

Embora não surja no livro de modo óbvio há em Portugal uma tradição de textos do absurdo em autores como Santos Fernando, Ernesto Lela, Orlando Neves e Júlio César Machado que, num certo sentido, são os «antepassados» de Carlos Querido. O horizonte da vida dos protagonistas é, em geral, monótono e repetitivo («Eu tinha uma vida discreta e cinzenta, um pouco apagada») e não por acaso surge o fascínio dos poços sem fundo como o do Rio Arnóia (Lagoa de Óbidos) ou dos Açores: «Que estranho rugido era aquele? Aproximou-se e verificou que emergia das profundezas do planeta, vindo do princípio dos tempos e se expandia por uma cavidade que certamente não teria fim.»
No conto «A herança» a estranheza é de outra ordem: há um crime cometido por alguém e o «morto» surge nos sonhos da filha de seis anos do protagonista: «mamã, papá, desenhei o monstro que aparece nos meus sonhos». Era Manuel Carriço, como não podia deixar de ser. Um outro aspecto que ajuda a dita estranheza é o uso de algumas palavras como por exemplo gurita (123), Rilhafoles (105), insígnias (15), lar (43) ou jesus (91) quando poderia ser utilizado outro vocabulário: guarita, Miguel Bombarda, galões, Lar ou Jesus. Trata-se de uma opção do autor que não por acaso cita Herberto Helder na página 47: «Diria o poeta que se quisesse enlouquecia.» Estamos perante um belo livro dum autor eclético pois junta à capacidade da escrita de livros anteriores a sabedoria e a capacidade do poder de síntese. Passa da extensão à brevidade mas mantendo o fio, o toque e a linha da qualidade.
(Editora: Abysmo, Capa: Sal Nunkachov, Revisão: Noémia Machado)







