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O 16 de março na Gazeta antes e depois do 25 de Abril

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No próprio 16 de março de 1974, a edição desse dia é omissa quanto aos acontecimentos que se passaram no RI5 naquela noite e madrugada. Apenas a 4 de maio, já com uma nova posição editorial, fala de como a população encheu a Praça para “manifestar a sua alegria ante a transformação politica em boa hora operada no país”

Zélia Oliveira

Nos 52 anos passados sobre a saída em falso da coluna militar do Regimento de Infantaria 5 (RI5) das Caldas da Rainha, revivemos como a Gazeta noticiou o “Golpe das Caldas” quando vigorava a ditadura e a censura e um mês e meio depois, após restabelecida a liberdade de imprensa.

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Único bissemanário que então se publicava no distrito de Leiria, a Gazeta das Caldas saía às quartas e aos sábados e tinha na ocasião como diretor e editor Carlos Saudade e Silva.

No próprio 16 de março de 1974, a edição desse dia é omissa quanto aos acontecimentos que se passaram no RI5 naquela noite e madrugada. O destaque são os 50 anos “ao serviço das letras” de Luiz Teixeira, escritor e jornalista que era “como que um irmão mais velho” da Gazeta e o discurso do novo governador Civil, Manuel dos Santos Machado.

Quatro dias depois do golpe falhado, em 20 de março, a Gazeta abordava pela primeira vez o assunto num texto alinhado com as posições do regime de Marcello Caetano.

O acontecimento foi classificado como uma “insurreição de opereta”.

O artigo ignorava por exemplo a resposta do regime e as movimentações que levaram ao isolamento das entradas de Lisboa desde a madrugada com destacamentos militares, nomeadamente blindados e forças de paraquedistas, secundadas por companhias de choque da PSP. Todas as unidades e estabelecimentos militares do país passaram ao estado de prevenção rigorosa.

Segundo a Gazeta, aquela iniciativa podia ter tido origem “em qualquer instalação militar do país”, ignorando-se o ambiente que se vivia no RI5.

A saída de Costa Gomes e António Spínola dos cargos de chefe e vice-chefe de Estado Maior das Forças Armadas dois dias antes tinha provocado instabilidade, que se fez sentir no RI5 das Caldas da Rainha. Já a 12 de março, oficiais daquela unidade tinham dito ao comandante interino que se acontecesse alguma coisa a Costa Gomes e Spínola tomariam uma posição de força.

O autor desconhecido deste primeiro artigo sobre o 16 de março referia ainda a preocupação dos caldenses com o futuro e por verem o nome da cidade associado a um acontecimento “infeliz” com a escolha da cidade para “ponto de partida da rebelião-farsa”.

Na realidade, o acontecimento levou o então chefe do Governo a convocar para o próprio 16 de março uma reunião do Conselho de Ministros em São Bento com praticamente todo o elenco governativo a interromper o fim de semana. No final, foi emitido um comunicado onde se lia: ”Depois da rendição dos oficiais que se sublevaram nas Caldas da Rainha reina a ordem em todo o país”.

Em linha com o regime, a Gazeta também concluía: “Os caldenses devem, pois, ficar tranquilos”, acrescentando, que “nem deveriam recear a perda de prestígio da unidade militar nem que tenha sido beliscado o passado histórico do RI5”.

Na edição de 23 de março, o assunto volta à primeira página sob a forma de reflexão e do receio de que a escola de sargentos milicianos deixe de se localizar nas Caldas por aí ter acontecido uma rebelião.

Dando continuidade ao tema, na edição seguinte a Gazeta informa que está assegurado: “o RI5 continuará a ser centro de instrução de milicianos. Os instruendos do período decorrente estão desde quarta-feira a receber instrução com absoluta normalidade”.

Em 1 de maio, sete dias após o 25 de Abril, a Gazeta já aparece alinhada com o novo poder de Lisboa.
Num artigo intitulado “Educação política”, assinado por L. Rosa Bruno, é mencionado pela primeira vez o golpe de estado do 25 de Abril, afirmando que teve “pleno êxito” e que deteve “o alastramento temeroso da crise nacional”.

O autor escreve que a Junta de Salvação Nacional (que ficou aos comandos do país após a rendição de Marcello Caetano) está a agir com “talento, velocidade e eficácia, inspirando tranquilidade e concórdia”.

Na mesma primeira página aparece em título que se tinha realizado dia 29 de abril uma “manifestação de apoio à Junta de Salvação Nacional com a presença de enorme multidão”.

A 04 de maio, a Gazeta assumia uma nova posição editorial: “O diretor deste jornal deu a um representante das forças democráticas caldenses garantias de integração imediata da Gazeta das Caldas no espírito e na ação da Junta de Salvação Nacional”.

Nesta edição, surge em destaque o título: “Homenageados pelo povo os militares da arrancada de março”.

É nesta edição que a Gazeta fala dos militares que participaram no 16 de março ao noticiar a que a população encheu a Praça da República para “manifestar a sua alegria ante a transformação política em boa hora operada no país”. A noticia é ilustrada com uma fotografia da população na rua.

E a propósito de terem regressado à unidade militar 18 oficiais que participaram na coluna militar do 16 de março conclui agora que a iniciativa foi “precursora do glorioso derrube do governo cessante”.

Conta ainda que os militares se reuniram num almoço em que esteve presente como representante das forças democratas António Maldonado Freitas. Ao saírem do restaurante a multidão esperava-os na Praça da República onde “foram então alvo de apoteótica manifestação” de apoio.

Refere também que os militares foram entrevistados pela Emissora Nacional (atual Antena1) e revelaram pormenores da ação que desenvolveram.

Percorreram as ruas da cidade em carro aberto e chegaram aos Paços do Concelho e à sala das sessões onde “assomaram à janela sendo prolongadamente aplaudidos pelo povo”.

O capitão Virgílio Varela, um dos mais ativos no 16 de março, agradeceu e frisou que a marcha sobre Lisboa tinha sido ditada por um imperativo de consciência.

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