
O ponto de partida é a cidade de Luanda e a redacção de um jornal que «ficava numa rua estreita de prédios baixos» onde chega de Lisboa um jovem com bagagem pobre na aparência mas rica em livros: «um Céline, um Camus, um Lawrence Durrel, um Jorge de Sena». O trabalho era rotineiro: «Depois do tirocínio pelas polícias seguia para a baiúca e deglutia o guisado que o tasqueiro lá da rua me fornecia, a preços módicos».
A história que dá titulo ao livro («Toda a nudez será castigada») tem o seu nome roubado ao dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues e articula um gesto de censura («Um vigoroso, grosso lápis azul») sobre uma prosa jornalística escorreita, simples e directa: «Noite insólita, fantástica. Vivida no pacato Largo da Mutamba. Um militar do exército passeou nu, de madrugada, naquela conhecida e central praça de Luanda».
Enquanto lembra Lisboa («deixei Lisboa, há três anos atrás. A morrinha, o frio e eu encolhido no cais») o autor assiste à debandada geral num linguado por acabar duma máquina de escrever na redacção dum jornal: «A loucura tomou conta de Luanda. Os movimentos de libertação digladiam-se sem tréguas nas ruas da cidade. Os colonos tentam fugir deste Inferno levando o que podem ou o que lhes permitem levar. Não há regras.»
Entre um e outro momento, entre a chegada e a partida, a vida em Luanda é um pesadelo («São medonhos os pesadelos nestas noites quentes e enormes») e tudo nessa vida se pode resumir a uma mala vazia: «A mala, a sua mala vazia, estava agora tão leve, evanescente que as suas mãos de vento não a conseguiam agarrar: era apenas o seu corpo, os seus ossos, uma canoa perdida que flutuava à deriva no nevoeiro». Dito de outra maneira e porque a história não acaba – o Largo da Mutamba estava repleto de soldados e de corvos e, lê-se na página 91, «consta que ainda lá estão petrificados».
(Editora: Vega, Prefácio: Manuel Frias Martins, Capa: Carlos César Vasconcelos, Revisão: João Ferreira, Paginação: Vítor Batista







