
Surge aqui uma relação directa entre a palavra da oração e a palavra do poema; ambas são sagradas pois ambas ligam de novo dois mundos separados pela morte. Em «As redes de Atef», poema da página 13, se regista o percurso da Poesia e da Geografia: «São ancestrais os gestos / do pescador da ilha / de jasmim. E o mar / guarda ainda / a mesma esmeralda / que Ulisses não pôde levar… / Bebo chá de menta / aquecido numas brasinhas / e escuto as vagas onde / as redes de Atef / se enleiam nuns versos / de Garrett.»
A dupla inscrição é permanente neste livro. Vejamos dois exemplos. A página 16 integra o poema «O alfaiate»: «Sorriu, quando lhe disse / que enquanto for vivo e / à ilha torne, o seu saber / procurarei. / Saí com três calaças / desenhadas e cozidas / pela serenidade / das suas mãos habilidosas / e entrei no sol das ruas / com a luz das palavras fraternas». A página 9 regista uma memória poética de Sebastião da Gama no poema «Sonhador sem asas» que lembra o poema do rouxinol cantado por Francisco Fanhais: «Roubaram os remos / ao pescador / pescador sem remos / não pode remar / roubaram os remos / ao Senhor do Mar / Sonhador sem asas / não pode voar!»
Toda a literatura é uma homenagem à literatura. Como este livro de Luís Filipe Maçarico confirma.
(Produção: GM Oficina de Artes Gráficas, Grafismo: Manuela Gonçalves, Notas de leitura: Maria Alberta Menéres, Albano Martins, Eugénio de Andrade, Fernando Paulouro Neves e Isabel Mendes Ferreira)







