
Ora o circo nacional é o País em quatro versos. Seja nos «lares» («Mas onde queres que eu ponha / Um pouco de dignidade / Quando aqui não há vergonha / Sequer na terceira idade?») seja na vida pública («Sobes todos os degraus / Neste país de ladrões / Começaste em vinte paus / Até chegar aos milhões») seja na memória das privações («Quando uma sardinha assada / Era conduto de três / Passavam sem dar por nada / Feudais na sua altivez») seja ainda na história marítima que também é trágica no plural («Este povo aventureiro / Que descobriu tantas ilhas / Vai de Lisboa ao Barreiro / Às vezes, só a Cacilhas») e no singular: «Num barco, de camuflado / Quando dormia o país / Fui com outros arrancado / À terra, pela raiz».
Quem olha para o circo nacional é o Poeta no seu ofício: «Com os altares da sé / Cheios de pó e caliça / Sou um padre já sem fé / Mesmo assim dizendo missa». Ofício cercado de silêncio e sujeito às suas emboscadas: «Recenseaste cem mil / Poetas, não fui citado / À minha morte civil / Também tu tens ajudado.» Mas também proclamado todas as manhãs: «Escrevo as quadras que canto / Pelo amor, contra a mentira / Várias quando me levanto / Rimo como quem respira». Portugal nem é um país de poetas nem de brandos costumes: «Os ratos na sacristia / Todos os dias do ano / Não ligam à homilia / Quanto mais ao Vaticano».
Mas fica sempre uma esperança nas últimas quadras do livro («Qual adeus, qual despedida?/ Abram lá essa janela! / Sofri muito a minha vida / E mesmo assim gosto dela») ligando o passado do futuro: «Tentei voltar ao passado / Dei de caras com um muro / No qual estava gravado / O caminho do futuro»
(Editora: Húmus, Capa: António Pedro sobre o atlas Ortelius – século XVI, Prefácio: Mário de Carvalho, Apoio: Câmara Municipal de Castelo Branco)







