as correntes.
Mas ainda me recordo de ver os pescadores saírem para o mar na Foz do Arelho, a remo.
E na Lagoa, que era funda, havia umas barcaças que faziam o transporte entre as margens.
Perto daquele palacete, junto à estrada, para o outro lado da Lagoa, para os Belgas.
Hoje é uma vergonha, tudo assoreado.
Falava-se de uns Belgas, uma entidade mítica, que não se conheciam, e que não se sabia o que iriam fazer. Não tinham uma habitação, uma casa.
Todos os anos, o meu avô paterno nos proporcionava um passeio de bateira à volta da Lagoa.
Era um barco dirigido à vara. Ainda hoje lá existem algumas encostadas.
À noite, havia pescadores que pescavam ao candeio, peixe com algum valor. E também faziam a apanha dos bivalves.
Na praia havia uma senhora que vendia uns camarões, uns caranguejos, umas batatas fritas artesanais, a Dona Piedade que faleceu já depois do 25 de Abril e um senhor que vendia bolos. “Vai já”, “vai já” dizia ele, e ficou conhecido pelo Senhor “Vai já”.
E havia uma senhora da fábrica da Frami que vendia bolos.
O tempo nem sempre ajudava, havia dias inteiros, que nem o Sol se via, e assim ficávamos fechados nas barracas da praia.
E depois de almoço e durante três horas, não se podia ir ao mar, nem molhar os pés.
Havia por lá umas raparigas de Santarém e uns primeiros namoricos ali aconteceram.
Ainda hoje gosto de lá ir tomar banho.
Restaurantes na Foz do Arelho quase que não existiam.
Mas recordo-me de que em frente à FNAT (hoje, INATEL), antiga casa do Grandela, era o Lagoa Bar.
Os restaurantes e bares que existem hoje junto à Lagoa não existiam.
Lembro-me de ser uma zona murada que pertencia à Viscondessa que tinha lá aquele palacete.
Aquela estrada que existe hoje, não havia na altura. Ali havia uma lagoa, que era a lagoa escura que ligava com a outra.
Caldas da Rainha era, de facto, uma zona muito interessante.
Havia ali uma tradição, muita gente refugiada. Quer dizer, só sei isto, de ouvir contar…
Como as Caldas da Rainha tinham uma infra-estrutura termal, havia uma série de pensões e tinha mesmo alguns hotéis que apoiavam aquilo tudo.
Quando foi da vaga dos refugiados, nomeadamente judeus, na fase inicial da Segunda Guerra Mundial… Foram para ali muito tempo.
Até o Hotel do Facho, que é um encanto, também recebeu refugiados.
Mas o Hotel do Facho é anterior à Primeira República. Há uma ligação também muito forte com a Primeira República.
Na Foz do Arelho, também havia a casa do Francisco Grandela, hoje o Inatel, tal como já referi.
Ele nasceu em Aveiras de Cima, mas faleceu ali naquela casa.
Aliás, “semeou” aquela zona toda de escolas e de bairros operários, como fez em Lisboa.
Ainda hoje, na Foz do Arelho, lá está a escola primária que Francisco Grandela mandou construir e onde cheguei a ter explicações.
Ele era um republicano “dos quatro costados” e grande amigo de Afonso Costa.
Afonso Costa passava grandes temporadas na Foz do Arelho, principalmente de Verão, em casa do Grandela.
Aliás, o borrão da primeira lei de separação do Estado e da Igreja Católica é redigido por Afonso Costa em casa do Grandela.
Sempre houve por ali uma série de gente famosa.
Por exemplo, o Humberto Lopes, advogado das Caldas da Rainha, preso político ligado ao PCP que vivia ali na zona.
A esposa frequentava a praia da Foz do Arelho. Tinha uma barraca de lona com listas vermelhas. Era uma pessoa progressista, mas zangava-se com os banheiros.
Havia cinco banheiros e todos os anos havia um que lhe montava a barraca e ela zangava-se com ele, até que chegou a altura que ninguém lhe queria montar a barraca de praia.
Também o historiador António Borges Coelho, ligado ao PCP, que esteve preso no Aljube e em Peniche, não quis integrar a fuga de Álvaro Cunhal e de outros camaradas, porque não queria continuar a viver na clandestinidade.
Do ponto de vista cultural, as Caldas da Rainha eram muito importantes.
E com a abertura da Escola de Artes, foi para lá o Politécnico, a ESAD, que levou para lá uma população muito jovem.
Também me lembro da construção do Tribunal das Caldas da Rainha.
A construção foi feita por presos, que estavam ali com correntes a construir aquilo. Parecia uma coisa muito medieval.
Recordo-me, igualmente, de uma belíssima barbearia junto à Estação dos Capristanos, depois dos Claras, na Rua 1º de Dezembro. O meu avô levava-me lá a cortar o cabelo. Eram quatro ou cinco barbeiros.
Nunca comprei, mas era também lá no Barbeiro, que se compravam umas coisas raras, na altura, as “camisas de vénus”.
Era um excelente edifício, que tinha um bom restaurante no primeiro andar.
Nas Caldas da Rainha havia pastelarias onde se ia comprar trouxas d’ovos e também me recordo de irmos à Pastelaria Machado, em frente ao Parque. Agora já fechou…
Depois houve uma crise de salmonelas que impossibilitou a compra das trouxas d’ovos durante um ano. A minha mãe dizia: “não se pode comer trouxas d’ ovos “.
Eram regras que hoje nos fazem rir.
Julgo que havia uma livraria razoável na Rua das Montras, pelo menos é assim que me recordo. Penso que ainda hoje lá existe uma.
Havia gente a ler. Havia uma biblioteca, não me recordo onde. Mas tenho ideia que era no Parque, talvez nos Pavilhões do Parque. Ficaram sempre incompletos…
Houve vários planos para os Pavilhões, nunca concretizados. Aquilo era para alargar as Termas.
As Caldas da Rainha tinham uma oferta comercial interessante.
Havia ali uns eventos… umas feiras…
Havia a Feira do 15 de Agosto e a tourada. Quando era miúdo, fui várias vezes à tourada.
A Praça de Touros não está modernizada e não é confortável.
Fui lá há dois anos com a Margarida. A mulher do António José Seguro.
O meu avô era de Leiria e íamos lá muitas vezes.
Conheço bem a estrada que ia das Caldas para Leiria.
Passávamos por Alfeizerão, onde íamos comer o pão-de-ló.
Depois Alcobaça, com um dos mais belos Mosteiros do País, criado pela Ordem de Cister.
Alcobaça ainda hoje tem uma estação de tratamento de fruta, iniciada pela Ordem de Cister, que se dedicava à agricultura.
As coisas da nossa infância são as que nos marcam mais…
Isabel Soares – a tristeza de acabarem as férias na Foz do Arelho
Das memórias das férias na Foz do Arelho à ligação à família Maldonado Freitas, a filha de Mário Soares recorda vivências da sua juventude passadas nas Caldas
A ligação à Foz do Arelho é muito grande.
As nossas férias de infância foram sempre na Foz do Arelho até, talvez, aos meus 16 ou 17 anos.
Entretanto, os meus pais construíram Nafarros e a Colónia de Férias também deixou de ser rentável, porque já iam poucos alunos.
Então os meus pais decidiram acabar com a Foz do Arelho.
Mas eu lembro-me que fiquei de tal maneira triste, porque tinha uma ligação afectiva muito grande à Foz do Arelho, que o meu avô, por minha causa, decidiu tentar comprar a casa.
Foi muito engraçado.
O dono da casa era um homem que estava emigrado no Canadá e, ao princípio, disse-lhe que sim, que lhe vendia a casa. Depois deu o dito por não dito e vendeu a um tipo que lhe deu o dinheiro na mão.
E nós perdemos a casa…
Esta foi a segunda casa que o Colégio teve na Foz do Arelho.
A primeira foi uma que havia ali em frente a uma Quinta do Escalado e que tinha uma varandinha envidraçada. Ela ainda lá está, mais ou menos assim. É a seguir ao café.
Nós gostávamos tanto daquilo que até chegávamos a ir na Páscoa e no verão.
No verão iam os alunos todos. O Colégio deslocava-se para lá.
Havia uma camionete que ia levar os alunos.
Ficávamos os quatro meses: desde junho, quando acabavam as aulas e ficávamos lá até outubro. Era, de facto, uma eternidade.
As minhas memórias da Foz são essas. Adorava aquilo.
Andávamos à vontade, andávamos lá pelos campos. Era, de facto, fantástico.
Aprendemos lá a nadar.
O João e eu aprendemos a nadar lá com um banheiro, que nos punha a aprender a nadar na Lagoa, e depois o pai atirou-nos para o mar, com ele, aí quando tínhamos 4, 5 anos, quando já sabíamos nadar.
Aquilo era, de facto, uma aprendizagem valente.
Íamos a nadar muitas vezes até ao Gronho, passávamos a aberta e íamos a nadar.
Depois havia uma família que era grande amiga dos meus pais, por tradições republicanas antifascistas, que eram os Maldonado Freitas.
Olhe, o Tó Maldonado Freitas era o sogro do António José Seguro, casado com a Margarida.
Mas eu, ainda conheci o Velho Freitas, que era grande amigo do meu avô.
Diziam que ele tinha posto uma bomba numa procissão, porque era profundamente anticlerical. E dominava a terra, porque era o dono do Café Central, onde há um painel do Júlio Pomar, tinha a pensão, a farmácia, um talho…
Quer dizer, aquilo era um império.
Havia essa ligação à família Freitas e era uma grande amizade.
O meu pai era muito amigo do Tó Freitas, que era advogado.
Eu acho que o Tó era avô da Margarida e do Custódio Maldonado Freitas, que foi também antifascista e que estava ligado ao PCP.
Tínhamos bicicleta e vínhamos muitas vezes até às Caldas.
O meu pai comprou-nos umas bicicletas ali no Largo da Rainha.
Era qualquer coisa de único porque não havia praticamente carros, não havia nada, era pacífico e tranquilo.
Íamos de bicicleta para o Moinho das Bruxas, como se chamava o moinho que lá havia, e para a praia.
Eram, de facto, umas férias em grande. Tenho uma grande nostalgia dessas férias.
Também íamos às Caldas da Rainha ao mercado, às frutas e aos legumes, naquela praça central. E depois ao mercado do peixe. Acho que agora mudou de sítio, portanto, não sei onde é que é agora.
Esse mercado era fantástico. Por vezes, íamos a Peniche à lota. Na altura, aquilo demorava. Não era pacífico o acesso.
E todos os anos íamos às Berlengas de traineira. Era uma aventura.
Era complicado o mar e depois havia aqueles baldes debaixo dos bancos para quem ficasse enjoado e vomitasse. Mas chegados lá, aquilo era uma coisa encantadora.
Da primeira casa que o Colégio teve na Foz do Arelho não me lembro.
Devíamos ter 4 ou 5 anos. Ficava num sítio muito simpático, mas não tinha terreno.
Era antes da Casa das Palmeiras, que era uma pensão.
A segunda tinha um grande terreno à volta. Tinha uma mata e um grande terreno onde o meu pai, depois, plantou uma série de árvores.
Nessa altura, participavam na Colónia os alunos que não iam a casa de Verão.
Eram os alunos que tinham os pais em África e que eram internos no Colégio.
Vivíamos como se fosse uma família.
Talvez uns trinta, não era mais do que isto.
E havia uma carrinha para nos levar à praia, porque ainda era longe da praia. Íamos e voltávamos. Os alunos chamavam Carolina a essa camioneta.
Era uma vida, de facto, fantástica.
Íamos, também, com frequência às Caldas da Rainha. Ao Parque, íamos ao correio, ao mercado, às compras.
A minha mãe ia sempre ao mercado das Caldas.
Era ela que ia fazer as compras e eu ia muito com ela.
E havia sempre uma paragem para cumprimentar o senhor Freitas.
Era um homem pequenino, engraçadíssimo, mas muito marialva. E tinha estado metido em todas as conspirações. A mulher tratava-o por Sr. Freitas.
Nessa memória, lembro-me da minha mãe contar essa história também. Foi uma coisa fantástica.
O João contou-me que quando o Humberto Delgado fez a campanha eleitoral, houve uma troca de carros ali, em Alfeizerão e vieram para as Caldas da Rainha num carro aberto do Senhor Freitas.
Quando entram na cidade, alguém começa a dizer: “ali é a pensão do Senhor Freitas, acolá a Farmácia do Senhor Freitas, o Café do Senhor Freitas”.
Quando chegam ao largo onde está a estátua da Rainha Dona Leonor, alguém indica ao Humberto Delgado o nome da Rainha e ele terá dito: – “de Freitas”.
É verdade, eu também sempre ouvi contar essa história.
Eles eram profundamente antifascistas.
Acolhiam toda a gente da oposição.
Também houve uma colónia de férias para os filhos dos presos políticos que estavam detidos em Peniche.
Até foi feito um filme, recentemente, sobre isso.
Havia ali muita gente ligada ao Partido Comunista Português.
O próprio, como é que se chama, aquele que ainda foi secretário-geral do PCP, o Fogaça.
O Fogaça era um grande proprietário rural perto do Bombarral.
Também íamos às Caldas da Rainha ao cinema, ao teatro, à ópera.
A primeira vez que fui a uma ópera foi nas Caldas da Rainha, num espectáculo que houve com o Carlos Wallenstein, que era amigo dos meus pais.
Era uma fila inteira de alunos do Colégio. Nós ali no Teatro das Caldas. Era muito engraçado.
A cidade das Caldas da Rainha era uma cidade mais pequena, mas bonita. Toda a gente se conhecia.
E ali, por exemplo, lembro-me da história da Praça da Fruta.
A praça era qualquer coisa de fantástico.
Conhecia-se toda a gente que estava a vender.
Lembro-me de ir com a minha mãe e o próprio Freitas.
Encontrávamo-nos com o Velho Freitas na praça e ele dizia: – “Quanto é que isso vale?
– “Ah, ó Sr. Freitas isto é, não sei…
– “É 25 tostões!” Fazia ele o preço.
– “Vai lá pôr à pensão”.
As pessoas conheciam-se todas.
Havia um único Café. Era o Café Central, que era o Café do Senhor Freitas.
Depois havia a Frami. Uma pastelaria que era a Frami, que tinha uma fábrica de bolos e que vendiam na praia, na Foz do Arelho, onde havia dois grupos.
Havia um grupo mais à direita.
Eram uns tipos com casas grandes, umas famílias muito numerosas. Gente endinheirada que vinha do Alentejo.
E depois havia a malta de esquerda. Era a malta do Colégio e mais umas quantas famílias.
Sim, o tempo na Foz do Arelho era de nevoeiro até ao meio-dia, meio-dia e meia.
O sol levantava por volta dessa hora.
E o que é que se fazia? Ia-se para a praia, de manhã. Depois vínhamos para casa almoçar e depois à tarde, depois de se fazer a sesta, ia-se para o pinhal.
Não havia a tradição de se ir para a praia à tarde. Então íamos para o pinhal onde se faziam brincadeiras. Era a vida da Foz, nessa altura.
O avô ia lá, mas pouco. Passava lá um dia ou dois. Ele não gostava muito de lá estar. Tinha lá o quarto dele, mas estava quase sempre nas Cortes, Leiria. A minha mãe tinha arranjado a casa toda.
Por vezes, ia lá, almoçava connosco e depois voltava para as Cortes. Também era relativamente rápido.
Lembro-me, por exemplo, do Jaime Cortesão lá ter ido almoçar. Nós éramos miúdos. Ainda hoje tenho uma fotografia no Mercado das Caldas com o genro dele, que era o Murilo Mendes, o poeta Murilo Mendes. Ele tinha ido com o sogro, com o Jaime Cortesão e a Dona Carolina, que era a mulher. Foram lá almoçar às Caldas da Rainha, connosco, à Foz do Arelho.
Todos os amigos políticos do meu pai iam lá muito.
O meu pai nas férias de Verão passava lá uma temporada. Sempre que podia, quando não estava preso. Gostava imenso de lá estar, adorava.
Aliás, a família da minha mãe é toda do Algarve, dos Montes do Alvor. E o irmão mais velho da minha mãe, que era notário lá, tinha uma série de terrenos, de casas.
Lembro-me que o meu tio quis vender uma casa à minha mãe, uma casa lindíssima, mesmo em cima da praia dos Três Irmãos. A minha mãe queria muito comprar a casa, mas o meu pai não e dizia que o mar da Foz é que era bom.
Ir ao Algarve era uma aventura. Era pior que ir à Foz do Arelho. Depois acabámos a ir para o Algarve, mas mais tarde.
Na praia da Foz do Arelho havia banheiros. Foram eles que nos ensinaram a nadar. O Sr. Luís, lembro-me dele. Era um tipo forte, alto, com bigode e que nos ensinou a nadar na Lagoa. E depois fomos para o mar. Nós nunca tomávamos banho na Lagoa, foi sempre no mar.
Aos domingos havia sempre gente que morria na praia. As famílias vinham normalmente com farnel, almoçavam e depois iam tomar banho. Sentiam-se mal. E o mar era difícil.
A Lagoa era uma coisa diferente que é hoje. Hoje está muito assoreada. Na altura não.
Começava a estar, mas não era como hoje. Ainda se via a aberta, e na maré vazia nadava-se um bocado, e até se passava para o Gronho.
Havia gente sempre a pescar. Mas nós nunca fizemos isso. Era mais o mar. A pesca, nunca ninguém se sentiu atraído, nem o meu pai. O meu pai era muito de passear, dava grandes passeios e nós todos também fazíamos isso. Mas a pesca nunca nos atraiu.
A estrada já era alcatroada até às Caldas da Rainha e íamos muito de bicicleta.
Íamos muito por ali, pelo caminho do Moinho das Bruxas, que era cá em baixo. Ainda é hoje um moinho abandonado. Lá está. E íamos até ao Nadadouro, por uma estrada de terra batida, por dentro, ao pé da Lagoa, sempre ao pé da Lagoa.
E havia umas termas ali, um bocadinho a seguir ao Nadadouro. Havia aí umas termas, na estrada que vai para as Caldas da Rainha. E que depois acabaram. Não sei o motivo.
Também me recordo que o João ia sempre com o avô cortar o cabelo às Caldas da Rainha. Era uma tradição. Aliás, em Lisboa também ele ia sempre com o avô cortar o cabelo, na rua 1º de Dezembro. O avô foi uma figura muito marcante para nós. Nós vivemos com ele a vida inteira, até ele morrer. Nós é que fomos viver para a casa dele, quando a minha avó morreu. Eu devia ter 3 anos e o João devia ter 4 ou 5.
– Sabe se o seu pai fez a quarta classe nas Caldas da Rainha, quando o seu avô esteve preso, ficando em casa da família Freitas?
– “Não sei” – diz Isabel Soares. – “Mas pode ter acontecido”.
O meu avô paterno João Soares esteve preso, exilado e esteve duas vezes deportado no Forte de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, nos Açores.
Aliás, o meu avô materno, que era militar, Capitão Barroso, também lá estava ao mesmo tempo, mas eles não se conheciam. O meu avô paterno dizia sempre que ele tinha estado com outro estatuto, um estatuto melhor, porque era militar.
Acho que estamos hoje, outra vez, a viver uma época muito complicada.
O que se está a passar nos Estados Unidos é assustador.
As pessoas que eles prenderam e deportaram algemadas, é uma coisa horrível.
Tenho uma amiga, que é médica e que vive lá há muitos anos, já tem a dupla nacionalidade.
Disse-lhe que estava assustadíssima com a eleição do Trump, mas ela dizia para não me preocupar. Mas passada uma semana, ela estava, afinal, apavorada.
É no mundo inteiro. O que se passa é uma coisa assustadora. O que se passa em Gaza é assustador. Perante a passividade do mundo. Hoje morrem 100, amanhã morrem 200. Matam as crianças, matam tudo. Estão a exterminar aquelas pessoas.
Penso que não há valores, não há princípios. Daquilo que nós acreditávamos e pensávamos sempre que as coisas estavam seguras e que, apenas, se tinham de modernizar. Os tempos eram outros. Acho que o mundo em que vivemos acabou. Já não existe.
As férias do Colégio na Foz do Arelho eram únicas. Os alunos do Colégio adoravam voltar. Era uma altura de libertação. Ficávamos sempre um bocadinho à vontade. Tínhamos de voltar à hora das refeições, mas andávamos lá pelos campos. Íamos apanhar fruta.
Íamos muito ao Café Caravela, onde se organizavam uns torneios. Não era de snooker, nem bilhar. Era um jogo que parecia uma coisa chinesa. Também se organizavam torneios de sueca, de “Kings”.
Podíamos sair à noite, mas tínhamos horas para regressar. Dependia das idades. Quando se era mais velho já era outra coisa. Fui a última a passar lá férias. O João e os meus pais já não estavam e foram para o Algarve, mas eu não quis ir. Fui para lá um ano sozinha, com a governanta. E havia um aluno mais velho que tinha carro. Íamos até Óbidos e andávamos por ali. Foi nos anos 60.
Depois, o proprietário vendeu a casa e ficámos sem ela. Mas foi uma grande tristeza, de facto, para mim. Foi uma época fantástica. Era a única rapariga no meio de não sei quantos rapazes. O Colégio era só de rapazes, só voltou a ter raparigas depois de 25 de Abril.
É verdade que teve raparigas no início, quando o meu pai foi cá aluno, nos anos 40, mas depois o Estado Novo impôs a separação de sexos no ensino. No final dos anos 50, o Colégio Moderno criou o pré-escolar. Até aos 5 anos não havia problemas. Eles no pré-escolar deixaram que fosse de ambos os sexos.
Eu nunca andei no Colégio. O João é que andou. Andámos no Liceu Francês até à quarta classe. Depois o João foi para o Colégio Moderno e eu fui para o Académico, que era um Colégio de raparigas, mas que não era de freiras. Aliás, o Director também tinha sido padre como o Avô.

Colégio Moderno e a Foz do Arelho
Nos anos 50 do século passado este colégio privado cria uma colónia de férias na Foz do Arelho para os alunos internos
O Colégio Moderno é um estabelecimento de ensino privado, localizado no Campo Grande, em Lisboa, fundado em 1936 pelo pedagogo João Lopes Soares, pai de Mário Soares.
Actualmente, tem cerca de 2000 alunos, desde o berçário ao 3º Ciclo do Ensino Secundário, tendo, igualmente, actividades extracurriculares, como Ballet, Música (com Escola de Música aberta a alunos externos), Ginástica, Judo, Ténis, Andebol e Futebol. E ainda, um protocolo com o British Council para o ensino de inglês por professores ingleses.
De início, o Colégio oferecia as opções de externato e internato, tendo nascido como uma escola mista. Todavia, o Estado Novo instituiu a separação dos sexos nas escolas, pelo que o Colégio passou a ser apenas masculino. E só depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, voltou a ser misto.
Nos anos sessenta, para os alunos internos, houve uma colónia de férias durante os meses de Julho e Agosto, na Foz do Arelho, em Caldas da Rainha.
A Directora do Colégio é, desde 1985, a Drª Isabel Soares, neta do fundador.
O Colégio teve sempre um corpo docente de elite e leccionaram, entre muitas personalidades: Álvaro Baptista Pereira Salema de Araújo, Álvaro Barreirinhas Cunhal, David de Jesus Mourão-Ferreira, George Agostinho Baptista da Silva, João Pedro Bénard da Costa.
E muitos dos alunos do Colégio Moderno tornaram-se figuras de relevo em diversas áreas da vida pública portuguesa: o cineasta Alberto Jorge Seixas dos Santos, o jornalista António Valdemar, o escritor David Mourão-Ferreira, o músico Bernardo Correia Ribeiro de Carvalho da Costa (Agir), o jornalista Henrique Monteiro, o cineasta João César Monteiro, o embaixador João Diogo Nunes Barata, o engenheiro Sousa Veloso, autor e apresentador do programa “TV Rural”, o fiscalista José Luís Saldanha Sanches, a farmacêutica Maria Odette Santos Ferreira, que se destacou na luta contra a SIDA, o cineasta Mário Alberto Barroso, a atriz e escritora Rosa Lobato de Faria, o escritor e jornalista Vasco Pulido Valente, o jornalista Vítor Serpa, entre muitos outros.
Ligação às Caldas
Nos anos cinquenta do século passado, o Colégio Moderno, sediado em Lisboa e que tinha sido criado pelo pedagogo João Lopes Soares, pai de Mário Soares, em 1936 cria uma colónia de férias na Foz do Arelho para os alunos internos.
As longas férias de Verão são passadas na Foz do Arelho e em Caldas da Rainha. João Soares e a irmã Isabel Soares, directora do Colégio desde 1985, falam connosco das suas memórias de infância e de adolescência.
Esta vivência ainda hoje os marca.
A ligação da família Soares às Caldas da Rainha já era antiga. Mário Soares fez a quarta-classe nas Caldas da Rainha, ficando em casa de Custódio Maldonado Freitas, quando o seu pai, João Lopes Soares foi deportado para Angra do Heroísmo.
A oposição ao Estado Novo era o cimento que os unia.
A ligação e amizade entre a família Soares e a família Maldonado Freitas perduraram ao longo dos tempos.
Pedro Maldonado Freitas, em breve conversa, confirma e relembra estas memórias.
As memórias de Pedro Maldonado Freitas
Pedro Maldonado Freitas, em breve conversa, relembra a ligação do Colégio Moderno e da família Soares à Foz do Arelho.
– Custódio Maldonado Freitas, meu avô, nasceu em Vila Nova da Barquinha, em 1886 e faleceu em 1964 nas Caldas da Rainha.
Aos 14 anos começou a trabalhar como ajudante de farmácia no Sardoal e formou-se em 1908, tendo adquirido uma farmácia em Óbidos, situada na rua Direita em 1909 e, no ano seguinte, compra uma nova farmácia, desta vez, nas Caldas da Rainha, na Rua da Liberdade, onde passa a residir.
Era um republicano assumido, anticlerical e maçon, tendo sido iniciado numa Loja Maçónica de Óbidos.
Foi uma figura proeminente na região após a implantação da República.
Casou em segundas núpcias com Maria Pereira Sousa Freitas, com quem teve cinco filhos.
Em 1910 nasceu o primeiro filho, António Maldonado Freitas, falecido em 1975, que foi um destacado militante e dirigente do Partido Socialista e grande amigo de Mário Soares.
O quarto filho, nasceu em 1917, a quem foi dado o nome do pai, Custódio Maldonado Freitas. Este filho formou-se em medicina e foi membro do Partido Comunista Português, sendo um dos fundadores do MDP-CDE e tendo falecido em 1994 nas Caldas da Rainha.
O meu avô colaborou e fundou jornais locais, nomeadamente o Defensor.
Foi nomeado Administrador do concelho das Caldas da Rainha e faz parte duma comissão para a aprovação da Lei da separação da Igreja do Estado.
Quando João Lopes Soares foi deportado para a Angra do Heroísmo, na sequência de uma série de tentativas de golpes de Estado, ele pediu ao meu avô para que o Mário viesse para Caldas da Rainha, ficando em casa do meu avô, para concluir a 4ª classe. O Mário Soares seria mais novo do que o meu pai. Teriam uma diferença de sete anos, mais ou menos.
O meu pai nasceu em 1917 e o Mário Soares nasceu em 1924. Sete anos de diferença. Ele ficou alojado em casa do meu avô, partilhando o quarto com o meu pai. Tornaram-se amigos desde aí até à criação do MUD (Movimento de Unidade Democrática) Juvenil, nos anos 40. Depois Mário Soares afastou-se declaradamente do Partido Comunista. E portanto, a partir daí, ele e o meu pai andaram em universos paralelos, mas respeitáveis.
Mas quem foi depois, politicamente, mais próximo do Mário foi o meu tio António, que era o mais velho e que faleceu em 1975 e que era do Partido Socialista. Acho que eram muito amigos. Sempre foram muitos amigos.
E penso que a vinda do Colégio Moderno para a Foz do Arelho tem a ver com essa relação de João Soares com o meu avô.
O meu avô, durante algum tempo, fez férias com a família em São Martinho, mas depois começou a fazer férias na Foz.

















