
Gonçalo Santos e Rodolfo Daniel saíram de Tornada ao volante da Princesa, de 38 anos, e até ao dia 14 estão a participar no Uniraid, uma iniciativa solidária em terras marroquinas
Dois caldenses saíram de Tornada no dia 6 de fevereiro numa Renault 4L de 1988 a que chamam de Princesa. São os Ultras Tornada e o seu objetivo era participar no Uniraid 2026, em Marrocos.
O Uniraid é uma iniciativa solidária que se realiza anualmente e na qual os participantes (um total de 400 pessoas em 200 viaturas) levam roupas, brinquedos e bens de primeira necessidade para distribuir por crianças carenciadas em Marrocos.
Gonçalo Santos e Rodolfo Daniel são ambos de Tornada, nas Caldas da Rainha, e sempre gostaram de automóveis. O Uniraid é uma forma de fazer solidariedade aliada ao gosto pelas quatro rodas.
Para esta missão, a primeira do género que vão realizar, decidiram adquirir a tal Renault 4L, que estava esquecida num palheiro e que foi toda recuperada e preparada para esta missão.
Um dos primeiros grandes testes deu-se na sexta-feira, por exemplo, quando fizeram mais de 400 quilómetros até Algeciras, numa viagem com mais de oito horas.
Já em solo marroquino receberam o dorsal para o seu carro, o 88, celebrando com um brinde com cerveja fresca.
Os carros que participam no Uniraid têm que ter mais de 15 anos e só são aceites automóveis com tração simples.
A dupla conta-nos que maioritariamente são utilizados carros franceses, até pela facilidade que existe em Marrocos para os arranjar. Os modelos mais vistos são o Citroen Saxo, o Peugeot 106, mas também o Fiat Panda. Um dos mais antigos, contam, é um Ford Escort.
As nacionalidades mais representadas entre os participantes são os portugueses e os espanhóis. “Já encontrámos malta de Torres Vedras e também de Alcobaça”, dizem.
Estradas inundadas
Em solo marroquino encontraram estradas inundadas devido à muita chuva, o que obrigou à mudança de trajetos. Uma particularidade do Uniraid é que o GPS é proibido, pelo que as duplas (que se revezam nos cargos de piloto e co-piloto) têm que seguir com atenção um roadbook.
Entre vários episódios curiosos e histórias para mais tarde recordar está um momento, que partilharam, em que, ao fim do primeiro dia de viagem e depois de abrirem as malas, perceberam que estava tudo molhado lá dentro. “Além de avariar, a Princesa ainda mete água…”, lamentou Rodolfo, em tom de brincadeira, com a roupa estendida em cabides no quarto.
No sábado fizeram Tânger-El Hajef e no domingo foram daí para Aufous. No domingo tiveram “o dia mais importante da nossa missão”, com “o encontro com as crianças onde entregámos os bens recolhidos”. A dupla refere que “foi das situações mais confortantes das nossas vidas” e que “cada sorriso vale por mil palavras”.
Gonçalo Santos e Rodolfo Daniel recolheram, com a ajuda de amigos e familiares, um total de 40 quilos de roupas, brinquedos e bens de primeira necessidade, que era o limite para esta iniciativa. E a pobreza que encontraram em aldeias marroquinas foi “chocante”, admitem.
Percalços da viagem
A viagem tem sido marcada por uma série de percalços. Na segunda-feira, por exemplo, foi ver a Princesa encalhada no deserto, a ser empurrada para sair e continuar a sua viagem, com destino a Merdani. “Andámos um dia inteiro sem ralenti a gerir o carro”, contaram, Além disso, também já tiveram um furo. Quando chegam aos acampamentos (e há um tempo limite para concretizar o percurso de cada etapa), os participantes contam com apoio mecânico, que se prolonga pela noite dentro, até de manhã, quando os participantes arrancam para o próximo destino.
“A Princesa requer muito mimo”, brincam, notando que “com espírito aventureiro e com resiliência” têm conseguido superar os obstáculos. E, para tal, frisam os caldenses, muito tem contribuído a entreajuda que existe no seio dos participantes, com uns a pararem para ajudar os outros.
Terça-feira a ligação era com Erg Chebbi, de onde seguiriam depois para Nkob e daí para Marraquexe, a última paragem antes do regresso a Tânger, que está previsto para este sábado, dia 14.
Gonçalo Santos e Rodolfo Daniel realçam a dureza das etapas, notando o cansaço. Mas é percetível o entusiasmo com que estão a viver estes momentos e, no futuro, esta dupla aventureira pretende participar em mais iniciativas deste género.













