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16 de março – um “golpe” que também se fez nas páginas da Gazeta das Caldas

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A saída em falso da coluna militar das Caldas em direção à capital em 16 de março de 1974 foi retratado ao longo dos últimos 52 anos pela Gazeta de forma consistente e numa ótica de valorização da intentona como precursora da revolução, foi por proposta deste semanário que existe uma rua com esta data emblemática

1975
Em 1975 Gazeta das Caldas não faz referência ao “Golpe das Caldas”, como ficou conhecida a tentativa de golpe para derrubar o regime de Marcelo Caetano, levada a cabo por militares do Regimento de Infantaria n.º 5, das Caldas da Rainha.

1976
Já no ano seguinte, na sua edição de 12 de março, este semanário destacava que se aproximava o segundo aniversário do “histórico levantamento” do Regimento de Infantaria n. 5, contra o regime fascista de Marcelo Caetano, mas “ignorando” se se preparava alguma cerimónia para comemorar esse acontecimento e realçando que a Gazeta das Caldas “não quer deixar passar esta data sem a assinalar”. Não tendo conseguido entrevistar um “simples soldado que tenha participado naquele acontecimento histórico”, como dá conta na edição seguinte, de 17 de março de 1976, o jornal conseguiu, no entanto, obter um relatório “bastante circunstanciado”, da autoria do Capitão Novo, que interveio diretamente no 16 de Março, e cujo conteúdo viria a publicar, semanalmente, nas edições seguintes.

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1977
No ano seguinte, na edição de 7 de março, Gazeta das Caldas deixa uma proposta: “como até este momento não foi perpetuado este histórico acontecimento, lançamos a sugestão ao Município, caso a ache justificada, de o fazerem com a atribuição a uma rua da cidade, daquela data”. A resposta viria na edição seguinte sob a forma de notícia. “Na sessão camarária do passado dia 16 de Março, o Presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha apresentou uma proposta que viria a ser aprovada por toda a Edilidade, de dar a uma rua da cidade o nome de 16 de Março, considerando que passava naquele dia o terceiro aniversário do movimento do 16 de Março, precursor do 25 de Abril, no qual o Regimento aquartelado nesta cidade teve uma atuação destacada, traduzindo o verdadeiro sentimento popular de ânsia de liberdade, considerando que se trata de uma data histórica para o Povo Português e muito especialmente para as Caldas da Rainha”, refere.

1980
A 12 de março de 1980, a Gazeta das Caldas dá conta que não está nada previsto para assinalar a data e deixa a sugestão para que, aquando das celebrações do 25 de Abril, sejam trazidos “alguns ou todos daqueles que em Março tornaram aberto o caminho para Abril”.

2011
A proximidade temporal do acontecimento e a visão diversa dos seus intervenientes levaram a que, em 2011, a “tertúlia debate” prevista para as comemorações do 16 de Março, na Escola de Sargentos do Exército, não se tivesse realizado. De acordo com a edição de 1 de abril da Gazeta das Caldas, o comandante da ESE das Caldas da Rainha recebeu indicações da sua hierarquia para cancelar a iniciativa, tendo o jornal apurado que as “chefias militares recearam que o debate fosse demasiado aceso, trazendo mais uma vez à tona as divergências entre os militares que participaram nos acontecimentos ocorridos há 37 anos nas Caldas da Rainha e que levariam a acelerar a revolução de 25 de Abril”.
Ainda de acordo com a mesma edição, a presença de 11 oficiais e vários antigos aspirantes e furriéis que estavam no quartel caldense naquele dia constituía uma boa oportunidade para que muitos dos jovens estudantes e respetivos professores pudessem fazer perguntas e ouvir de viva voz o relato dos acontecimentos contados pelos seus protagonistas. “Mas afinal tudo se resumiu a uma sucinta narração dos factos feita por um tenente-coronel, tendo a sessão terminado abruptamente, para grande espanto dos professores e dos militares convidados”, refere o jornal que, tendo questionado o comandante da ESE, Alves de Oliveira, obteve como resposta que “a intenção desta iniciativa não era a de haver mais discussões, mas sim dizer aos mais novos que houve este acontecimento”. Admitindo que “há diferentes sensibilidades” sobre o 16 de Março de 1974, o coronel Alves de Oliveira disse ainda que este assunto deve ser deixado para os historiadores, adianta a notícia.

2014
A 5 de junho de 2014 o 16 de Março e o 25 de Abril foram revisitados numa iniciativa da Gazeta das Caldas, integrada no programa da cidade que assinalava os 40 anos destas duas datas históricas. No CCC foi apresentada a reedição do livro “O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril” (Editora Planeta), com a presença de Avelino Rodrigues e Cesário Borga (co-autores do livro) e os coronéis Vasco Lourenço, Gonçalves Novo e Carlos Clemente que pertenceram ao Movimento das Forças Armadas (MFA). Avelino Rodrigues, que foi pároco nos Vidais e capelão no RI5 em finais dos anos 60, defendeu a sua tese de que a génese do MFA esteve nas Caldas tal como contou à Gazeta das Caldas na sua edição de 25 de Abril.

2018
O monumento evocativo do 16 de março, da autoria de José de Santa Bárbara, foi inaugurado a 24 de março de 2018 (cinco anos depois de anunciado), pelo secretário de Estado da Defesa Nacional, Marcos Perestrello, que reconheceu que a data “deveria fazer parte dos programas escolares”, refere a Gazeta das Caldas. Contudo, e esta tem sido uma tónica comum às intervenções dos autarcas nos últimos anos, as comemorações do Golpe das Caldas têm tido apenas uma abrangência local, lamentando a falta de relevo dada pelas entidades nacionais à efeméride.

2019
A 16 de março de 2019 a Escola de Sargentos do Exército abriu as suas portas à comunidade, dando a oportunidade, a dezenas de caldenses, de conhecer os locais onde se desenrolou a ação do Golpe das Caldas. Dois anos mais tarde, em plena pandemia, o 16 de março foi assinalado com a colocação de uma placa explicativa que dá a conhecer o que foi o “Golpe das Caldas” junto ao monumento, que se encontra em frente ao quartel das Caldas. Este tem sido, de resto, o espaço simbólico das comemorações que têm também contado, nos últimos anos com conferências com historiadores e alguns dos militares envolvidos no “Golpe das Caldas”.

2024
Na sua edição de 2024, o semanário publica o artigo “16 de março-um esboço”, da autoria de Manuel Martins. O historiador caldense faz um ensaio sobre o acontecimento, propondo-se a “sintetizar as conclusões a que se chegaram sobre esse dia, sobre os seus antecedentes e sobre as suas consequências e apelar à continuação do seu estudo através da apresentação de uma nova tipologia de fonte – a do arquivo partidário e particular – e ressalvando que outras permanecem por descobrir e identificar”.

2025
Em 2025, 50 anos decorridos do Golpe das Caldas, Gazeta das Caldas dedicou as suas centrais ao tema, que foi “celebrado com mais pompa e circunstância do que tem sido feito nos últimos anos”, refere na sua edição de 20 de março. A cerimónia evocativa decorreu junto ao Monumento alusivo à Intentona contou com mais convidados da sociedade civil e militar, foi instalada uma plateia de cadeiras e sistema sonoro. No final da sessão foi descerrada uma placa de homenagem do povo aos militares das Caldas e que assinala a passagem dos 50 anos do 16 de Março. Foi também estreado o documentário “A Conspiração – O Golpe das Caldas, ensaio para a Liberdade”, realizado por António Pedro Vasconcelos (e concluído pelo filho), e que conta com depoimentos dos protagonistas do Movimento dos Capitães. As comemorações começaram no dia antes, com a atuação

1974
Ao nível internacional, a edição do Daily Telegraph, de 18 de março de 1974, fala do “virar à direita em Portugal depois do fiasco do motim”, referindo-se fracasso da sublevação dos militares das Caldas dois dias antes. O Le Monde e o Le Figaro fazem primeira com o acontecimento. “Um regimento amotinado é detido perto de Lisboa por tropas leais a Marcelo Caetano” e “Portugal: a rebelião abortada dos pretorianos? Crise profunda de um regime semi-centenário ou simples rebate de cólera”, titulavam os diários.
O L’Humanité, de 18 de março, fala de 200 oficiais presos depois de várias unidades militares se terem rebelado e dá conta da marcha da coluna caldense até à capital, mas que ao chegar ao aeroporto, o regimento encontrou a estrada bloqueada por elementos da Guarda Republicana, reforçada por várias tropas. Depois de algum tempo de negociações, os militares caldenses regressam, finalmente, à sua guarnição. “Os rumores de que o General Spínola era o responsável por estas tropas foram negados”, refere a mesma publicação.

As comemorações de 2026

Maria Inácia Rezola, historiadora e comissária executiva das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril estará no CCC, no próximo dia 14 de março, pelas 16h00, onde proferirá uma palestra que incidirá no período histórico entre o 16 de Março de 1974 e o 25 de Novembro de 1975. Esta iniciativa marca o início das comemorações evocativas do 16 de Março de 1974 que continuam, nessa mesma noite com o concerto “Anónimos de Abril”, a decorrer pelas 21h30, no grande auditório do CCC. Com músicas de Rogério Charraz e letras de José Fialho Gouveia, “trata-se de um espetáculo de homenagem a homens e mulheres que desempenharam um papel determinante na Revolução e na Resistência, mas cujo contributo permaneceu muitas vezes nos rodapés da História. Em palco estarão também Joana Alegre e João Afonso, que darão voz a canções inéditas e originais evocativas de temas como a clandestinidade, as flores, a perseguição, a tortura e a fuga, celebrando e eternizando aqueles que lutaram pela Liberdade, refere a organização.
No dia 16 de março, pelas 16h30, terá lugar a cerimónia evocativa junto ao monumento da autoria de José Santa-Bárbara (frente à ESE) com intervenções de diversas entidades.

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