
Vítor Ilharco
Personal Trainer
A saúde mental é muito mais do que a ausência de doença. Trata-se de um estado de bem-estar em que o indivíduo reconhece as suas capacidades, lida com o stress da vida quotidiana, trabalha de forma produtiva e contribui ativamente para a sua comunidade. Não é um estado fixo, mas sim um continuum, que varia ao longo da vida e de pessoa para pessoa.
Ao longo do ciclo de vida, a saúde mental é influenciada por múltiplos determinantes individuais, sociais e estruturais. Fatores biológicos e psicológicos — como a genética, as competências emocionais ou o consumo de substâncias — interagem com contextos sociais, económicos e ambientais, podendo aumentar a probabilidade do individuo ter problemas de saúde mental. A exposição prolongada à pobreza, violência, desigualdade ou instabilidade aumentam também esse risco. Tudo isto pode surgir em qualquer fase da vida, mas são particularmente marcantes em períodos sensíveis do desenvolvimento, como a infância.
Em Portugal, estima-se que cerca de 22% da população viva com algum problema de saúde mental, o que corresponde a mais de 2 milhões de pessoas. Depressão, perturbações de ansiedade, doença bipolar, esquizofrenia, perturbações do comportamento alimentar e demência são exemplos frequentes, com impacto significativo na qualidade de vida individual e coletiva.
É neste contexto que a atividade física assume um papel central e cada vez mais bem documentado. A evidência científica mostra que níveis mais elevados de atividade física estão associados a melhor função cognitiva, incluindo memória, velocidade de processamento de informação e capacidade de execução, bem como a um menor risco de declínio cognitivo e demência. Estes benefícios são observados em diferentes populações e com diferentes modalidades, desde a caminhada ao treino de força, passando por atividades desportivas e yoga.
A relação entre atividade física e ansiedade é particularmente robusta. A prática regular, sobretudo de intensidade moderada, está associada a perfis de ansiedade mais baixos em adultos e idosos. O mesmo se verifica para o humor depressivo e a depressão: pessoas fisicamente ativas apresentam menor risco de desenvolver sintomas depressivos e intervenções baseadas em exercício demonstram reduzir a gravidade dos sintomas, mesmo em quadros clínicos mais profundos.
Também o sono beneficia da atividade física. A prática regular melhora a qualidade do sono e, em indivíduos com insónia ou apneia do sono, níveis mais elevados de atividade física estão associados a melhorias clinicamente relevantes.
Assim, a atividade física não deve ser vista apenas como uma ferramenta para a saúde física, mas como um instrumento fundamental de promoção da saúde mental. Investir em contextos que facilitem o movimento, reduzir barreiras ao acesso e integrar o exercício nas estratégias de saúde pública é investir numa sociedade mais saudável, funcional e resiliente.












