O Sp. Braga eliminou os pelicanos com três golos na segunda parte
Três golos em 10 minutos tiraram o Caldas da Taça de Portugal, num jogo marcado por episódios que em nada dignificam o futebol português e a sua prova “Rainha”. O Caldas sai de cena, com um percurso em que foi tomba gigantes na quarta eliminatória e em que deu água pela barba aos Gverreiros, mas deixa uma mensagem que deve fazer refletir quem tem poder no futebol na defesa do espetáculo, dos clubes e sobretudo dos adeptos.
Ao apito inicial, o Caldas alinhou no seu meio círculo, Januário deu a bola ao capitão Clemente e assim ficaram os pelicanos, durante todo o primeiro minuto de jogo, em protesto contra uma alteração de jogo que ainda ficou mais difícil de entender dado o estado do relvado do Manuel Marques. Os jogadores do Sp. Braga respeitaram o protesto dos colegas do Caldas, enquanto os adeptos gritavam “Caldas!” na bancada.
Com a bola a rolar, foi do Caldas a primeira iniciativa de jogo, com o rancor a dar lugar a entrega dos pelicanos, que não se atemorizaram com o nome e a dimensão do adversário. Voltou a ver-se o Caldas solto, alegre e competente, capaz de pressionar alto a saída do Braga, mas também de respeitar os momentos em que era preciso recuar. Com o jogo do Braga bem “atado”, no miolo, os pelicanos conseguiram soltar-se numa mão cheia de ocasiões, com uma esquerda bem oleada onde Clemente e Farinha, com o apoio de Pipo, a causar problemas à defesa arsenalista. Em dois cantos, o Caldas criou perigo, não à primeira, mas a aproveitar as sobras à entrada da área. Yordy (20’) atirou a rasar, Gonças (26’) obrigou mesmo Tiago Sá a mergulhar para a sua esquerda para evitar o golo.
Gonças (40’) que viria a ter a melhor oportunidade em bola corrida do primeiro tempo, servido por Pipo no corredor central, avançou convicto para a área – todos os caldenses a terem um déjà-vu do lance em que o camisola 17 marcou ao Benfica – mas Gustaf Lagerbielke foi corajoso no carrinho que evitou que o remate fosse para a baliza, ato que lhe custou uma lesão que o obrigou a sair.
Na altura já o Braga tinha mais posse de bola no meio campo do Caldas, mas só chegou perto em dois livres e um canto que a defesa caldense resolveu sem problemas de maior.
O intervalo chegava com o Caldas a manter a baliza inviolada ao fim de 405 minutos na Taça de Portugal, mais 30 do prolongamento com o Tondela.
10 minutos terríveis
A segunda parte voltou com o Caldas a carregar pela esquerda Edu apareceu na área, tirou um centro atrasado que a defesa do Braga conseguiu anular. Na resposta o Braga foi mais feliz e em dois pontapés de canto fez dois golos separados por três minutos, primeiro por Fran Navarro (50’) a aproveitar uma bola devolvida ao segundo poste por Gabriel Moscardo, depois por Paulo Oliveira (53’), a elevar-se mais do que toda a gente para fazer o segundo golo. Seis minutos depois, foi Mario Dorgeles (59’) a fazer o terceiro com um remate colocado à entrada da área após uma triangulação com Zalazar e Ricardo Horta, depois de alguns minutos de Caldas no meio campo de ataque.
A eliminatória acabou ali e o ritmo do jogo baixou. José Vala aproveitou para dar minutos de jogo aos jovens Mateus Magalhães e Dani Fernandes, produtos da Quinta da Boneca, que ainda participaram num lance que podia ter dado o merecido golo de honra aos pelicanos.
Terminou, assim, mais um bonito trajeto do Caldas na Taça de Portugal, infelizmente marcado por um triste episódio protagonizado pela organização que tutela o futebol nacional, que devia cuidar de defender o jogo e os adeptos, mas que optou por fazer outra coisa com este jogo.
José Vala: “Jogámos num campo que está pior do que aquele que temos na Mata”
O treinador do Caldas, José Vala, não escondeu a frustração após a eliminação frente ao Sp. Braga, sobretudo pela mudança do local do jogo, que, na sua perspetiva, retirou à Taça de Portugal “aquilo que é mais bonito do futebol”.
“Jogámos num campo que está pior do que aquele que temos na Mata”, afirmou, garantindo que o relvado do estádio caldense apresentava melhores condições. “O campo da Mata estava a 90%, muito melhor do que este. Aqui não havia duas zonas más, havia um campo inteiro em más condições, que foi ficando ainda pior ao longo do jogo.”
José Vala foi duro nas críticas à decisão que impediu a realização do encontro nas Caldas da Rainha. “Houve alguém que decidiu isto e essa pessoa tem de ser responsabilizada. Houve um técnico de uma empresa que exagerou, premeditadamente, para que o jogo não fosse na Mata”, acusou, defendendo que todos acabaram por sair a perder. “O Caldas provavelmente perderia o jogo na mesma, o Braga tinha 90% ou mais hipóteses de ganhar, mas perdeu-se aquilo que é mais bonito no futebol: a festa.”
O treinador destacou o trabalho da direção do clube e lamentou a oportunidade desperdiçada. “Ia ser uma festa brilhante, como já foi com o Benfica, com a Académica ou com o Arouca. O futebol ia ganhar, a Taça de Portugal ia ganhar e, provavelmente, o Braga também ia ganhar”, sublinhou, deixando um abraço público ao presidente Rodrigo. “Lidera uma estrutura completamente amadora que dedicou horas e horas para preparar esta festa.”
No plano desportivo, José Vala elogiou a exibição da sua equipa, sobretudo na primeira parte. “Fizemos uma grande primeira parte, com muita organização, conseguimos dividir o jogo e até ter as aproximações mais perigosas”, afirmou. O desfecho acabou por ficar marcado pelos golos sofridos no arranque da segunda parte. “São dois golos de bola parada, logo no início, que decidem o jogo. A partir daí, o Braga assumiu a posse e fez valer a sua qualidade.”
Ainda assim, recusou falar em quebra da sua equipa. “Não senti uma quebra física. Senti mérito do adversário, que ajustou ao intervalo e tem muita qualidade ofensiva”, explicou, assumindo orgulho nos seus jogadores. “Fico com um orgulho enorme deste grupo, deste clube e desta direção.”
O técnico revelou também a preocupação em manter o equilíbrio emocional do plantel. “A raiva não nos leva a nada. Disse-lhes para não perdermos a razão, para dignificarmos o jogo e a competição, respeitando muito o Braga”, contou. “Acho que conseguimos isso, tivemos uma equipa equilibrada emocionalmente.”
Por fim, José Vala deixou uma reflexão mais abrangente sobre o futebol português e o papel das competições. “Estes momentos deviam ser aproveitados para valorizar o futebol. Em vez de se colocarem grãos na engrenagem, se ajudassem as coisas a fluir, todos ficávamos a ganhar”, concluiu, lamentando uma oportunidade perdida para o Caldas, para a Taça de Portugal e para o futebol nacional.
Carlos Vicens: “Equipa soube adaptar-se às dificuldades e teve a mentalidade certa para seguir em frente”
Carlos Vicens, treinador do Sp. Braga, destacou a “mentalidade extra” demonstrada pela equipa na vitória frente ao Caldas, que garantiu a passagem à fase seguinte da Taça de Portugal, sublinhando as especificidades deste tipo de jogos e a forma como os minhotos souberam adaptar-se às dificuldades encontradas.
“Os jogos da Taça são sempre especiais, porque não há um amanhã para uma das equipas. Isso torna a competição diferente, com fatores e circunstâncias próprias”, começou por explicar o técnico, frisando que o Braga entrou em campo consciente dos desafios. “Sabíamos que tínhamos de enfrentar este jogo com um nível de mentalidade extra, até porque não conhecíamos tão bem o adversário nem o estádio.”
O treinador reconheceu que a equipa foi crescendo ao longo do encontro. “Durante o jogo fomos de menos a mais, sobretudo a perceber o que a equipa precisava. Na primeira parte o nosso ataque foi mais lento, muito por causa da zona direita da construção, onde o relvado estava em pior estado e dificultava a circulação de bola”, explicou. Segundo o técnico, alguns ajustes feitos ao intervalo foram decisivos: “Na segunda parte corrigimos algumas posições e isso ajudou-nos a crescer no jogo e a abrir o marcador, aproveitando bem as bolas paradas.”
O primeiro golo foi apontado como um momento-chave. “Nestes jogos a eliminar, em que só passa uma equipa, o primeiro golo é sempre muito importante. Dá confiança a quem marca e obriga o adversário a arriscar mais”, afirmou, reforçando, ainda assim, que o essencial foi a atitude coletiva. “Fico sobretudo satisfeito com a forma como a equipa se esforçou, com o carácter, a personalidade e o rigor com que enfrentou todas as dificuldades.”
O técnico abordou também a questão logística, lembrando que a equipa se preparou inicialmente para jogar no Campo da Mata. “Só tivemos a confirmação quase no último momento. Teríamos gostado de jogar nas Caldas, porque o sorteio assim o ditou e também seria importante para o Caldas jogar em casa”, referiu.
Sobre os golos de bola parada, o treinador destacou a importância crescente desse momento do jogo. “Hoje em dia marca-se muitos golos de bola parada no futebol mundial. Tentamos trabalhar isso o máximo possível, embora o calendário seja muito exigente, com jogos a cada três ou quatro dias, o que obriga a uma gestão cuidada do treino e do descanso.”
No final, deixou elogios à capacidade de adaptação da equipa. “Os jogadores interpretaram bem o que o jogo pedia em cada momento. Adaptaram-se às circunstâncias e isso permitiu-nos seguir em frente, que era o mais importante”, concluiu o treinador bracarense, já com o foco apontado ao próximo compromisso do campeonato.





