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O falo das Caldas como resistência aos costumes

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Jantar-palestra juntou mais de 30 pessoas

Moisés L. Martins falou do falo e do manguito no jantar-palestra da Confraria do Príapo

A estátua de D. João Peculiar, em Braga, o falo das Caldas e o manguito do Zé Povinho são “expressões artísticas de sátira popular, de resistência aos poderes estabelecidos e ao puritanismo dos costumes, expressões essas que são, simultaneamente, uma afirmação da vida em liberdade”, defendeu Moisés de Lemos Martins, professor catedrático jubilado da Universidade do Minho. O orador falava no jantar-palestra da Confraria do Príapo, na noite de 27 de março, no My Heritage Rainho Pereira, no Campo, com a participação de mais de 30 pessoas.

D. João Peculiar, arcebispo primado de Braga, que coroou D. Afonso Henriques como o primeiro rei de Portugal, nas cortes de Lamego, em 1143, e que terá ido várias vezes ao Vaticano porque queria que fosse reconhecida a independência de Portugal, que só ocorreria após a sua morte, aparece nesta peça, de autoria de Raul Xavier, com um polémico báculo que adquiriu a forma de um falo.

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O orador destacou o percurso do escultor, que esteve envolvido na exposição Mundo Português, no Mosteiro dos Jerónimos, em 1940, com baixos relevos sobre Aljubarrota e frisou que “as pessoas são contraditórias” e que a identidade não é algo definitivo. Tendo colaborado com o regime e passado “a vida a fazer estátuas de santos e de padres”, pressupõe que “alguma coisa se passou” e interpreta a obra como “uma sátira ao poder da igreja, sempre coligada com os mais poderosos e também com um certo marialvismo da igreja católica, associada a uma religiosidade conservadora e que se estende à repressão sexual, a que a igreja católica sempre andou associada”. Acha ainda que é surpreendente que fosse desconhecida até 2003, tendo o autor morrido em 1964. Curiosamente, a estátua esteve colocada numa praça em frente à Sé de Braga durante largos anos sem qualquer problema, até se tornar viral nas redes sociais e ser retirada e escondida, em 2016, com promessas nunca concretizadas de voltar a ser colocada no espaço público.

O falo e o Zé Povinho
Já sobre a cerâmica fálica das Caldas, notou que “é uma tradição artística e satírica” e que “exprime irreverência”, mas também a “malandrice, humor local e paródia”. Defende que “é uma arma política” e que se lê “como a recusa de levar a vida demasiado a sério”, usando “o barro com malícia para rir e criticar o poder, assim como para celebrar a liberdade de expressão popular”.

Moisés de Lemos Martins destacou ainda a genialidade de Rafael Bordalo Pinheiro, que em 1865 cria o Zé Povinho. “Ver a imagem de Zé Povinho é reconhecer através do humor a resistência popular”, afirmou, acrescentando que “esse lado satírico e humorístico é uma forma de irreverência popular, da resistência cultural e de crítica social”. Realçou ainda as “sátiras contundentes contra os preconceitos sociais, contra a política e os costumes portugueses do século XIX” e que “o Zé Povinho é a figura maior desta resistência, simbolizando o povo que se ri e desdenha dos poderosos”.
Curiosamente, quando o orador foi contactado por Jacinto Gameiro, como a Gazeta das Caldas estava a celebrar 100 anos e tendo ele passado uma vida como professor dedicada ao ensino de Comunicação Social e um livro escrito com base num jornal local (o Aurora do Lima), pensou “que vinha falar sobre imprensa regional e a sua importância”.

O presidente da Confraria do Príapo, José Ramalho, estava feliz com a realização desta primeira iniciativa após o reativar da organização, realçando a presença de quatro confrarias à mesa (com a presença de representantes das confrarias do Frango na Púcara, da Codorniz do Landal e da Aguardente da Lourinhã). À Gazeta das Caldas revelou que o objetivo é que estes encontros sejam trimestrais.

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