“Enfim, Expandir!” dá o título a um interessante artigo, escrito no feminino, por Erica (que continuaria a colaborar com a Gazeta neste período pós 25 de Abril e que não pertencia ao grupo que detinha o jornal), que aborda os sentimentos e o ambiente que se vivia após a Revolução dos Cravos.
Publicado na Gazeta das Caldas de 11 de maio, explica que “na minha condição de ser portuguesa, vivo o momento mais emocionante da minha vida! Queria saber falar, saber escrever, ou, dizer bem alto o que vai dentro de mim. dentro dos meus pensamentos e de toda a minha alma, por «eu» ser viva, nesta grandiosa hora», tão desigual àquelas em que tenho vivido como cidadã portuguesa! Jamais eu esperava!! Sim, jamais contava em ouvir ver e sentir» o povo, este povo nosso, tão queridíssimo, pelas ruas, cantando de cravos ao peito, cravos vermelhos nos cabelos e nas mãos, unido, muito unido, cadenciado ao som duma canção livre, cantada por vozes dum povo livre! O povo pareceu-me outro, nós todos parecemos outros!! As marchas vibraram com alegria e orgulho de se ser português, português conhecido «de novo» em todo o mundo livre. Estávamos presos por iguais a nós na roça! É inaudito!!… Amarrados por carrascos, nossos irmãos de pátria!!! Como foi possível?? Foi! São agora canções cheias de amor e de paz que expandem sentimentos e pensamentos reais! – Bem vivos! São palavras e abraços; lágrimas que caiem de olhos alegres; punhos fechados, simbolizando a força», o querer que é devido ao homem digno; são os dedos em V que dizem vitória! – Aconteceram torturas, provocações, castigos medonhos, inutilizaram-se homens, mulheres jovens, moral e fisicamente… fizeram-se atrocidades… e tudo isto, a quem nunca fora bandido, nem assassino, nem ladrão, sádico, devasso, nem sequer vivia como escória à margem da sociedade, não, não, esses entes «sofredores» apenas queriam dar suas opiniões sociais, fazer uma viragem política ao seu país, melhorar, por formas mais modernas e mais humanas a situação do seu povo! Não seriam pessoas perfeitas, essas?? Não, não eram, naturalmente, mas quem é completamente perfeito? – porém, porém… suas convicções de essência então perfeita, aproximava-os dum maior Bem Universal e que existia neles, através de seus ideais e suas acções. Podem errar na prática? E certo! E quem não erra neste mundo?… Todavia, foram presos aplicando-se-lhes sofrimentos não por matarem ou roubarem, nem por actos de menos humanidade, e sim, repito, pelos livres pensamentos mais justos e amoráveis para a formação duma mais correcta e integra sociedade portuguesa!! Haverá dificuldades!! Haverá desentendimentos e talvez confusões na mistura dos partidos políticos, mas tenhamos fé e coragem para esperar e tudo se recomporá. Uma represa que fendeu… Uma comporta que rebentou… Agora é quase o dilúvio… – E a ansiedade de dirigir o caudal de água límpida» para os leitos sequiosos dos rios, ribeiros e fontes!… Urge irrigar, generosamente, as terras sedentas de alimento fresco e vivificante… Há muito trabalho a fazer! É necessário boa vontade! união e paz! Afaste-se a «erva daninha» que tenta infiltrar-se no solo que se deseja limpo e bem semeado de trigo… e cravos e papoilas vermelhas!!! Alerta com esse «doce marasmo» de quem não tem pressa de revolver a terra para que ela não produza muito… Há sempre a quem não agrada (infelizmente) que todos comam dos mesmos frutos em igual abundância. Vamos cada um de nós trabalhar, com o fim de mantermos o nome do nosso Portugal, na vanguarda dos países mais prósperos e mais dignos e, sempre em frente, pela Paz e pelo Bem da Humanidade. (Esta, com todas as suas cores de pele, com todos os seus arreigados hábitos de raça e, com todo o respeito pelo «pedaço de chão» que a cada povo lhe cabe por leis inteiramente universais)”.
Termina esta crónica, assinada por Erica, com a seguinte afirmação: “Viva esta linda nossa Pátria”.
DEMISSÃO DO PRESIDENTE DA CÂMARA

História é também a constituição da Comissão da CDE depois de uma reunião, muito viva, promovida no Hotel Lisbonense.
PRIMEIRO DE MAIO

“Pelas 16 horas de quarta-feira passada concentraram-se na Praça da República milhares de pessoas. E tudo principiou pela colaboração da Sociedade Columbófila Caldense: a largada de pombos-correio que, esvoaçando, pairaram sobre a multidão como símbolo de Paz e de Alegria. Nas janelas dos Paços do Concelho presente a Comissão Democrática Eleitoral através dum seu representante que leu o texto de adesão à Junta de Salvação Nacional. Depois usaram da palavra com vibrante entusiasmo representantes dos vários sectores do trabalho, que foram calorosamente aplaudidos. Foram eles um estudante, uma dona de casa, um agricultor, um estudante, um metalúrgico, um empregado comercial e o presidente do Sindicato (secção das Caldas). Dois oficiais do Exército que em 16 de Março faziam parte da coluna militar percursora do Movimento de 25 de Abril apareceram depois às janelas dos Paços do Concelho e foram delirantemente ovacionados. Formado longo cortejo desfilou este pelas ruas da cidade com o maior civismo e ordem, entoando o hino nacional e empunhando cartazes, dísticos e bandeiras. Assim foi comemorado o Dia do Trabalho nas Caldas num ambiente de euforia e concórdia o qual foi também aproveitado para a análise dos problemas dos trabalhadores e enunciação das suas reivindicações”.
OS INTERESSES DO POVO

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL

Na edição seguinte, nova menção ao Grémio:
NOVOS RUMOS

Nesta edição explicava-se que este jornal se transformaria “em veículo de Educação Política. Na medida em que a expressão possa ser pretensiosa em relação à nossa capacidade de ensinar, preciso é esclarecê-la. Para tanto basta se diga que pretendemos, sem representar qualquer corrente de pensamento político, ficar ao serviço de todas como meio de comunicação dos seus adeptos com o leitor. Haveremos de ser, como foi já escrito nestas colunas, o Arauto do Povo. Porque «O Povo quere um jornal seu e que sirva os seus interesses. Isto foi escrito, nos dias de júbilo que marcaram na História as datas de 25 de Abril e de um de Maio, na fachada do prédio que serve de instalação ao periódico. Essa passará a ser a nossa divisa. Integra-se na vida política do País a vida política desta comunidade regional. Pois que nem só de política vive o Homem, as reivindicações do Povo e as dos Trabalhadores ter-nos-ão como eco. Reivindicações do Povo: seja as inseridas no contexto das pequenas comunidades locais que são os bairros, as zonas citadinas, as aldeias, os grupos profissionais, culturais, desportivos, recreativos etc., seja as do próprio indivíduo e as das famílias na sua justa reacção às injustiças como afirmação activa de todos os direitos de participação.
Reivindicações dos trabalhadores: Pois é o trabalho a única fonte de vida e a única segurança duma Pátria. A ele tudo se resume: na economia. no social, no político. Importa, pois, conferir aos trabalhadores mormente aos simples obreiros mas também aos escritores, aos jornalistas, aos comerciantes, aos industriais, aos médicos, aos engenheiros, etc. a primazia no respeito e nas atenções da comunidade. Sem, no entanto, usar de aviltantes discriminações. Do mesmo modo que haveremos de ser Arauto do Povo, também nós seremos em cada momento, o instrumento dum contacto íntimo entre servidores do Povo e o Povo. No sentido de conferir absolutas garantias aos caldenses do seguimento sem equívocos da orientação definida: 1º – a direcção do jornal passa a ser assistida, com direito a voto, por todos os que o produzem, empregado administrativo, trabalhadores gráficos e colaboradores que queiram participar; 2º – a administração ficará totalmente subordinada às entidades e órgãos indicados até ser entregue, totalmente, a essas entidades e órgãos; 3º – a propriedade do jornal, que é duma sociedade comercial, será transferida para os trabalhadores que o produzem e só êles receberão os lucros, se os houver, da actividade editorial; 4º – O bisemanário mudará de nome e de formato a partir de Outubro próximo e não já por carências de, ordem técnica e económica que se espera poder superar antes desse mês”.
Tudo isto fracassou como iremos ver nos próximos números. Terá sido uma tentativa fracassada de controlar os danos das alterações em curso em toda a sociedade. Mas é interessante analisar estes textos à luz do que sabemos hoje e de todo o processo que decorreu desde 1974.
O PAPEL

É também nesta edição que se dá a conhecer a mudança da Gazeta das Caldas de bissemanário para semanário, que não foi imediatamente concretizada. “O folhetim passa a publicar-se só aos sábados”, intitula uma peça que esclarece que “para podermos dar diferente dimensão aos textos noticiosos reduzimos a uma vez por semana a edição de sábado a inserção do folhetim”.
OS DESMENTIDOS
Começam também a aparecer anúncios de pessoas que desmentem pertencer à PIDE. No caso temos um caldense residente no Bairro das Morenas que “vem por este meio
desmentir categoricamente o boato posto a circular segundo o qual teria feito parte da extinta DGS ou PIDE. Mais declara, por sua honra, que jamais pertenceu aquelas instituições quer como agente ou informador e que, em face de tal boato se dirigiu voluntariamente às autoridades para completo esclarecimento. Tais afirmações continuem a ser feitas terão que provar judicialmente”, lê-se.















