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Não há paz no fim, acredites no que acreditares

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Cristina Soares
consultora de comunicação de ciência

“Não há paz no fim, acredites no que acreditares”, diz Avner, já nas cenas finais do filme “Munique”, de Steven Spielberg. Avner, o agente israelita contratado para assassinar os cabecilhas do Setembro Negro, grupo terrorista responsável pela morte de 11 atletas israelitas durante os jogos olímpicos de 1972, atravessa toda a narrativa do filme, confrontando-se com os seus fantasmas, sede de vingança e sentimento de culpa.
A meio do filme, o grupo de Avner pernoita na mesma casa, em Atenas, com um grupo de palestinianos e dá-se um diálogo muito interessante entre Avner e Ali, um dos palestinianos. “É assim tão importante aquele bocado de terra gretada, é isso que querem para os vossos filhos?”, pergunta-lhe Avner. E o outro fala-lhe de ter um chão para onde voltar, uma terra, uma nação. Uma identidade. Pode demorar centenas de anos, mas teremos muitos filhos, que por sua vez terão filhos que vão continuar esta luta, diz-lhe Ali.
Revi este filme, há dias, no contexto terrível do que se vive em Israel e na Palestina. Um excelente filme, sobre como o olho por olho pode ser absurdo e inútil. Mesmo quando é muitíssimo justo. Um filme que nos lembra que nada é preto e branco, mas sim de um cinzento com muitos, mas muitos, tons de pardo. Que nos lembra que o ódio tem a capacidade de se perpetuar, mesmo quando os filhos dos filhos dos filhos já não se lembrarem por que razão começou.
“Acho que que somos capazes de tudo”, diz Avner nessa mesma conversa final, com as Torres Gémeas em fundo.
No desespero somos mesmo capazes de tudo. Seja pelo desespero de não ter uma terra para onde voltar, seja pelo desespero de ver filhos, pais, avós serem chacinados, seja pelo desespero de viver numa terra murada, sem horizontes, condenados à pobreza, a qual será herdada para os filhos.
No desespero só vemos o preto e o branco, e nessa cega barricada de apenas duas cores, somos capazes de tudo. De tudo. Independentemente do lado que o certo escolheu para ficar. Se é que alguma vez houve certo. ■

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Edição #5625

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