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Arquivos e Mulheres

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Joana Beato Ribeiro
Arquivista

Sou mulher e feminista, acredito na igualdade entre todos e penso que esta faz ainda mais falta num mundo sem equidade. À minha volta, as mulheres sempre foram o centro! Criaram-me, ainda que a presença masculina fosse igualmente constante – quem tem acompanhado estas crónicas já o terá percebido. De entre estas mulheres de que falo, há uma que, especialmente, me moldou: a minha avó Josefa. A sua vida de pobreza, o seu testemunho da ausência de quase tudo aquilo a que hoje nem atribuímos valor e, principalmente, o carinho que colocou no muito que me ensinou e o gosto com que me incentivou a apostar nos conhecimentos que ela própria não possuía, fizeram-me apaixonar pelas letras. Este foi um caminho sem volta e ainda bem!

Djaimilia Pereira de Almeida, no seu ensaio “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo” (2023), fala do privilégio deste tempo em que vivemos, comparando-o (também) com o tempo da sua avó. “Nunca antes na História uma mulher como sou podia aspirar um destino semelhante ao que vivo. (…) nunca antes tinha sido para mim tão absolutamente avassaladora a noção de que o meu destino ser-me-ia absolutamente impedido, caso eu não tivesse nascido quando eu nasci.”

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A autora fala da sociedade atual, em que a mulher tem um lugar renovado, mas quase nunca foi assim, mesmo no longo século XIX (usando a caraterização de Hobsbawm), em que começa a afirmar-se o indivíduo, enquanto ser único, dotado das suas qualidades, instrução e não somente herdeiro de um estatuto social ou familiar. É desta conjuntura que, em grande medida, nasceu uma tipologia de arquivo de que gosto: o do indivíduo. E este, ladeado pelo programa de modernização do Estado que criou, por exemplo, os arquivos nacionais, modificou a paisagem informacional das nações.

No entanto, nesta paisagem nacional, ainda hoje, a presença feminina é residual. Não sou eu que o digo, mas Zélia Pereira na sua Tese de Doutoramento sobre a situação dos arquivos pessoais em Portugal.

Nas minhas investigações, tenho procurado invocar sempre as mulheres, até porque estão irrevogavelmente presentes. Ao inaugurar, em novembro passado, a exposição “Casas de Bem-Fazer”, enumerei algumas senhoras caldenses responsáveis pelo funcionamento do Lactário-Creche Rainha D. Leonor. E posso dar conta do toque feminino presente no arquivo pessoal do médico Fernando da Silva Correia, por exemplo, referindo a ação da sua irmã e assistente social Filomena Correia na conservação e organização da sua biblioteca em 1960.

A Garota Não diz-nos: “Que mulher é essa, que não se dobra nem parte, mas que se esconde na sombra do seu próprio medo?” Eu, no mês da Mulher, desejo que esta continue sempre a assinar novos documentos, que seja plena na vida, na ação e na opinião!

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