
Apenas dois anos após a criação do Centro Hospitalar Oeste Norte (CHON), que agrupou os hospitais das Caldas, Alcobaça e Peniche, a organização das unidades hospitalares da região está prestes a sofrer nova alteração.
A junção do CHON com o Centro Hospitalar de Torres Vedras, noticiada na última edição da Gazeta das Caldas, deverá avançar, criando-se o Centro Hospitalar do Oeste (CHO). Esta foi a forma encontrada para racionalizar recursos e evitar que as duas unidades colapsem perante a dívida que foram acumulando nos últimos anos.
Mas ainda que nada esteja aparentemente definido, os rumores de transferência do centro de decisão para Torres Vedras e de perda de diversas especialidades, algumas das quais consideradas essenciais, estão a deixar população e forças políticas em estado de nervos.
O PS foi o primeiro a reagir e em conferência de imprensa considerou que a possibilidade de se perderem especialidades como Cirurgia Geral, Obstetrícia, Pediatria e Ortopedia “é um perfeito disparate”. Já o PCP faz saber em comunicado que considera que “isto é absolutamente vergonhoso e altamente prejudicial para os interesses dos cidadãos”. E tanto um como outro partido apelam à mobilização da população para que lutem pelos serviços hospitalares antes que seja tarde demais.
Já o presidente da Câmara das Caldas, Fernando Costa, que na passada terça-feira esteve reunido com a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), diz-se convicto de que a fusão do CHON ao Hospital de Torres Vedras “pode evitar que algumas valências fechem e vai criar novas valências que agora nem um nem outro têm”.

Quanto ao vereador do CDS-PP, Manuel Isaac, diz que “há que saber o que vai acontecer antes de reagir”. O também deputado na Assembleia da República e responsável distrital pelo partido, promete “defender os interesses das Caldas da Rainha”, mas para reagir, “é preciso saber quais são as valências que se perdem e quais se ganham”.
A incerteza marca o tom das primeiras reacções, que admitem estar perante o que podem não passar de rumores. Ainda assim, todos concordam que há que estar alerta, para evitar que razões puramente economicistas levem ao fim dos serviços hospitalares na região, ou à perda da sua qualidade, que consideram estar já muito aquém do que era desejável.
“Situação lamentável”, diz PS
Dias depois das primeiras suspeições sobre a reorganização das unidades hospitalares da região, o PS caldense levantava a voz e reclamava que “nunca, em muitas décadas, foi esta região e este concelho sujeito a uma ofensiva tão brutal”. Ao final da tarde da passada segunda-feira, 6 de Fevereiro, eleitos e históricos do partido garantiam não aceitar que “alguém em Lisboa pense que pode desprezar olimpicamente os interesses de todos nós”.
Na voz do presidente da concelhia, Delfim Azevedo, é “inaceitável” que se crie uma região que se estende entre Alcobaça e Torres Vedras e se coloque “o que se tem de melhor na periferia da região, para cúmulo, a 20 minutos do novo hospital de Loures”. A confirmar-se esta previsão, tornar-se-ia impossível gerir de forma séria “os fracos recursos da saúde que temos à disposição”, apontam.

A distância de algumas das localidades mais populosas da região actualmente servida pelo CHON relativamente a Torres Vedras não foi esquecida. Tal como não foi a necessidade de união em torno de uma luta que o PS entende ser de todos.
“Esta não é altura para partidarismos, esta é uma altura para cerrar fileiras e, se necessário, voltar à rua”, apelam. E nesta batalha querem ver envolvidos os responsáveis locais e distritais e eleitos à Assembleia da República pelos partidos que governam em coligação: PSD e CDS-PP. “Têm de explicar o porquê do seu silêncio, da sua apatia e dos seus braços caídos. Está na hora de demonstrarem o seu apego à sua terra e não anuir aos interesses dúbios desta decisão do governo”, reclamam os socialistas.
Mais exaltado do que o presidente da concelhia, Jorge Sobral, disse que aquilo que está em marcha é a tentativa de retirar às Caldas da Rainha mais-valias que foram consolidadas ao longo dos anos. E ainda que se esteja no campo das incertezas, o deputado municipal acredita que “quando se retira daqui o centro de decisão, retiram-se cuidados” e exige que mudanças tão significativas sejam discutidas com a população. Por isso, apelou a uma luta “objectiva e dinâmica, que deixe claro que nós nas Caldas da Rainha não vamos aceitar mais este roubo”.
Presentes na conferência estiveram os antigos administradores do Hospital das Caldas da Rainha Mário Gonçalves e Vasco Trancoso e ambos consideraram estar perante “uma situação lamentável” que vem pôr fim a uma evolução alcançada durante anos. E em questões de cuidados essenciais de saúde “não é admissível que a política se meta de permeio”.
Mário Gonçalves afirmou mesmo que a confirmarem-se estas suspeições, tratar-se-ia de uma decisão tomada por “indivíduos que vivem na ignorância crassa”. E caso se percam especialidades essenciais, “o hospital não tem razão de ser”.
O encontro com os jornalistas motivou ainda a vinda às Caldas da Rainha do responsável pela Federação Distrital do PS, João Paulo Pedrosa, que garantiu que o partido se vai “manter firme na defesa dos serviços hospitalares nas Caldas da Rainha”. Salientando que o governo de Passos Coelho tem recuado em muitas das intenções de encerramento de serviços, o também deputado na Assembleia da República diz que urge lutar contra as supostas intenções da tutela.
Os socialistas pediram desde logo a marcação de uma reunião extraordinária da Assembleia Municipal para debater esta questão. À hora de fecho desta edição a hipótese que parecia mais plausível era, em alternativa, a antecipação da sessão ordinária do mês de Fevereiro para a terça-feira, 21 de Fevereiro, dia de Carnaval, para que o assunto fosse debatido o mais depressa possível.
Além disso, os socialistas entendem que devia haver um encontro de responsáveis do partidos dos vários concelhos afectados por esta reorganização.
Fernando Costa acha que Caldas não ficará prejudicada
No dia seguinte à conferência do PS, o presidente da autarquia caldense era recebido na ARSLVT. À Gazeta das Caldas Fernando Costa não entrou em pormenores sobre o que tinha sido discutido na reunião, mas admitiu que “a união dos dois centros hospitalares é uma necessidade face ao momento dramático das finanças do país”.
Para o edil, “a funcionarem como estão, os hospitais podem morrer do défice” e a junção dos dois pode trazer vantagens além de um maior equilíbrio financeiro. “Pode haver uma melhoria nesta união”, aponta.
Fernando Costa diz que se os hospitais se fundirem, “é normal que haja valências que fiquem nos dois, sobretudo as mais importantes, e é normal que haja especialidades a mudarem de um hospital para outro, com o objectivo de racionalizar o funcionamento”.
Depois da ARSLVT, Fernando Costa quer reunir com o ministro da Saúde. “Estou plenamente convencido e tudo farei para que as valências principais continuem no nosso hospital. Também temos que perceber que os outros hospitais da região não podem perder as suas valências principais”.
Quanto à transferência do centro de decisão, Fernando Costa admite que este terá que ter uma sede, mas defende que a administração do novo centro hospitalar deve funcionar nos diversos hospitais que o integram. O autarca admite que “nunca podemos estar descansados, mas a minha convicção é que Caldas não sairá prejudicada nesta reorganização”.
Fernando Costa defende que a situação a que chegou o Serviço Nacional de Saúde e o CHON “não é culpa do actual governo, nem da actual administração” e “deviam ser chamados à responsabilidade criminal os que puseram o país na falência e deixaram os hospitais na falência”.
Administração do CHON nada esclarece
O presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Oeste Norte (CHON), Carlos Sá, salienta que a questão da reorganização dos hospitais da região “transcende as competências da administração” a que preside. Ainda assim, afirma que “os conselhos de administração dos dois hospitais envolvidos têm estado a par do que tem sido discutido”.
Sem prestar mais esclarecimentos sobre este assunto, Carlos Sá diz apenas que “é seguramente objectivo do ministério manter a qualidade dos serviços prestados à população”.
Já quanto à situação actual do CHON, o administrador adianta que “estão a ser desenvolvidas todas as iniciativas para retomar, o mais depressa possível e com elevada qualidade” as especialidades de Reumatologia, Urologia e Oftalmologia, actualmente suspensas por falta de médicos.










