
No executivo, a oposição opôs-se a que o município reforce as verbas do Centro de Juventude para pagar esta indemnização. Contudo, a maioria laranja aprovou a transferência.
Catorze de Maio de 2004. Na véspera do feriado municipal, o beneditense Bruno Letra, então vice-presidente da distrital de Leiria da JSD assina um contrato por seis meses com a Associação para o Desenvolvimento da Juventude das Caldas da Rainha para ser o director do Centro de Juventude. O contrato tem a duração de seis meses e o convite partiu do seu amigo caldense Hugo Oliveira.
A amizade entre os dois forjou-se na política. Hugo Oliveira também já fora dirigente local da JSD e em 2004 havia dois anos que era vereador da Câmara das Caldas da Rainha. Na altura era também vice-presidente da Associação para o Desenvolvimento das Caldas da Rainha.
Seis meses depois, não sendo revalidado o contrato a prazo, Bruno Letra torna-se efectivo nos quadros da associação que gere o Centro de Juventude. Em 2009 aufere um vencimento mensal ilíquido de 1336,33 euros.
Em 4 de Novembro de 2009 Bruno Letra é convidado para assessor do presidente da Câmara de Alcobaça, Paulo Inácio, eleito pelo PSD nas autárquicas que tinham decorrido no mês anterior. O director do Centro de Juventude pede uma licença de vencimento explicando que iria desempenhar funções no município vizinho. No dia seguinte, também por carta, a Associação para o Desenvolvimento da Juventude das Caldas da Rainha autoriza a licença por tempo indeterminado com efeitos a partir de 6 de Novembro.
Quatro anos depois, em 24 de Maio de 2013, Bruno Letra comunica ao Centro de Juventude que pretende regressar para voltar a desempenhar as suas funções a partir de 1 de Novembro desse ano.
Mas não obtém resposta.
No entretanto, o Centro de Juventude tinha um novo director. Hugo Oliveira tinha convidado Rogério Rebelo (à data dirigente da JSD e membro da Assembleia Municipal das Caldas da Rainha) para ser o novo director tendo firmado um contrato por tempo indeterminado.
No dia 1 de Novembro, tal como anunciara, Bruno Letra apresenta-se no Centro de Juventude, mas é-lhe comunicado que fosse para casa e que logo “lhe diriam algo”. Esta expressão consta da sentença do Tribunal de Trabalho de Leiria, à qual a Gazeta das Caldas teve acesso.
Mas nunca disseram nada.
O Centro de Juventude já tinha director e não havia lugar para pagar a dois directores. A associação que o gere vive dos subsídios da Câmara e as suas receitas próprias são residuais.
Bruno Letra insiste com várias cartas e mails, mas não obtém resposta. E decide avançar para o Tribunal de Trabalho.
Em sentença proferida em 7/11/2014, a juiz Carla Rafael decide que a não aceitação do queixoso no Centro de Juventude configura um “despedimento ilícito” e obriga a indemnizá-lo por despedimento sem justa causa e por salários não pagos num valor que ultrapassa os 26 mil euros.
Para poder fazer face a esta despesa extra, a Associação para o Desenvolvimento da Juventude das Caldas da Rainha teve que pedir a ajuda à Câmara. No orçamento para este ano, a verba habitual para o Centro de Juventude veio, assim, inflacionada em mais 20 mil euros a fim de poder pagar a indemnização, devendo o Centro de Juventude tratar de obter receitas para pagar o resto.
OPosição contesta
Mas em reunião de Câmara esta transferência não passou despercebida à oposição, apesar de a proposta vir discretamente misturada com outros pedidos de subsídio.
O vereador do CDS/PP, Manuel Isaac disse que “a não reintegração do titular do lugar de Director do Centro da Juventude após o seu regresso de licença sem vencimento, mantendo o director contratado para a sua substituição, configura um atropelo à lei e um despedimento sem justa causa, tal como refere a própria sentença” do tribunal. Por isso, e mesmo “evitando leituras politicas que nos parecem tão evidentes”, o vereador considera “inaceitável e absolutamente escandalosa a forma leviana com que se encaram e tratam os dinheiros públicos”.
Por isso votou contra esta transferência de dinheiro para o Centro de Juventude porque “aprovar o pagamento deste subsídio e esta decisão, significa concordar com ela e nós não concordamos”, refere na sua declaração de voto.
Também o vereador do PS, Rui Correia, votou contra esta proposta. “Não aceitamos que o dinheiro desta câmara possa ser utilizado de forma encoberta, sem que se apresente qualquer documento que indique a razão por que a Câmara das Caldas da Rainha disponibiliza mais 20 mil euros à ADJCR”, refere, acrescentando que o próprio presidente da Câmara, Tinta Ferreira, se associa desta forma “a uma prática de ilicitude que devia ser ele, ao invés, a condenar, apurando todas as responsabilidades”.
Em sua opinião, a Câmara das Caldas “não tem laços institucionais” com a associação que gere o Centro de Juventude da qual nem sequer faz parte dos seus corpos gerentes. “Foi, inegavelmente, a direcção da ADJCR que cometeu a ilicitude e é ela quem deve resolver o problema que ela mesma criou”, afirmou.
Gazeta das Caldas contactou Bruno Letra, mas este não se mostrou disponível para prestar declarações. Não foi possível contactar o actual director do Centro de Juventude, Rogério Rebelo.
Carlos Cipriano
cc@gazetadascaldas.pt
“A escolha de pessoas não deve excluir, nem considerar, uma eventual filiação partidária”
Questionada sobre este processo, a Câmara das Caldas enviou à Gazeta das Caldas, através do seu gabinete de imprensa, as seguintes respostas:
GC – Quais os critérios para a escolha e contratação de Bruno Miguel Ribeiro Letra para director da Associação para o Desenvolvimento da Juventude das Caldas da Rainha?
CMCR – Em 2004, a direcção da Associação Desenvolvimento da Juventude (ADJ-CR – Centro da Juventude) – na ocasião composta por representantes da Câmara Municipal, FDTI (Fundação das Novas Tecnologias) e Movijovem – decidiu contratar o Dr. Bruno Letra, por unanimidade.
Segundo pudemos apurar, os critérios principais que foram tidos em conta foram as suas habilitações literárias; experiência em funções e cargos associativos, em especial relacionados com a juventude; e ser uma pessoa que tinha a confiança do vereador do Pelouro e presidente da Direcção, Dr. Hugo Oliveira.
GC – Por que motivo, tendo este pedido um ano de licença sem vencimento, foi contratado um novo director que ficou, desde logo, efectivo?
CMCR – O Dr. Bruno Letra pediu uma Licença sem Vencimento por Tempo Indeterminado, e não por um ano, como é referido. A Direcção aceitou, “ficando o seu termo pendente de decisão da ADJ-CR”, condição expressa em acta e do conhecimento do interessado.
O Centro da Juventude não podia ficar sem director por tempo indeterminado. Assim, a Direcção entendeu contratar novo director para ocupar o cargo, tendo optado por contratar sem termo. Para além disso, a opção por este regime de contratação tinha benefícios fiscais.
GC – Quais foram os critérios de escolha desse novo director?
CMCR – Os mesmos referidos anteriormente, e que estiveram na base da contratação do anterior director.
GC – Quanto custou ao município, entre indemnizações ao ex-director, custas de tribunal e pagamento a advogados, este processo?
CMCR – O valor da indemnização estipulado pelo Tribunal foi de 13.140,57 euros, a que acrescem 13.363,33 euros a título de retribuições intercalares.
As custas, cerca de 800 euros, foram repartidas pelos envolvidos, uma vez que a pretensão de reintegração apresentada pelo Dr. Bruno Letra não foi considerada procedente pelo Tribunal.
Considerando o interesse público da actividade promovida pela ADJ-CR, que deve continuar a ser apoiada, e tendo em conta as dificuldades que esta Direcção teria em assumir os seus compromissos com fornecedores e trabalhadores com este novo encargo, a CMCR decidiu reforçar o apoio à Associação, relativamente ao ano anterior, em mais 20.000 euros, à semelhança do que já fez no passado, em muitas situações, com outras associações.
GC – O facto de ambos os directores serem, ou terem sido, destacados dirigentes da JSD a nível local e regional é simples coincidência neste processo?
CMCR – A ADJ-CR tem total autonomia para fazer as escolhas que considerar mais adequadas dado o seu estatuto associativo. A escolha de pessoas para a ADJ-CR não deve excluir, nem considerar, uma eventual filiação partidária.









Sr Vereador, ganhe vergonha e demita-se!
Está historia é um alfinete no palheiro…..no meio de muitas mais histórias … basta procurar pelos corredores da CMCR ;)
“Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado”
E quando é alguém, efectivamente, responsabilizado?
Esta cidade continua como sempre. Os senhores do poder continuam a desperdição o dinheiro dos contribuintes, mas nada se passa. Uns, devem favores e nada dizem, outros, são da mesma cor e nada dizem, outros mostram-se indignados, mas faz tudo parte do jogo politico. Nós cidadãos reclamamos (talvez no local errado)indignamo-nos mas nada se passa. Entretanto, o senhor que deitou fora os milhares de euros, passeia-se pela cidade todo inchado, como se nada se tivesse passado. Os nomes e as caras mudam mas os hábitos mantêm-se. Pena que nem os mais jovens queiram mudar o que está mal…….
Parece-me um pormenor, mas não deixa de revelar as inverdades neste processo.
O sr. Bruno Letra não era Licenciado em 2004.