Foi inaugurada no dia 20 de Fevereiro na Assembleia da República uma exposição com os jornais que se publicam ininterruptamente em Portugal há mais de cem anos, numa iniciativa que pretende candidatar a imprensa portuguesa centenária a Património Cultural da Humanidade. A intenção mereceu o apoio de todos os partidos, expresso numa conferência que teve lugar na mesma manhã, organizada pela Associação Portuguesa de Imprensa (API) e que contou com a presença de deputados, especialistas em comunicação social e responsáveis de vários jornais regionais.

Muita gente desconhece que a existência de mais de 30 jornais centenários é uma especificidade portuguesa que não encontra paralelo noutros países. Por vários motivos: os fins do séc. XIX e inícios do séc. XX foram pródigos no aparecimento de inúmeros títulos devido às disputas políticas no período final da Monarquia e durante a I República, muitos jornais foram fundados por famílias que os publicavam com um espírito de missão que não visava o lucro, e outros estavam associados a tipografias que os produziam por um custo marginal.
E há outro motivo de força: Portugal atravessou o século XX sem ter sofrido nenhuma guerra no seu território, o que o poupou da destruição de muitos jornais como aconteceu no resto da Europa.
Esta especificidade portuguesa deu azo a uma candidatura na UNESCO para declarar a imprensa centenária portuguesa Património Cultural da Humanidade.
Na conferência organizada na Assembleia da República pela Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, todos os partidos manifestaram o seu apoio a esta candidatura e Edite Estrela, presidente da comissão parlamentar, anunciou que o próprio Presidente da República também já tinha dado o seu apoio.

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João Palmeiro, presidente da API, apresentou um estudo do Reuters Institut (Universidade de Oxford), relativo a 2017, onde Portugal aparece em 3º lugar (a seguir à Finlândia e ao Brasil) na lista dos países onde os jornais merecem maior confiança por parte das populações. Uma confiança, disse João Palmeiro, que vem de longe, e que permitiu que haja dezenas de jornais portugueses que se publicam há mais de um século, tendo sobrevivido às guerras, às crises, a todas as vicissitudes.
Numa conferência a imprensa regional estava em maioria (só dois jornais nacionais são centenários), não se escamotearam as dificuldades vividas por este sector nem, por outro lado, a sua importância. A deputada Carla Sousa (PS) disse que o governo reconhece essas dificuldades e que estuda linhas estratégicas para encontrar um modelo de negócio para a imprensa.
Do PSD, Susana Lamas assegurou que o seu partido fará tudo o que estiver ao seu alcance para melhorar os jornais e as condições laborais dos jornalistas “para se poder representar todos os valores do jornalismo”.
Vânia Dias da Silva (CDS/PP) foi a única deputada a partidarizar o debate e acusou o governo pelos atrasos nos incentivos à comunicação social. Anunciou que o seu partido iria apresentar uma resolução ao governo para este sector e desafiou todos os partidos a segui-lo.
Jorge Campos, do Bloco de Esquerda, enfatizou que “trabalhar com jornais regionais é trabalhar com a memória” e que preservá-los é decisivo “num momento de extrema dificuldade no panorama da comunicação social portuguesa”. Uma opinião partilhada por Diana Ferreira (PCP) que aproveitou para referir o jornal mais à esquerda dos 33 centenários em exposição: a Voz do Operário, fundado em 1879 por operários da Tabaqueira e que ainda hoje se publica.
Esta deputada lamentou o desaparecimento de muitos jornais e disse que “o problema da comunicação social é um problema da Democracia” tal como “o empobrecimento da comunicação é também o empobrecimento da Democracia”.
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