
Edgar Allan Poe começa com uma advertência: «Muitos escritores preferem deixar correr que compõem graças a uma espécie de frenesim subtil ou de intuição extática, e sentiriam positivamente arrepios de tivessem de autorizar o público a lançar uma olhadela aos bastidores da cena e a contemplar os embriões laboriosos e hesitantes do pensamento, a verdadeira decisão tomada no último momento, a ideia tantas vezes entrevista como que num relance e recusando tanto tempo a deixar-se ver em plena luz (…)» E prossegue: «Achava-me, pois enfim chegado à concepção dum corvo repetindo obstinadamente a palavra «nevermore» no fim de cada estância num poema dum tom melancólico e dum extensão de cerca de cem versos. Então perguntei-me: «De todos os temas melancólicos qual é o mais melancólico segundo a inteligência universal da Humanidade? A Morte, resposta inevitável». «E quando» disse de mim para mim «este tema, o mais melancólico de todos, é o mais poético. Pode adivinhar-se facilmente a resposta: «É quando se alia intimamente com a Beleza». Portanto a morte de uma mulher bela é incontestavelmente o tema mais poético do mundo e está igualmente fora de dúvida que a boca mais bem escolhida para desenvolver um tal tema é a de um amante privado do seu tesouro». E conclui: «Duas coisas são eternamente requeridas: uma, determinada soma de complexidade ou, mais propriamente, de combinação; a outra, uma determinada quantidade de espírito sugestivo, algo como uma corrente subterrânea de pensamento, não visível, indefinida. É esta última qualidade que confere a uma obra de arte o ar opulento, a aparência prenhe que, demasiadas vezes, temos a patetice de confundir com o ideal.»
Nota final – o valor, o peso e a importância deste livro está na apresentação do original inglês ao lado da versão portuguesa, no caso de «O Corvo» uma dupla versão de Machado de Assis (1883) e Fernando Pessoa (1924) sendo nos outros dois poemas («Annabel Lee» e «Ulalume») as versões assinadas por Fernando Pessoa.
(Editora: Fólio Exemplar, Capa: Sofia Ribeiro, Paginação: Ana Nunes, Versões de Fernando Pessoa e Machado de Assis)





